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Coluna Outro Lado
- Um outro jeito de enxergar o cotidiano
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Amor:
por que as pessoas levam tanto tempo para sair de uma relação
tirânica?
Por Roberto Goldkorn
Na semana passada, durante uma entrevista na TV
sobre o meu livro Dormindo com o Inimigo, a jornalista me perguntou por
que as pessoas mesmo sabendo que dormem com o inimigo levam, às vezes,
décadas para dar um basta na situação. Obviamente essa
não é uma resposta simples, mas se pudesse resumir, eu diria:
porque é muito duro, difícil e doloroso aceitar o fato de que
sua vida esteve errada por tanto tempo. É mais ou menos como o jogador
na roleta: quando está perdendo acha sempre que a sorte pode virar, mas
isso é uma racionalização. Na verdade o jogador (quem dorme
com o inimigo) reluta em sair de lá assumindo o prejuízo, assumindo
a burrice de perder dinheiro no jogo.
Você pode dizer que há um forte componente masoquista nesse comportamento, que há um fator cultural coercitivo, tudo bem concordo, mas assumir que jogou fora tanto tempo, tanta energia, tanto investimento emocional, é a razão mais poderosa. O mesmo acontece no plano coletivo, quando pessoas veêm suas ilusões político-ideológicas ruírem, como está acontecendo atualmente no Brasil.
Uma declaração recente da brilhante filósofa Marilena Chauí, é reveladora: Não tenho informação suficiente para me pronunciar sobre o assunto. Nunca me senti tão desinformada quanto agora. Os meios de comunicação seguem a lógica da sociedade do espetáculo, e são pautados pelos ideólogos tucanos, que se dizem os únicos respeitáveis e competentes do país. Nessa lógica sobraria para o PT a pecha da falta de seriedade e da incompetência.
Vamos ver outra frase do sociólogo e psicanalista Erich Fromm, por quem nutro grande admiração. Ele está falando sobre racionalizações, ou seja, pseudo-pensamento, tentativas toscas (para quem está atento) de mascarar a realidade com artifícios argumentativos: As racionalizações carecem justamente dessa qualidade de descobrimento e desmascaramento; elas só confirmam o preconceito emocional existente na pessoa. A racionalização não é um instrumento de penetração na realidade, mas uma tentativa a posteriori, de harmonizar os desejos da própria pessoa com a realidade existente. (O Medo à Liberdade, Zahar Editores, 11º edição, pp.157).
Há sempre o que defender, principalmente para os apaixonados, para aqueles que derramaram seu sangue, suor e lágrimas em defesa desse amor ou dessa causa, quando as máscaras caem e o príncipe vira sapo (na verdade não vira, apenas desvira). Por isso essa luta encarniçada, para defender o indefensável. Nessa luta, como não há possibilidade de um pensamento autêntico, auto-produzido (pois esses fatalmente conduziriam a constatação de que NA REALIDADE, o rei está nu), recorre-se a falácia da racionalização.
Quando a mulher que apanha na cara argumenta em favor do seu agressor, que ele foi maltratado pela mãe, e está corrompido pelo álcool, ela não está mentindo, está apenas racionalizando, usando um clichê cultural, para justificar não o seu agressor íntimo, mas a sua vida investida naquela barca furada. Admitir que votou mal, que casou mal, que defendeu o bandido confiando que era o mocinho (como eu fiz durante anos com os U.S.A), e admitir um tempo perdido, o que para muitos é insuportável, é a constatação da própria incompetência, do fracasso.
Essa situação se agrava quando o investimento foi apaixonado, ou seja unívoco. Como se diz popularmente, aquele cujo único instrumento é o martelo, vê o mundo em forma de pregos! A paixão é assim, exclusivista, monolítica, não admite diversidade, nem o contraditório. Por isso a super, hiper bem informada filósofa Marilena Chauí petista assumida e apaixonada, dá tilte diz que não sabe de nada, só sabe que há uma conspiração contra a sua paixão, na qual investiu anos, avalizou e bancou com seu prestígio acadêmico.
Se uma pessoa do nível da filósofa
cai nessa solerte armadilha, imagine as tantas Marias e Joãos, simples
mortais, que nunca ouviram falar nos pré-Socráticos, diante das
desilusões. Mas (tem sempre um mas), por mais duro que seja, por mais
mortal que pareça ser a perda da ilusão, do sonho, da esperança,
se for encarada com coragem, e verdade, vai levar a um renascimento. Ao morrer
para o falso, vamos sempre poder renascer para o verdadeiro (ou não),
e assim contribuímos para sanear o mundo, e saneado ele se torna melhor,
mais real, mais habitável.
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Roberto Goldkorn
é escritor especializado em Feng Shui e
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