| "Depressão,
pelos estudos recentes, é uma doença neurodegenerativa e
heterogênea, com diferentes subtipos e níveis de gravidade"
"Antidepressivos e psicotrópicos
não mudam jamais a forma do pensamento, o sentimento, o relacionamento
ou o comportamento dos pacientes"
A área de psiquiatria já é vista com
muitos preconceitos pelas pessoas. A desinformação também
é preponderante. Muitos são humilhados e desqualificados
quando resolvem, de forma saudável, procurar ajuda psiquiátrica.
Mesmo levando-se em consideração que a imprensa tem boas
intenções e objetivos sociais, infelizmente, como profissional
da área de psiquiatria, tenho que me deparar com inúmeras
matérias, em revistas conceituadas da imprensa leiga (algumas femininas),
sem uma consultoria fidedigna dos aspectos científicos envolvidos.
Até autores estrangeiros de conhecimento questionável e
alarmante são citados. O mesmo se aplica a determinadas religiões,
algumas aconselham seus fiéis a largarem os medicamentos.
A sociedade tem a necessidade de conviver, em determinadas
circunstâncias, entre dois pólos. Ora, louvam-se os antidepressivos
que são considerados verdadeiros bálsamos da alma, ora tais
medicamentos são proscritos e considerados produtores de uma felicidade
artificial. Difícil é obter o ponto de equilíbrio.
Na Edição recente da Revista Cláudia (Número
7- Ano 46), entre inúmeros exemplos, há uma matéria
intitulada: “Coquetel da Felicidade”. Percebi que a intenção
dos editores e redatores foi a melhor possível, porém, colheram
algumas informações incongruentes e imprecisas.
| "Ter depressão, quando esta
é diagnosticada de forma correta pelo especialista, não
é optar por um enfrentamento ou não de conflitos ou
dores. Justificar o elevado nível de utilização
de tais medicamentos apenas por uma busca desenfreada de felicidade
a qualquer custo também é outro grande equívoco" |
A matéria começa narrando que uma bióloga
tomou antidepressivo sertralina na gestação; depois,
o medicamento foi suspenso no pós-parto porque “a criança
chorava o dia inteiro” e, 15 dias após, voltou a tomar
outro antidepressivo de nome escitalopram por um ano. Descreve-se
como anestesiada, que vivia um mundo de mentirinha. “Em vez
de lidar com as dificuldades, apelava para os remédios”-
foi uma das frases citadas na entrevista inicial da bióloga
entrevistada.
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Fazendo um breve comentário: não há
quaisquer provas científicas de que os antidepressivos modifiquem
ou “plastifiquem” as emoções ou os comportamentos
das pessoas. Isso é lenda, algo mitológico, sem consistência.
É claro que tais medicamentos devem ser prescritos por psiquiatras,
após uma rigorosa avaliação psicopatológica
do paciente. Medicamento só para transtornos mentais diagnosticados
pelo especialista. É óbvio para todos que as técnicas
de psicoterapia são essenciais também para a completa recuperação
dos pacientes, assim como práticas esportivas e técnicas
de meditação ou relaxamento complementares.
Venho aqui esclarecer aspectos médicos pertinentes para que as
pessoas que tomam tais medicamentos não fiquem mais estigmatizadas
ainda. Sentem-se muito culpadas, sofrem caladas; é um absurdo atribuir
um conceito errôneo e despropositado como esse - apesar, é
claro, das boas intenções não apenas desta matéria
como em tantas outras que tenho a oportunidade de acompanhar na imprensa
leiga.
Depressão tem base neurobiológica
estabelecida
A depressão tem base neurobiológica estabelecida. É
do conhecimento técnico que há “gatilhos” ou
estressores psicossociais significativos. Os filósofos, com todo
o respeito, devem ficar distantes de aspectos envolvendo medicina. Não
se trata de usar medicamentos para lidar com questões existenciais.
Ter depressão, quando esta é diagnosticada de forma correta
pelo especialista, não é optar por um enfrentamento ou não
de conflitos ou dores. Justificar o elevado nível de utilização
de tais medicamentos apenas por uma busca desenfreada de felicidade a
qualquer custo também é outro grande equívoco.
Muitos pacientes que utilizam tais medicamentos o fazem por conta própria,
sem avaliação médica. Muitos médicos não
especialistas ou generalistas prescrevem tais medicamentos para uma miscelânia
de quadros clínicos. Raramente, um obeso não sai de uma
clínica de emagrecimento com a prescrição de antidepressivo
ou ansiolítico. Alguns profissionais até cometem o erro
de diagnosticar depressão por escalas de avaliação.
Há algumas grandes e famosas academias de ginástica ou clínicas
de estética que “arranjam” para certos clientes “vips”
drogas como antidepressivos e anfetaminas de forma abusiva. A própria
Internet é um meio de muita promiscuidade para obtenção
de tais medicamentos. É só pesquisarem!
Na Rede Pública de Saúde, por exemplo, faltam especialistas
gabaritados para diagnosticarem e prescreverem psicotrópicos. A
política atual de Saúde Mental tem vários pontos
falhos e precários, apesar dos esforços. As pessoas humildes
raramente conseguem agendar consultas com psiquiatras nas Unidades Básicas
de Saúde (UBS).
Portanto, a questão é complexa e multifatorial. O aumento
indiscriminado de antidepressivos e outros psicotrópicos possui
diferentes variáveis. Eles são importantíssimos e
úteis quando bem indicados e administrados. É claro, como
quaisquer outros medicamentos, que possuem efeitos colaterais e riscos.
Porém, não mudam jamais a forma do pensamento, o sentimento,
o relacionamento ou o comportamento dos pacientes.
Depressão, pelos estudos recentes, é uma doença neurodegenerativa
e heterogênea, com diferentes subtipos e níveis de gravidade.
Quem pensar o contrário que me prove com pesquisas científicas
sérias. Envolve a participação e responsabilidade
dos diversos espectros sociais. Livros de auto-ajuda têm um poder
limitadíssimo no potencial de ajuda dos pacientes que realmente
têm um quadro psiquiátrico de depressão maior moderada
ou grave. Niguém troca de “auto-estima” como quem “troca
de roupa” como alguns querem nos fazer acreditar. É um processo
lento e gradual, que envolvem mudanças nos diversos níveis
- individual, social e familiar. Falar em cura por mudanças simplistas
e concretas de atitudes e pensamentos, como se tudo dependesse de “vontade”,
“perseverança”, “pensamento positivo” e
“fé” não ajuda no alívio da dor de milhões
de pacientes que sofrem calados e temerosos de serem rotulados pejorativamente.
Muito pelo contrário. Não podemos ignorar a verdadeira ciência.
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