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Meu avô de 70 anos começou a beber muito há três
anos. Ele tem apresentado tremores nas mãos quando não bebe.
Minha família faz vistas grossas sobre o problema. Eu estou preocupada
com o problema.
| "... pessoas idosas apresentam menor
tolerância aos efeitos do etanol, quando comparado a adultos
jovens. Isso pode significar maiores efeitos psíquicos e físicos
deletérios para o idoso que consome uma mesma quantidade de
álcool do que um adulto jovem" |
Resposta:
Independentemente da idade, o consumo inadequado de substâncias
psicoativas deve ser considerado uma importante causa de problemas
físicos e psiquiátricos. Pessoas idosas têm alguns
fatores predisponentes para o abuso de certas substâncias psicoativas,
principalmente o álcool e medicações hipnóticas
e sedativas. |
Como a nossa população vem envelhecendo, nós seguramente
encararemos um crescente número de pessoas mais maduras procurando
“sensações” fisicas e psíquicas através
do uso de drogas. Para algumas delas, essa busca é uma forma de
lidar com uma série de perdas do passado; para outras, é
uma maneira de lidar com dores e sofrimentos físicos e psíquicos
relacionados com a idade. Além disso, para outras pessoas ainda,
é uma continuação de um padrão de consumo
inadequado de substâncias que iniciou em tempos idos e que permanece
na atualidade, sem adequado tratamento e manejo médicos. Alguns
estudos europeus apontam uma prevalência de 5 a 12% de abuso/dependência
de álcool entre idosos nos seus 60 anos.
Alguns autores têm classificado os alcoolistas idosos em três
diferentes grupos:
a) alcoolistas idosos de início precoce: são
aqueles que já apresentavam problemas com o consumo de bebidas
bem antes dos 60 anos de idade e continuaram o consumo ao longo da vida;
b) alcoolistas idosos de início tardio: são
aqueles que começaram a apresentar problemas com o consumo de bebidas
alcóolicas tardiamente, comumente categorizado como depois dos
60 anos de idade, muitas vezes após o falecimento de um ente querido,
perdas diversas mas significativas para a pessoa, solidão, sensação
de estar sendo um peso para a sua família, etc;
c) alcoolistas idosos do tipo “binge drinkers”:
são aqueles que bebem ocasionalmente grandes quantidades de álcool,
o que lhes causa notáveis problemas.
De fato, modificações abruptas do estilo de vida, tais como
aposentadoria e redução das atividades sociais, são
fatores contribuintes para o desenvolvimento de problemas emocionais reativos.
Isolamento e solidão são fatores extremamente importantes.
Somando esses fatores com problemas de saúde típicos dessa
fase da vida, o consumo de bebidas pode parecer opção atraente
para muitos deles.
Também, pessoas idosas podem começar a beber ou aumentar
o consumo de álcool para induzir o sono, reduzir a sensação
de dor física e aliviar a ansiedade.
É importante lembrar que pessoas idosas apresentam menor tolerância
aos efeitos do etanol, quando comparado a adultos jovens. Isso pode significar
maiores efeitos psíquicos e físicos deletérios para
o idoso que consome uma mesma quantidade de álcool do que um adulto
jovem. Essa redução da tolerância se deve à
redução da razão água versus gordura corporal,
diminuição do fluxo sanguíneo hepático, redução
da atividade das enzimas hepáticas, alteração do
funcionamento neuroquímico, dentre outros fatores.
O álcool deprime o funcionamento cerebral, prejudicando a coordenação
motora e memória, o que pode provocar quedas e confusão
mental. Pode também provocar alterações do humor
como: irritabilidade, labilidade emocional e comportamentos agressivos.
É importante notar que idosos costumam fazer uso de diferentes
tipos de medicações prescritas. Efeitos colaterais de muitas
dessas medicações podem ser recrudescidos devido ao consumo
concomitante de etanol. Além disso, interações farmacológicas
entre o álcool e as medicações utilizadas são
sempre uma preocupação para os cuidadores.
O tratamento de idosos alcoolistas precisa ser baseado em evidências
científicas de sucesso. Também, é necessário
adequada ênfase na melhora da qualidade de vida, maior interação
social e suporte social. Acredito que programas específicos para
alcoolistas idosos devam ser desenvolvidos ao redor do país, da
mesma forma como serviços especializados em adolescentes dependentes
químicos por exemplo. Trata-se de fato de população
com necessidades especiais. Logo, uma equipe especializada e disposta
a atender esse grupo de doentes é amplamente necessária.
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