| O
fragmento de diálogo que passo a relatar aconteceu há mais de trinta
anos, e, para mim foi uma aprendizagem inesquecível.
André
era um paciente extremamente ansioso. Hoje em dia, atendo alguns pacientes deitados
outros sentados, segundo a vontade deles e as necessidades do tratamento. Naquela
época, todos - e, por conseguinte, André - eram atendidos deitados.
Sua ansiedade era particularmente visível em sua respiração
e, evidentemente, também em suas próprias verbalizações
sobre seu estado, nas quais relatava não só a própria vivência
de ansiedade, como a presença de indicadores físicos que soem acompanhá-la:
aceleração dos batimentos cardíacos, secura dos olhos, suor
frio, etc. Mas, nesse dia, alguma coisa de especial havia acontecido. Deitou-se
no divã, ficou em silêncio, e percebi uma respiração
longa e profunda, totalmente incompatível com um estado de ansiedade. Ao
que comentei:
LC: - Hoje você parece estar bastante calmo! Foi
o bastante para que, de imediato, retornasse a seu estado "normal",
com a respiração evidentemente alterada e exclamando: ANDRÉ:
- Caramba! Foi só você falar isso, que meu coração
se acelerou de novo e estou começando a suar novamente!
LC: - Bem,
parece que você já está nervoso, outra vez!
ANDRÉ
(dando um suspiro de alívio e retomando uma respiração profunda,
indicativa de que a tranqüilidade retornara): - Aaaaaaaaah! Engraçado,
FIQUEI CALMO OUTRA VEZ! Como alertou Shakespeare, há certamente mais
coisas sob o céu do que sonha nossa vã filosofia! Como diabos poderia
eu imaginar que dizer para um paciente que ele estava calmo iria fazê-lo
ficar nervoso?! Que supervisor poderia ter-me alertado sobre isso? Que literatura?
Mas, enfim, a experiência acabou sendo útil, pois, a partir
dela, desenvolvi a teoria do "ansiostato quebrado". E o que é
isso?
Fácil. Termostato você conhece, não é?
Ele nos permite ajustar, por exemplo, um aparelho de ar-condicionado para que
se mantenha um determinado aposento a uma determinada temperatura, ligando ou
desligando o aparelho, de forma a que se faça esse ajuste. Recentemente,
o termostato de um de meus aparelhos de ar- condicionado quebrou, ficando fixado
em sua temperatura máxima. A conseqüência disso, naturalmente,
foi a de que eu não podia mais, enquanto não o consertasse, ajustar
a temperatura do quarto a meu bel-prazer.
Em minha teoria, todos nós
somos providos de ansiostatos, que nos permitem ajustar nossa ansiedade - ou nosso
medo - de acordo com o grau de perigo a que nos cremos sujeitos em um determinado
momento, em determinadas circunstâncias.
Ocorre que, em certas pessoas
o ansiostato quebra. Nesse caso, a ansiedade é mantida SEMPRE, no mesmo
nível - para mais ou para menos - de forma que elas não podem mais
AJUSTAR SEUS ANSIOSTATOS em conformidade com ao nível de perigo a que creem
estar, de fato, expostos. André era um exemplo disso. Seu ansiostato havia
quebrado, tendo ficado fixado na posição "MUITA ANSIEDADE".
Ele não era louco e sabia muito bem que sua ansiedade era excessiva. Quando
assinalei que ela havia caído, acionou-se nele um sinal de alarme e a ansiedade
subiu; quando apontei a queda, o alarme se desligou e ele novamente se acalmou.
Claro que eu não cometi a estupidez de dizer que ele estava calmo
outra vez!
|