Meus amigos virtuais são reais?
| "Os
relacionamentos virtuais, quando bem vividos, nos ensinam e ampliam
nossos horizontes. Mais que isso: muito do que vivenciamos via computador
pode ser depois resgatado e trazido para o mundo real, melhorando
as performances individuais" |
“Agora eu consegui desabafar, me
senti à vontade com você. Que bom que pelo menos conto
com você, apesar de ser na net.” Esse tipo se frase é
bastante comum em salas de bate-papo, quando as pessoas começam
a criar uma intimidade com aquele que está do outro lado do
computador. E esses personagens se tornam amigos virtuais. Desse modo,
os relacionamentos expandem suas fronteiras e começam a ganhar
mais amplitude. |
Aquele que nos escuta, que sempre está presente, aquele que, quando
liga o computador, chega e fala “oi” parece estar se tornando
cada vez mais um amigo, um amigo virtual. Virtual, porque ele não
tem um rosto. Mesmo que tenha nos enviado uma foto ou uma imagem, não
é dotado de contatos diretos e imediatos. Olhares, toques, sorrisos,
cheiros são coisas que não fazem parte desse tipo de amizade.
O amigo virtual é encontrado no ciberespaço, conquistado
através de um teclado e de uma tela de computador. É possível,
assim, fazer-se muitos amigos em poucos minutos, conhecer pessoas de diversas
nacionalidades, raças, cores. Podemos até escolher se os
queremos loiros, ruivos ou morenos. As opções estão
à nossa disposição, para que possamos escolhê-los
conforme nossos desejos.
E, assim como escolhemos a dedo, também somos escolhidos por muitos
outros. O vínculo com esses amigos virtuais se fortalece depois,
no outro dia, quando se escuta o barulhinho do MSN e se percebe que aquele
que se conheceu ontem está chamando. E, papo vai, papo vem, e o
amigo virtual se instala na vida da pessoa.
Aparentemente, um amigo virtual é mais fácil de ser “administrado”,
tanto na forma de se conhecer quanto no relacionamento. A vantagem de
ter um amigo virtual é que você tem o controle da situação.
Pelo menos é o que cada um dos amigos acha, já que pode
cancelar a conversa se se sentir agredido ou se, simplesmente, a pessoa
do outro lado não for mais interessante.
Com o amigo real, as coisas são bem diferentes. É preciso
sair de casa, e ter todo um controle, não sobre o outro, mas sobre
si mesmo, para poder exercer todo aquele “jogo de sedução”.
São importantes os olhares, a expressão do rosto, o tom
de voz, os toques, os cheiros. Com esse amigo não podemos simplesmente
bloquear ou desligar o computador. Com os amigos reais, é preciso
saber conviver e respeitar as diferenças.
Por outro lado, o amigo real leva muita vantagem justamente pelo fato
de oferecer esse contato pessoal. Tendo que lidar com as diferenças
acima, a pessoa vai aprendendo a conviver melhor com o mundo e consigo
mesma, e se conhecendo melhor. Aprende os seus próprios limites
e desenvolve o respeito para com o outro. Afinal, o relacionamento não
fica restrito a uma cadeira diante de uma tela.
Aparentemente parece ser mais fácil fazer amigos virtuais do que
os reais. Mas isso acontece apenas porque algumas pessoas vêm procurando
esse contato mais na Internet que fora dela. Mais que isso, essas conexões
são muito mais rápidas e diretas, com várias chances
de encontro acontecendo simultaneamente. Mas o processo envolvido é
exatamente o mesmo que ocorre quando cativamos nossos amigos reais. A
diferença reside justamente no fato que as pessoas não são
capazes de fazer tantas conexões presenciais em tão pouco
tempo. Entretanto, os contatos feitos no mundo real podem ser muito mais
ricos, abrindo, de uma maneira mais sólida, um grande leque de
possibilidades concretas.
Uma coisa bastante interessante do mundo virtual é que ele funciona
como uma extensão da sua consciência. Nele, as pessoas destravam
quase todas as suas limitações e expressam suas fantasias,
de toda natureza. Por exemplo, uma pessoa tímida, ou uma dona de
casa insatisfeita, sem perspectivas e com baixa autoestima, ou ainda um
executivo estressado pelo trabalho, podem descobrir novas possibilidades
e superar suas limitações nesse ambiente, onde “tudo
é possível”: o tímido fica extrovertido, a
dona de casa se descobre sensual e desejada, e o executivo relaxa sem
pressões.
Assim, viver uma amizade virtual se transforma em um grande exercício
mental, onde os protagonistas se permitem explorar possibilidades que
não se atreveriam experimentar no mundo presencial. Dessa forma,
os relacionamentos virtuais, quando bem vividos, nos ensinam e ampliam
nossos horizontes. Mais que isso: muito do que vivenciamos via computador
pode ser depois resgatado e trazido para o mundo real, melhorando as performances
individuais.
O problema é que, do mesmo modo que esse tipo de relacionamento
ensina, ele pode “sequestrar” o sujeito para uma vida paralela
que acaba sendo a sua vida principal. A fuga assim proporcionada assume
dimensões exacerbadas, a ponto de que se passa a pensar que o ciberespaço
é melhor que o mundo real, e os amigos lá são mais
interessantes. Neste caso, não existe vínculo entre esses
dois mundos. O mundo online “suga” a pessoa para dentro do
computador.
O ideal é que aconteça exatamente o contrário: fazendo
o bom uso dessa realidade, pode acontecer o “resgate” do amigo
virtual, aproximando duas pessoas reais que se conheceram on-line. Pois
um “amigo virtual” é um “amigo” antes de
ser “virtual”. Se essa amizade for construtiva, exercitá-la
no mundo presencial é uma evolução bem-vinda, que
aliará as vantagens dos dois ambientes em torno de uma mesma pessoa.
E aí as redes sociais, o MSN e chats passam a ser apenas mais uma
das formas de contato, e não apenas a única.
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