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Aqueles que só bebem cerveja podem ser dependentes de álcool?
| "Bebedores de destilados
demonstraram maior gravidade do alcoolismo, maior magnitude do craving
(fissura) pela bebida e menor aderência ao tratamento médico
proposto, em relação aos bebedores de cerveja" |
Resposta:
Os alcoolistas constituem uma população bastante heterogênea.
Quando uma determinada “população” se apresenta
com características bem heterogêneas, buscam-se formas
para reduzir essa heterogeneidade, tentando organizar subgrupos com
características mais homogêneas. Isso é conhecido
na literatura médica e psicológica como tipologia ou
criação de perfis. |
Muitas tipologias são baseadas em dados sóciodemográficos,
traços de personalidade, respostas a determinados tipos de tratamento
médico e psicossocial, idade de início de problemas com
o consumo de bebidas, aspectos genéticos, gravidade da dependência,
dentre outros.
Uma das formas de se classificar os alcoolistas tem sido o tipo preferencial
de bebida consumida. Se os tipos de bebidas de fato afetam a resposta
a diferentes propostas de tratamento ou até mesmo a fissura pelo
álcool, uma nova forma de classificação ou tipologia
pode ser estabelecida.
Na verdade, até o momento, poucos esforços têm sido
realizados para investigar o relacionamento entre os diferentes tipos
de bebidas alcoólicas consumidas por dependentes de álcool
e as variáveis associadas com medidas de resultado, tais como aderência
ao tratamento proposto e taxas de abstinência.
Ao contrário, estudos que focam nas diferentes bebidas alcoólicas
consumidas têm mais frequentemente avaliado a influência dos
tipos de bebidas sobre o desenvolvimento de diferentes problemas físicos
advindos do consumo crônico de bebidas, embora ainda poucas conclusões
definitivas tenham sido postuladas.
De fato, diferentes variáveis tais como as sóciodemográficas,
quantidade de etanol ingerida por dia, tabagismo, estado nutricional dos
pacientes interagem no desenvolvimento de diferentes repercussões
para a saúde do alcoolista.
| Não é totalmente claro se a
escolha de diferentes tipos de bebidas, tais como cerveja, destilados
ou vinho contribui diferentemente com resultados adversos para a saúde
entre dependentes de álcool. |
Geralmente, estudos têm apontado que bebedores de vinho tendem
a demonstrar um melhor perfil em alguns parâmetros físicos
do que os bebedores de cerveja ou destilados. Mas também os bebedores
de vinho tendem a possuir melhores níveis sócioeconômicos
do que outros bebedores preferenciais. Isso poderia influenciar positivamente
alguns indicadores de saúde.
De outra forma, alguns autores têm afirmado que dependentes de álcool
que preferem cerveja apresentam menor dano ao hipocampo, em termos de
perda de volume, do que os bebedores de destilados ou vinho. Este achado
tem sido justificado pelos menores níveis plasmáticos de
homocisteína encontrados entre dependentes de cerveja. Algumas
vitaminas contidas na cerveja, tais como algumas do complexo B, parecem
ser responsáveis por este menor nível plasmático
de homocisteína.
Também, outros estudos têm afirmado que bebedores de cerveja
demonstrariam mais intensa fissura pela bebida do que os bebedores de
destilados e vinho. Isso tem sido associado a alterações
no eixo hipotálamo-hipófise-adrenal. Entre diferentes sistemas
neuroendocrinológicos, alguns peptídeos reguladores do apetite
têm sido relacionados ao “craving” (fissura) pelo álcool,
tais como a leptina, a grelina e a adiponectina. Algumas pesquisas têm
demonstrado que os níveis de leptina estão associados positivamente
com a magnitude da fissura pelo álcool e, entre os diferentes tipos
de bebedores, aqueles que preferem cerveja demonstram maiores níveis
desse peptídeo.
Também o volume da bebida consumida parece influenciar a gravidade
da fissura ou “craving”, devido às alterações
em peptídeos reguladores de volume, como a vasopressina e o peptídeo
natriurético atrial. Em geral, o volume total de cerveja consumida
tende a ser maior do que o volume total de destilados. Dessa forma, segundo
alguns autores, a fissura pela cerveja seria maior do que aquela por destilados
e vinho.
Apesar desses achados, a fissura é também relacionada com
a quantidade de etanol utilizada por dia e bebedores de destilados costumam
consumir maiores quantidades de etanol por dia do que os bebedores de
cerveja.
Em um estudo realizado pelo meu grupo e recentemente publicado no jornal
“Alcohol”, os bebedores de destilados demonstraram maior gravidade
do alcoolismo, maior magnitude do craving pela bebida e menor aderência
ao tratamento médico proposto, em relação aos bebedores
de cerveja.
Seguramente, múltiplos fatores culturais e sociais interagem com
a preferência da bebida utilizada por dependentes de álcool.
No nosso estudo, em termos de variáveis sóciodemográficas,
os bebedores preferenciais de cerveja revelaram melhor renda mensal do
que o grupo de bebedores de destilados. Além disso, o grupo de
bebedores de destilados tinha mais frequentemente procurado por outros
tipos de tratamento antes de chegar ao nosso serviço.
Além disso, é possível aventar que os bebedores de
destilados parecem demonstrar uma melhor percepção dos danos
causados pelo consumo de álcool do que os bebedores de cerveja.
Abaixo, forneço referência sobre o tema:
Baltieri DA, Daro FR, Ribeiro PL, De Andrade AG. The role of alcoholic
beverage preference in the severity of alcohol dependence and adherence
to the treatment. Alcohol 2009;43(3):185-95.
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