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Já não se fazem mulheres como antigamente?
"Vejo
mulheres confusas, que passaram a acreditar que a essência
do feminino tenha se transferido para o corpo, mulheres que diariamente
se entregam a exaustivas rotinas para tentar atingir a perfeição
física. Dietas malucas, exercícios além do
necessário, bulimia, anorexia, cirurgias plásticas" |
Outro dia, caminhando pelo parque, passei
ao lado de dois homens. Bonés na cabeça, passo rápido,
beiravam os 40 anos e conversavam em um tom de voz que tornava impossível
não ouvir o que diziam. |
- Já não se fazem mulheres como antigamente!
Disse um deles em um tom verdadeiramente saudoso, enquanto o outro olhou
na minha direção visivelmente incomodado, talvez temeroso
que eu os acusasse de machismo e os atasse ao poste de alongamento para
uma sessão de chibatadas (as mulheres andam assim ultimamente).
Não fiz isso. Na verdade a frase me fez pensar.
- Ao que será que se referiam? O que será que eles queriam
dizer com “mulheres de antigamente”?
As mais feministas talvez explicassem a frase discursando de forma exaltada
sobre submissão, sobre mulheres que esperavam seus homens com o
jantar sobre a mesa e chinelos prontos a serem acomodados por elas nos
exaustos pés masculinos. Ok, seria uma interpretação
possível, afinal o mundo, enquanto realidade objetiva, não
existe. Tudo depende de nossa interpretação do percebido.
Assim sendo, sinto-me livre para interpretar aquelas palavras à
minha maneira. Tenho escolhido, em minha vida, interpretar o mundo da
forma que me faz sentir melhor. Encontro nisso uma liberdade deliciosa,
difícil de ser explicada. Sugiro que experimentem, nem que só
por um dia, interpretar as palavras e atitudes das pessoas da melhor maneira,
sem esperar o tempo todo um pretexto, uma sílaba mal colocada,
uma inflexão de voz mais acentuada, para confirmar a sua crença
de que as pessoas na verdade desejam intencionalmente ferir ou magoar
você.
Mas voltando ao assunto, “escolhi” pensar que aqueles homens
estavam, na verdade, sentindo falta de algo realmente precioso, algo que
tenha se perdido. Não de uma atitude submissa das mulheres, mas
sim daquilo que chamo a “essência do feminino”. Desse
feminino feito de virtudes como a delicadeza, a suavidade, a paciência,
o perdão, a compaixão.
Nesse aspecto, concordo com eles, correndo o risco de ser eu mesma chicoteada
em praça pública:
- Que saudade sinto das mulheres de antigamente, que possuíam uma
conexão intensa com seu mundo interno, um mundo sagrado e misterioso
que as tornava capazes de não se abater, mesmo frente ao mais assustador
dos problemas. Mulheres que, de forma improvável, se mantinham
centradas e confiantes, mesmo em meio às piores tempestades. Mulheres
capazes de acolher cabeças aflitas em seu peito sempre transbordante
e sussurrar bem baixinho: “vai ficar tudo bem”. Mulheres que
davam sustentação a toda uma família através
de um sorriso, de olhos que refletiam o brilho de estrelas e de uma voz
que permanecia suave como veludo mesmo em meio à aspereza da vida.
Que saudade das mulheres que derramavam sua energia feminina pela casa,
tornando tudo mais belo, mais cheiroso, mais aconchegante e mais amoroso.
Que pena para o mundo existirem cada vez menos mulheres assim. Que pena
as mulheres estarem atualmente tão exaustas por provar-se em mil
papéis a ponto de não terem energia suficiente para transbordar
essa luz linda e feminina que possuem no peito, capaz de curar, elevar
e transformar o mundo.
Vejo mulheres confusas, que passaram a acreditar que a essência
do feminino tenha se transferido para o corpo, mulheres que diariamente
se entregam a exaustivas rotinas para tentar atingir a perfeição
física. Dietas malucas, exercícios além do necessário,
bulimia, anorexia, cirurgias plásticas, compras compulsivas, procedimentos
mil... Para quê?
Para se tornarem “mais mulheres”? Todo esse investimento absurdo
na vã tentativa de se tornarem mais “femininas” e conquistarem
os homens, à custa, muitas vezes, da própria alma?
Não. A alma da mulher não precisa desse arsenal todo. A
alma da mulher, sua parte mais preciosa, precisa de equilíbrio,
de uma vida saudável que contenha momentos de contemplação,
relaxamento e descanso para manter-se viva e viçosa. A mulher precisa
de espaço em sua vida para se conectar com seu mundo interno, de
onde brota uma fonte sagrada de vida e cura, sem a qual o mundo se torna
seco e árido.
Longe da alma feminina brota um deserto no lugar onde um jardim deveria
exaltar-se em flor.
Para terminar, compartilho um trechinho que encontrei em um delicioso
livro intitulado Presente do Mar, escrito por uma mulher de alma
viva, Anne Morrow Lindbergh:
“... Que espetáculo de circo nós, mulheres, somos
obrigadas a representar cada dia! É mais do que qualquer trapezista!
Olhem bem como vivemos, correndo numa corda bamba diariamente, equilibrando
uma pilha de livros na cabeça!... Essa não é uma
vida de simplicidade, mas de multiplicidade, sobre a qual os sábios
nos advertem. Não nos conduz à unificação,
mas à fragmentação. Não nos traz o estado
de graça mas destrói nossa alma.”
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