"Os riscos de tais medicamentos superam de longe eventuais
benefícios, ainda sequer comprovados em estudos clinicos amplos e
com metodologia adequada"
| Inibidores de apetite/riscos
- "Agências de Medicamentos dos EUA (FDA) e da Europa (EMA),
após longa e criteriosa análise das evidências
científicas disponíveis, demonstram, claramente, que
os riscos superam de longe os eventuais benefícios. Nenhum
estudo científico foi capaz, ao longo desses anos, de contestar
as decisões do FDA e EMA, sempre pautadas em critérios
objetivos e sérios" |
Nas últimas semanas, a mídia
tem divulgado várias notícias e debates a respeito do
possível cancelamento do registro da sibutramina e dos demais
inibidores de apetite (femproporex, anfepramona, mazindol) no Brasil,
pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). |
Muitos colegas endocrinologistas importantes e algumas entidades ou sociedades
médicas da área de endocrinologia têm se posicionado
contra a ANVISA.
Tais endocrinologistas, que eu respeito muito, argumentam que a ANVISA
superestimou os efeitos adversos e subestimou os seus benefícios.
Usam também o fato de tais medicamentos estarem há mais
de 30 anos no mercado como justificativa para dar indícios da eficácia
terapêutica deles. Quanto aos efeitos colaterais, nossos endocrinologistas
dizem que os mesmos podem ser observáveis com quaisquer outros
medicamentos, o que é uma verdade inquestionável.
Todos sabemos o óbvio: que o tratamento correto da obesidade deve
se basear no aumento da atividade física e na orientação
dietética. Infelizmente, alguns pacientes por não conseguirem
modificar seus hábitos alimentares, poderiam se beneficiar do uso
de remédios que ajudam a controlar o apetite ou saciedade. Então
seria razoável manter-se tais drogas anorexígenas no mercado,
sob tais justificativas?
Na teoria, sim. Mas, na prática, honestamente, acredito que a ANVISA
esteja tomando a decisão correta de suspender tais drogas.
Agências de Medicamentos dos EUA (FDA) e da Europa (EMA), após
longa e criteriosa análise das evidências científicas
disponíveis, demonstram, claramente, que os riscos superam de longe
os eventuais benefícios. Nenhum estudo científico foi capaz,
ao longo desses anos, de contestar as decisões do FDA e EMA, sempre
pautadas em critérios objetivos e sérios.
O objetivo de todo tratamento de obesidade deve ser a redução
da morbidade (doença) em si, nunca da redução do
peso em si. Um amplo estudo clínico envolvendo a sibutramina, o
SCOUT (Sibutramine Cardiovascular Outcome Trial), realizado com 10 mil
pacientes obesos com doença cardiovascular ou diabetes demonstrou
ineficácia e significativo aumento do risco cardiovascular.
Muitos endocrinologistas argumentam: “mas nós não
prescrevemos tais medicamentos para pacientes de risco, com doenças
cardiovasculares ou psiquiátricas”. Isso é uma verdade
para os profissionais conscientes e éticos, sem dúvida.
Porém, a sibutramina mesmo quando leva a uma pequena redução
de peso não é capaz de prevenir a incidência de problemas
cardiovasculares - o que seria o principal argumento ou justificativa
para o seu uso.
Outro ponto falho: os endocrinologistas argumentam que o principal objetivo
do tratamento da obesidade é reduzir a mortalidade e morbidade
associadas à obesidade. Sem dúvida, é um argumento
perfeito e correto. Mas, infelizmente, até hoje, não há
estudos clínicos, de longo prazo, controlados e com poder estatístico
adequado para se comprovar isso. Portanto, diminuir o peso de um paciente
com tais drogas sem garantia de que haverá benefícios para
se evitar doenças associadas à obesidade é um risco
desnecessário e absurdo.
Inibidores e psique
Quanto à parte psiquiátrica, tais drogas são um desastre
total. Muitos endocrinologistas argumentam que não prescrevem tais
drogas a pacientes com transtornos psiquiátricos. Porém,
na minha experiência clínica, mesmo quando tais drogas são
prescritas a pacientes sem transtornos mentais há riscos. Há
quadros sérios de depressão psicótica, ansiedade
extrema, agitação psicomotora, irritabilidade, agressividade,
ideação suicida e até psicoses, mesmo em pessoas
sem antecedentes psiquiátricos.
Infelizmente, já tive que internar várias pacientes com
distúrbios *psiquiátricos secundários ao uso de anorexígenos.
Na minha modesta análise, a ANVISA está com bons argumentos
e apoiada em estudos científicos - referendados também por
agências de medicamentos internacionais relevantes como FDA e EMA.
Os riscos de tais medicamentos superam de longe eventuais benefícios,
ainda sequer comprovados em estudos clinicos amplos e com metodologia
adequada.
Para que correr sérios riscos de eventos negativos adversos nas
áreas cardiovascular e psiquiátrica, sem benefícios
claramente comprovados para a prevenção de doenças
associadas à obesidade? E ainda tais drogas têm grande potencial
de abuso e dependência o que piora muito qualquer chance de defesa
da manutenção das mesmas.
* psiquiátricos secundários: distúrbios consequentes
do uso de anorexígenos
Atenção!
Esse texto e esta coluna não substituem uma consulta ou acompanhamento
de um médico psiquiatra e não se caracterizam como sendo
um atendimento. Dúvidas e perguntas sobre receitas e dosagens de
medicamentos deverão ser feitas diretamente ao seu médico
psiquiatra. Evite a automedicação.
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