| "Ao analisarmos se o
antidepressivo é o único responsável pelo aumento
de peso em mulheres em terapêutica antidepressiva, temos que
analisar, com cuidado, os múltiplos efeitos dos antidepressivos
na mudança de peso corporal e as dificuldades ainda existentes
em obter uma conclusão definitiva sobre esta importante questão
que envolve o tratamento" |
No último Congresso da Associação
de Psiquiatria da América Latina (APAL), realizado em novembro
de 2008 na Venezuela, uma pesquisa apresentada teve um grande impacto
entre os participantes: o estudo DELA (Depresión en Latinoamérica). |
Esse estudo pretendeu entender a percepção da população
feminina sobre a depressão na América Latina e confrontar
essa percepção com o impacto real relatado. O estudo foi
conduzido por dois institutos: a primeira parte pelo IBOPE, constituído
por mulheres em geral avaliadas no Brasil, Chile, Colômbia, Venezuela
e México e a segunda parte pelo Instituto Nielsen que avaliou mulheres
com depressão no Brasil, México e Venezuela.
No Brasil, foram avaliadas cerca de 300 mulheres (São Paulo, Rio
de Janeiro e Porto Alegre), entre 35 a 55 anos, pertencentes às
classes A e B. Em outros países, foram utilizadas classes sócioeconômicas
semelhantes. No total, foram entrevistadas 1100 mulheres nos cinco países
latino-americanos envolvidos.
Mulher brasileira é a que mais reconhece depressão
como doença
As brasileiras foram as que mais reconheceram a depressão como
uma doença.
| Outro fato relevante constatado, é
que a maioria das mulheres crê que a depressão é
uma doença temporária, o que contradiz os dados científicos
dos estudos atuais que demonstram ser uma doença crônica.
No Brasil, a maioria das mulheres se informa sobre a depressão
pela Internet (31% delas) e por revistas (26%). |
Sintomas associados à depressão
No grupo em geral, a tristeza, a melancolia e o desânimo são
os sintomas mais associados à depressão, em 78% das mulheres
entrevistadas. Já as alterações do sono e diminuição
do desejo sexual, embora importantes para o diagnóstico de depressão,
são pouco relatadas pelas mulheres, mesmo as deprimidas (cerca
de 3% apenas associam tais sintomas à depressão).
Quando as mulheres foram estimuladas, por frases faladas, em alguns itens,
elas demonstraram concordância e um bom nível de conhecimento
sobre a depressão como:
1) a mudança do apetite;
2) diminuição do prazer pela vida;
3) diminuição de atividades de hobbies;
4) piora do desempenho no trabalho;
5) isolamento de amigos e familiares.
As mulheres latinas quando estimuladas na entrevista também concordaram
que a depressão diminui o desejo sexual (destaque para as brasileiras),
que pode ocorrer mais nas mulheres menopausadas e que tem um impacto maior
nas mulheres quando comparadas aos homens. A maioria também não
concorda (felizmente!) que a depressão atinge mais os ricos que
os pobres, em especial as brasileiras.
Opiniões divididas ocorreram quando a entrevista abordou a possibilidade
de que a as mulheres deprimidas sejam mais frágeis que as não
deprimidas. 45% das mulheres concordaram com tal afirmativa (destaque
para venezuelanas, mexicanas e colombianas) enquanto 54% das entrevistadas
não concordaram (no Brasil, a taxa foi de 79%).
Um índice elevado das 300 mulheres brasileiras entrevistadas, respectivamente,
97% e 94% concordaram com as frases de que a depressão pode alterar
o apetite, levando ao aumento do peso e também diminuir o desejo
sexual.
Brasileira é a que mais reconhece necessidade de tratamento
para depressão
As brasileiras também foram as que mais se destacaram quanto à
necessidade do tratamento para a depressão.
95% das brasileiras acham que a busca por ajuda médica é
fundamental, portanto são as mais conscientes a respeito do tratamento.
Entre todos os tratamentos apresentados, as brasileiras são as
que mais participam de tratamentos indicados como psicoterapias (64%),
acompanhamento por médicos psiquiatras (55%), tratamentos com antidepressivos
prescritos por médicos (48%) e exercícios físicos
(44%).
Eficácia de antidepressivos
A maioria das mulheres latinas considera os antidepressivos eficazes
para o tratamento da depressão (65% entre as depressivas). As brasileiras
são as que mais crêem na eficácia dos mesmos (73%).
Latinas creêm no aumento de peso devido ao uso de antidepressivos
Quanto aos efeitos colaterais dos antidepressivos, 45% das 1100 mulheres
latinas entrevistadas acreditam que os antidepressivos aumentem o peso
enquanto que 49% acreditam que os antidepressivos diminuem o desejo sexual.
Por que elas abandonam tratamento antidepressivo?
Entre as causas de abandono do tratamento antidepressivo, nas brasileiras
destacam-se:
1) Sentimento de que estão melhores e não
necessitam mais do tratamento (73%);
2) Aumento de peso (30%);
3) Perda de desejo sexual (17%);
4) Mal-estar e náuseas (16%).
Portanto, o estudo DELA nos indica, em relação à
América Latina, que o estigma relacionado à depressão
é elevado. Notamos que o conhecimento das brasileiras sobre a doença
é maior quando comparadas às mulheres dos outros países
latino-americanos. Apesar do conhecimento e informação,
ainda notamos uma baixa aderência ao longo do tratamento. Muitas
mulheres brasileiras acreditam que o aumento do peso é um dos responsáveis
mais importantes.
Antidepressivo realmente causa aumento de peso?
Na minha prática clínica, realmente, tal preocupação
justa das mulheres é confirmada. Muitas já vêm ao
meu consultório com medo e angústias relacionadas a tal
“possibilidade”. Relatam-me: “Dr, eu não tenho
receio de tomar remédio, acho que o tratamento é fundamental,
porém, se eu inchar ou engordar vou abandonar o tratamento, tenho
uma amiga que tomou antidepressivos por vários anos e engordou
dez quilos”.
Antidepressivo X Aumento de Peso é uma área complexa, com
muitas informações contraditórias.
Todos os médicos devem ter um conhecimento geral sobre tal tema,
já que o uso de antidepressivos é muito comum na população
de mulheres não apenas deprimidas e ansiosas, mas para uma outra
série de condições clinicas como TPM (tensão
pré-menstrual), dores crônicas (como fibromialgia e cefaléia),
compulsão alimentar, alterações do sono, etc.
Dos usuários de antidepressivos, 70% são mulheres.
| O primeiro conceito é que a depressão
é uma doença que pode levar a mudanças no peso
influenciadas por fatores específicos da doença como
alterações no apetite e na atividade física ou
pelo uso de antidepressivos. |
A análise dos estudos indicou que a mudança de peso atribuída
ao tratamento com antidepressivos apresenta resultados controversos, sendo
influenciada por fatores como o tempo de uso e dosagem do medicamento.
Porém, não podemos nos esquecer que a prevalência
da obesidade em pacientes psiquiátricos tratados farmacologicamente
(não apenas deprimidos, mas esquizofrênicos, bipolares, etc....)
é 2 a 5 vezes maior do que na população geral.
A medicação pode levar ao aumento do peso durante a fase
de manutenção.
Grupos de antidepressivos
De forma didática e básica, vamos organizar os antidepressivos
em três grupos:
1) antidepressivos tricíclicos, mais antigos,
como clomipramina, imipramina, amitriptilina, entre outros (ADT);
2) antidepressivos serotoninérgicos, que regulam
a serotonina como a fluoxetina, sertralina, citalopram, escitalopram e
paroxetina (ISRS);
3) antidepressivos de nova geração, com
outros mecanismos de ação como a bupropiona, a mirtazapina,
a venlafaxina e a duloxetina (ANG).
Por que antidepressivo age no aumento de peso?
Pode haver vários mecanismos psicofarmacológicos responsáveis
pelo aumento do peso devido à ação direta dos antidepressivos:
1) Diminuição do neurotransmissor dopamina
no hipotálamo que aumenta o apetite;
2) Diminuição da estimulação
do receptor de serotonina 5HT2C;
3) Diminuição da estimulação
do receptor histaminérgico H1, que leva a uma insensibilidade à
ação da leptina (a leptina, do grego leptos = magro, é
uma proteína secretada por adipócitos e que age no sistema
nervoso central (SNC) promovendo menor ingestão alimentar e incrementando
o metabolismo energético, além de afetar eixos hipotalâmico-hipofisários
e regular mecanismos neuroendócrinos) que causa aumento da procura
de alimentos e aumento de peso;
4) Diminuição da estimulação
do mensageiro químico cerebral acetilcolina (neurotransmissor).
É um dos fatores que podem contribuir para o aumento de peso, junto
com os outros relatados.
Até pouco tempo atrás, paradoxalmente, os antidepressivos
serotoninérgicos como a fluoxetina e a sertralina possuiam um papel
coadjuvante ao tratamento antiobesidade - segundo o Consenso Latino-Americano
de Obesidade e o Consenso Brasileiro de Diabetes. Felizmente, isso caiu
por terra, já que o emagrecimento ou perda de peso inicial, geralmente
pela diminuição do apetite provocada no início do
tratamento, não se mantém, pelo contrário, no longo
prazo pode haver até um aumento pequeno de peso.
Com relação aos ADT há ganho de peso durante o tratamento
agudo (6 semanas iniciais). No período de manutenção,
observa-se também aumento de peso corporal, porém, sem diferenças
em relação ao grupo controle em alguns estudos.
| O ganho de peso é muitas vezes
relatado como resultado da melhora do quadro depressivo pelo uso da
droga, levando a mudanças no apetite e não, simplesmente,
decorrente de um efeito colateral da medicação. |
Quanto aos serotoninérgicos (ISRS), a perda de peso costuma ocorrer
nas primeiras seis semanas de tratamento, devido à diminuição
do apetite. No longo prazo, a mudança de peso parece ser o oposto,
com ganho de peso que nem sempre é relacionado ao efeito colateral
da droga, mas à recuperação da depressão.
É importante ressaltarmos que dentro de uma mesma classe, como
por exemplo, os antidepressivos serotoninérgicos ou tricíclicos,
certas drogas apresentam maior risco de mudança de peso que outras.
Entre os serotoninérgicos, nitidamente a paroxetina aumenta o peso
mais que a fluoxetina e a sertralina, com ganho ponderal acima de 7% em
relação ao peso. Em um grande estudo de metanálise,
de 54 semanas de duração, a sertralina não foi diferente
do placebo (substância inócua, uma pílula de farinha)
em relação ao ganho ponderal.
Quanto aos antidepressivos de nova geração (mirtazapina,
bupropiona, venlafaxina e duloxetina) temos também diferenças
importantes entre as drogas. Enquanto, por exemplo, a bupropiona e a venlafaxina
são neutros, a mirtazapina não é, levando sim ao
aumento de peso no tratamento de manutenção, até
com ganho ponderal acima de 7%.
Portanto, ao analisarmos se o antidepressivo é o único responsável
pelo aumento de peso em mulheres em terapêutica antidepressiva,
temos que analisar, com cuidado, os múltiplos efeitos dos antidepressivos
na mudança de peso corporal e as dificuldades ainda existentes
em obter uma conclusão definitiva sobre esta importante questão
que envolve o tratamento. Já que muitas mulheres simplesmente abandonam
o tratamento antidepressivo por esta questão prioritária
em suas vidas e nem sempre são adequadamente informadas e orientadas
de todos os aspectos envolvidos, até com os cuidados nutricionais
e atividades físicas que devem fazer parte do tratamento.
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