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| O amor sob o prisma das canções – Parte III | |||
| por Regina Wielenska |
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Através de letras de canções, continuarei a discutir, por mais algumas quinzenas, aspectos de relacionamentos amorosos. Para esta vez escolhi a canção abaixo, tão bem interpretada por Paula Lima. É Isso Aí Preparei uma roda de samba só pra ele, Isso é problema dele, isso é problema dele, Tô cansada de andar por ai curtindo o que não é, Separei um pedaço de bolo só pra ele, Comprei roupa sandália e sapato só pra ele Isso é problema dele, isso é problema dele, Dar e receber: processo delicado Roda de samba, palpite seguro, bolo, folga do trabalho em dia útil, roupa, calçado, roda gigante. Todas essas são formas que a moça encontrou de agradar ao seu amado. Mas será que ele gosta ou precisa dessas coisas? Alguma vez eles já conversaram sobre os desejos e necessidades de cada um? O verbo dar pressupõe haver no outro a receptividade, a condição de acolher amorosamente o que lhe é ofertado. Aqui não encontramos isso, parecer haver descompasso entre o presenteado e a moça que lhe faz as mais variadas oferendas. Ocorreu-me agora a história de um casal em situação
similar. Ele dava à esposa jóias maravilhosas, as quais
não traziam a ela qualquer prazer. O maior anseio dela era pela
companhia daquele marido com o qual se casara há duas décadas.
Seu sonho de consumo era passar de vez em quando uma tarde inteira com
ele, de celular desligado, conversando de verdade, trocando carícias
sem pressa ou obrigação. De namorado em começo de
carreira, moço humilde e com algum tempo livre, ele se tornara
um megaexecutivo. Sem notar, ele passou a valorizar cada vez mais o dinheiro
e o poder arduamente conquistados, em detrimento da qualidade dos relacionamentos
familiares. Se ela reclamasse, ele provavelmente não entenderia
e se sentiria injustiçado. Na perspectiva do marido, todo o esforço
era exatamente em prol da família, por que, então, eles
se queixariam de tamanha dedicação profissional? Dar algo como disfarce do pedido de amor Vemos que na canção a mulher se refere às recusas
de fazer uso dos presentes como “um problema só dele”.
Talvez, na verdade, seja problema de ambos. Uma inteireza se depara com outra: o surgimento do amor Além disso, a cultura idealiza os casais, são comuns os discursos de que a pessoa só se completa quando encontra sua cara-metade, sua metade da laranja, sua alma gêmea. Por trás dessas palavras parece residir o conceito de que somos, necessariamente, adultos incompletos se não estivermos o tempo todos plugados no outro, conectados por meio de um invisível cordão umbilical. A letra parece sugerir que ele não precisa dela, enquanto que
a moça faz de tudo e um pouco mais para se manter conectada a ele.
E assim continuam a viver situações diametralmente opostas.
Relacionamento é combinação única, gerada
pela comunhão entre indivíduos completos com interesses
em comum e encantamento recíprocos, e não por uma convivência
forçada, com base em histórias de vida problemáticas
e mal elaboradas por aqueles que as viveram. Artigos
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