| Assisto pela TV cenas de uma guerra
qualquer, com gente dilacerada, crianças chorando, adultos berrando
em desespero. Penso perplexo: como será a germinação
do amor entre essas pessoas? Como conseguem sentir o arrebatador enlevo
do sentimento amoroso em meio ao cheiro de pólvora e de corpos
carbonizados? De que forma o aroma doce e selvagem do amor pode ser percebido
acima do cheiro do medo e da morte?
Mas de vez em quando também assisto a cenas de casamentos, de gente
dançando a alegria dos encontros e das uniões. Se não
foi o amor que obrou ali deve ter sido algo parecido. Não faz grande
diferença uma vez que não tenho a mínima idéia
de como se mede ou se testa o amor para saber se é do “bom”
ou do “médio”.
Pensando nisso conclui talvez precipitadamente, que o amor ou algo que
o valha, acontece nas tréguas, nesses pequenos intervalos inter-hostilidades.
A imagem que me vem à mente são aquelas plantinhas que ilogicamente
florescem no meio de blocos de concreto. Pensando mais longe ainda percebi
que todos ou quase todos vivemos nossas guerras pessoais ou grupais. Talvez
não tenhamos *obuses despencando sobre as nossas casas, nem um
ratatá de metralhadoras dia e noite a nos fustigar, mas temos sim
tantas hostilidades, tanta crueza que podemos dizer sem medo de sermos
sensíveis demais: estamos em guerra sim.
Mesmo que você não more em uma área conflagrada, o
ronco dos tigres pode estar dentro de sua cabeça, e os rolos de
arame farpado cercando o seu coração. Um avião que
cai, um chefe que berra e ofende, um motorista bêbado que atropela
e foge, a bolsa que cai, o colesterol que sobe, é a guerra. Ainda
assim há tréguas, esses pequenos espaços em branco
que podemos pintar com as cores do afeto, do tesão e quem sabe
do amor. Mas como nas guerras de verdade muitos preferem levá-las
a sério sem intervalos comerciais. Se perguntados sobre o amor
e outras frescuras dirão: “Não vês que estamos
em guerra, e que não há tempo para essas bobagens?”
As guerras sejam elas contra um inimigo hostil e armado, seja contra a
depressão, a desilusão ou a demissão sempre deram
bons motivos para o não-amor. Na verdade motivos não, desculpas.
O amor é um desafio tão portentoso que muitos preferem se
esconder atrás de guerras reais ou virtuais, a ter de enfrentá-lo.
E quando digo amor com minúscula mesmo, não me refiro apenas
aquilo que se estabelece, apenas entre parceiros com mútuo desejo.
Amor aqui se não for mais abrangente, um gesto emocional de profunda
generosidade, de consideração pelo outro não poderá
ser direcionado a um ou uma amante. Por isso não acredito no amor
de bandidos assassinos, por suas mulheres ou pelos seus filhos. Vejo esses
“amores” como quem dá o peito para alimentar a vida
mas junto com o leite há sangue.
O amor é possível mesmo sob fogo cruzado, mesmo entre socos
e pontapés, pois sempre haverá uma trégua, onde a
generosidade pode ser constelada. Não há desculpa exterior
ou interior para o não-amor, nem há amor para quem não
produza a trégua da generosidade. Pessoalmente não acredito
na paz, mas acredito no amor como uma força ligada à inteligência.
Se o ser humano quiser sobreviver a si mesmo precisa de inteligência,
o maior veículo da inteligência é sem dúvida
o amor.
*Obus: máquinas de lançar pedras; bombas
ou granadas lançadas pelo obus
Fonte: Dicionário Aurélio
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