| As nossas crianças e adolescentes
representam nosso futuro, por isso precisam estar bem cuidados e merecem
de nós toda a atenção. Todo mundo sabe disso. Os
nossos idosos representam aqueles que dedicaram suas vidas para que pudéssemos
ser o que somos, por isso são dignos de todos os cuidados e atenção.
Nem tudo mundo sabe disso.
A diferença entre o “novo” e o “velho”
está numa regra aparentemente cruel do mercado: enquanto os jovens
representam consumidores para a vida toda, e por isso merecem todas as
atenções, o idoso é visto como um consumidor terminal,
em quem não compensa mais investir.
Esse conceito perverso já foi superado nos países em desenvolvimento.
Lá, os idosos, que estão vivendo cada vez mais, estão
merecendo cada vez mais atenção do mercado e da mídia.
Representam uma fatia nas vendas cada vez mais importante.
| Alimentos em pedaços
menores, muito bem cozidos, pratos variados, equilibrados, com ingredientes
de diferentes cores e sabores, que não se repetem, facilitam
mastigação, deglutição e transformam obrigação
de alimentação em prazer |
Em países como o Brasil, isso ainda não
acontece. A grande maioria dos idosos interrompe sua vida de trabalho
com uma aposentaria miserável ou sem aposentadoria alguma.
Ficará na dependência de outros familiares, cujas necessidades
e preocupações serão outras. Ou ficará
sozinho, sem condições nem físicas nem financeiras
de se proporcionar uma vida com um mínimo de dignidade. |
Solidão e doença
Já falei da “terceira idade” em outras oportunidades.
O tema também já foi tratado em dois dos meus *livros. Pois
retorno a esse assunto convencida de que ainda há muita coisa a
dizer com relação à qualidade de vida e a alimentação
dos nossos pais e avós.
O primeiro fato é que não se pode isolar alimentação
das outras circunstâncias que cercam o envelhecimento. O envelhecer
é um processo que implica desde a história psicossocial
de cada um e suas relações familiares, até suas condições
financeiras e de saúde.
Genericamente, diz-se que aqueles que tiveram uma vida adulta rica e gratificante,
que se lembram das suas vivências como satisfatórias, terão
mais facilidade para se adaptar ao envelhecimento. Note-se que esta é
uma condição que não pode ser lembrada lá
na velhice, quando soará como uma cobrança cruel. São
comportamentos e atitudes que deveriam ser cultivados ao longo da vida,
como qualquer outra ação preventiva.
As condições financeiras têm tudo a ver com a qualidade
do envelhecimento. O idoso que tem recursos próprios pode arcar
com profissionais que cuidem dos vários aspectos de sua vida, do
lazer à saúde e à alimentação.
Nos países mais desenvolvidos, o idoso aposentado recebe do Estado
proventos suficientes para que arque com os custos de um “abrigo”
ou pague ele próprio suas necessidades, do aluguel às compras.
Isso garante um certo nível de bem-estar, mas não evita
a solidão e a desnutrição, itens que estão
nos primeiros lugares nas causas de morte dos idosos.
Em países em desenvolvimento, como o Brasil, os idosos se encontram
no nível mais baixo do abandono. Entre aqueles que se aposentam
com carteira assinada, a média de pagamento gira em torno de R$
400,00. Entre a população que trabalha, metade não
tem carteira, portanto nada receberá quando um dia parar de trabalhar,
por doença ou incapacidade total de conseguir seu sustento.
Ao idoso não restará outra alternativa senão a de
recolher-se a um espaço na casa dos filhos, quando tiver filhos
e eles tiverem espaço e consideração. Refugiar-se
em asilos privados, com os valores cobrados, nem pensar. Nos asilos públicos,
quando encontrar uma vaga, poucas vezes encontrará o acolhimento
mínimo necessário. Em todos os casos, a tendência
é que a auto-estima e a dignidade do idoso sejam reduzidas a quase
nada. Sem vontade nem motivações para viver, ele limitará
sua alimentação a um mínimo necessário para
continuar seu dia-a-dia. E cairá doente, será hospitalizado
e não tardará a morrer.
Ameaça de desnutrição
Esse quadro dramático é mais freqüente nos grandes
centros, onde o morador não sabe o que está acontecendo
com o vizinho do lado. Amigos relataram que na França, em edifícios
onde moram muitos idosos sozinhos, os porteiros têm a função
de bater na porta dos moradores para saber se precisam de ajuda, e se
estão vivos.
A cultura do brasileiro, pelo menos fora dos grandes centros, não
compartilha de tanta frieza. Embora os asilos estejam repletos, e as filas
para os asilos sejam enormes, a maioria das famílias tende a ser
solidária com seus idosos. O que não significa que estejam
cuidando bem deles.
É este, justamente meu objetivo ao falar dos nossos pais e avós.
Mesmo quando estamos dispostos a recebê-los ou a cuidar deles, não
significa que sabemos fazer o melhor por eles. A falta de conhecimento,
ou de recursos, faz com que um número enorme de idosos sofra de
desnutrição. Nos EUA, por exemplo, 5% a 22% dos idosos que
moram com a família sofrem de desnutrição protéico-energética.
Nos idosos que estão em instituições, são
59% os desnutridos. E entre os hospitalizados, essa porcentagem sobe para
65%.
No Brasil, estima-se que 1,3 milhões de idosos estejam com baixo
peso por conta da desnutrição, e que mais de 15% dos idosos
consumam menos de 1.000 calorias por dia, metade do necessário.
Mastigar e engolir
É preciso lembrar que as pessoas idosas têm necessidades
diferentes, embora essa possa parecer uma afirmação que
não tem nada de novo. A mais simples dessas necessidades é
a alteração na capacidade de mastigação e
deglutição dos alimentos.
É muito comum nos idosos a perda de dentes, a colocação
de dentaduras que não se ajustam, além da redução
das secreções salivares e da diminuição do
olfato e da capacidade de engolir.
Cito um trabalho que foi feito no Lar dos Velhinhos de Piracicaba por
minha equipe da ESALQ, em parceria com o Centro de Pesquisa da Sanavita.
Uma das primeiras constatações foi a dificuldade de mastigação
desse grupo de idosos. Quando os alimentos passaram a ser oferecidos em
pedaços menores, e muito bem cozidos, os moradores da casa passaram
a comer mais e a ganhar peso.
Outras mudanças foram feitas. Os pratos passaram a ser variados,
equilibrados, com ingredientes de diferentes cores, e com sabores que
não se repetiam. Os idosos que se alimentavam sozinhos em seus
quartos foram incentivados a comer no refeitório. A alimentação
deixou de ser uma obrigação e passou a ser um momento de
prazer e de convívio. Sem aumentar os custos da instituição,
conseguimos uma significativa redução nas internações
e no consumo de medicamentos.
Depressão e desnutrição
Há outros aspectos que gostaria de lembrar com relação
à alimentação e saúde dos nossos idosos. Há
alguns sinais que indicam um possível início de desnutrição,
ou apontam para uma doença que pode estar sendo instalada.
Um desses sinais é a perda de peso, que pode estar associada à
dificuldade de mastigação, com perda de dentes ou dentaduras.
Mas que pode indicar outros problemas de saúde. Outro sinal de
alarme são os indicadores psicossociais. Aqui contam desde a depressão
e a tristeza pela perda de um cônjuge ou familiar até a solidão
e a vida solitária. Casos de alcoolismo e de abandono total de
cuidados são comuns nessas fases.
Essas situações podem ser agravadas pela falta de dinheiro
para comprar alimentos e pelas precárias condições
em que vive o idoso.
Mesmo tendo algum dinheiro, ele terá de ir ao supermercado, escolher
seus alimentos, prepará-los e preparar sua própria mesa.
Precisará de conhecimentos mínimos sobre nutrição,
alimentação balanceada, saber como armazenar os alimentos,
e garantir que sua geladeira esteja funcionando corretamente.
Vivendo na casa de um parente, ele precisará ser considerado de
forma a poder dizer o que tem vontade e de que forma poderá contribuir
com a família.
Desrespeitar alguém mais velho, é a maneira mais ordinária
de desrespeitar nossa própria relação com a vida.
Pense nisso!
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