Diálogos
Dicas para um bom diálogo interpessoal

"Ansiostato quebrado"
por Luís César Ebraico


O fragmento de diálogo que passo a relatar aconteceu há mais de trinta anos, e, para mim foi uma aprendizagem inesquecível.

André era um paciente extremamente ansioso. Hoje em dia, atendo alguns pacientes deitados outros sentados, segundo a vontade deles e as necessidades do tratamento. Naquela época, todos - e, por conseguinte, André - eram atendidos deitados. Sua ansiedade era particularmente visível em sua respiração e, evidentemente, também em suas próprias verbalizações sobre seu estado, nas quais relatava não só a própria vivência de ansiedade, como a presença de indicadores físicos que soem acompanhá-la: aceleração dos batimentos cardíacos, secura dos olhos, suor frio, etc. Mas, nesse dia, alguma coisa de especial havia acontecido. Deitou-se no divã, ficou em silêncio, e percebi uma respiração longa e profunda, totalmente incompatível com um estado de ansiedade. Ao que comentei:

LC: - Hoje você parece estar bastante calmo!

Foi o bastante para que, de imediato, retornasse a seu estado "normal", com a respiração evidentemente alterada e exclamando:

ANDRÉ: - Caramba! Foi só você falar isso, que meu coração se acelerou de novo e estou começando a suar novamente!

LC: - Bem, parece que você já está nervoso, outra vez!

ANDRÉ (dando um suspiro de alívio e retomando uma respiração profunda, indicativa de que a tranqüilidade retornara): - Aaaaaaaaah! Engraçado, FIQUEI CALMO OUTRA VEZ!

Como alertou Shakespeare, há certamente mais coisas sob o céu do que sonha nossa vã filosofia! Como diabos poderia eu imaginar que dizer para um paciente que ele estava calmo iria fazê-lo ficar nervoso?! Que supervisor poderia ter-me alertado sobre isso? Que literatura?

Mas, enfim, a experiência acabou sendo útil, pois, a partir dela, desenvolvi a teoria do "ansiostato quebrado". E o que é isso?

Fácil. Termostato você conhece, não é? Ele nos permite ajustar, por exemplo, um aparelho de ar-condicionado para que se mantenha um determinado aposento a uma determinada temperatura, ligando ou desligando o aparelho, de forma a que se faça esse ajuste. Recentemente, o termostato de um de meus aparelhos de ar- condicionado quebrou, ficando fixado em sua temperatura máxima. A conseqüência disso, naturalmente, foi a de que eu não podia mais, enquanto não o consertasse, ajustar a temperatura do quarto a meu bel-prazer.

Em minha teoria, todos nós somos providos de ansiostatos, que nos permitem ajustar nossa ansiedade - ou nosso medo - de acordo com o grau de perigo a que nos cremos sujeitos em um determinado momento, em determinadas circunstâncias.

Ocorre que, em certas pessoas o ansiostato quebra. Nesse caso, a ansiedade é mantida SEMPRE, no mesmo nível - para mais ou para menos - de forma que elas não podem mais AJUSTAR SEUS ANSIOSTATOS em conformidade com ao nível de perigo a que creem estar, de fato, expostos. André era um exemplo disso. Seu ansiostato havia quebrado, tendo ficado fixado na posição "MUITA ANSIEDADE". Ele não era louco e sabia muito bem que sua ansiedade era excessiva. Quando assinalei que ela havia caído, acionou-se nele um sinal de alarme e a ansiedade subiu; quando apontei a queda, o alarme se desligou e ele novamente se acalmou.

Claro que eu não cometi a estupidez de dizer que ele estava calmo outra vez!


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Luís César Ebraico
é psicólogo clínico com
35 anos de atividade ininterrupta
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