| "Nossas expectativas devem centrar-se
na busca por um relacionamento de qualidade, não por um ideal
inatingível causado por excesso de expectativas fantasiosas.
O verdadeiro amor vive e sobrevive no mundo real, não em condições
ideais, mas em condições essenciais" |
A maturidade caracteriza-se pela nossa possibilidade
de compreender as coisas como elas são e não como gostaríamos
que fossem. Quando atingimos, ainda que parcialmente, a tão
esperada maturidade (que não é um ponto final, mas um
novo ponto de partida), percebemos com muita clareza detalhes da vida
e dos relacionamentos, que antes nos escapavam quase que na totalidade. |
As relações amorosas, por sua própria natureza,
são as que mais resistem ao amadurecimento, uma vez que o sonho
romântico é, para a maioria das pessoas, uma âncora
que não desejamos recolher por medo de não saber para onde
os ventos fortes da vida poderão levar o barco do nosso coração,
especialmente se estiver machucado.
Amor e relacionamento são diferentes. Podem conviver juntos,
e é maravilhoso quando isso acontece, mas não é a
regra, apenas uma possibilidade muito desejada. O amor é um sentimento,
a paixão uma febre de conteúdo químico e, o relacionamento
é uma interação entre dois seres humanos na sua totalidade.
O relacionamento não envolve apenas os sentimentos, mas também
as crenças, valores e comportamentos. O amor é incondicional,
o relacionamento não.
Quanto mais nos aproximarmos da maturidade, mais perceberemos, com maior
clareza, que mesmo existindo amor, em alguns casos, o relacionamento será
impossível. Porque mesmo existindo amor, podem existir incompatibilidades
que, cedo ou tarde, pedirão uma retirada. Aceitar tudo, absolutamente
tudo em nome do amor romântico é uma tolice!
Amor romântico
O amor romântico é um sentimento que busca união e
compartilhamento. O amor romântico pressupõe um desejo contínuo
de proximidade e a presença de admiração pelo outro.
Na impossibilidade da união, seja dos semelhantes, seja dos contrários,
seja dos complementares, mesmo sendo intenso, possuirá dentro de
si a causa da separação futura.
Lembremos que o que chamamos de amor pode ser doentio, se estiver associado
a sentimento de posse, abuso de poder manipulação do outro
e narcisismo, apenas para citar alguns casos.
Há amores doentios que obscurecem a vida e nos impedem de sonhar
porque aprisionam nossos sonhos em armadilhas de cobranças e violências,
que vão desde ofensas cotidianas, que visam reduzir a autoestima
do outro a pó, até mesmo à violência física.
Milhares de pessoas se submetem a violências verbais, morais e até
físicas em nome do amor. Isso não é saudável,
essas pessoas estão vivendo uma relação doentia.
O amor que destrói não é amor. O verdadeiro amor
constrói.
Um amor onde uma das pessoas é compulsoriamente responsabilizada
por todo o peso da relação e, de maneira altruísta
e ingênua, anula sua própria existência para não
perder o par romântico, está fazendo um mal a si mesma e
ao outro. O amor não é feito apenas de sims, também
precisa de nãos. Na ausência de nãos
uma das pessoas estará se violentando e investindo no agravamento
do egoísmo do outro. Não é sábio investir
no egoísmo do outro, ele já cresce mais que suficientemente
sozinho.
Maturidade, amor e relacionamento
A maturidade ensina que amor e relacionamento são coisas diferentes.
É maravilhoso quando o amor e um relacionamento saudável
se encontram e uma relação verdadeira, transparente, baseada
na reciprocidade sem cobranças obsessivas ou violências intencionais,
mas para a imensa maioria dos modelos de casais, não é assim
que acontece. A imensa maioria das pessoas escolhe seu par, motivadas
por equívocos e ingenuidades e depois com vergonha ou medo de buscar
novos horizontes, se obriga a pagar o preço que às vezes
é muito alto, chegando a custar literalmente a vida, em algumas
ocasiões.
No amor a dois não podemos esquecer de amar a nós mesmos,
e se preciso for, desistir da relação. Os relacionamentos
podem ocasionar momentos de dor, às vezes necessário ao
nosso aperfeiçoamento, mas se, na maior parte do tempo, não
existem momentos de prazer e comunhão, compartilhamento e respeito,
então estamos diante de um desses casos, onde mesmo existindo amor,
o relacionamento não deveria existir.
Insistir em relacionamentos que nos fazem sofrer ou causam algum tipo
de prazer no sofrimento do outro, é sadomasoquismo e, portanto,
está baseado em um desejo patológico de sofrer ou de fazer
sofrer, continuamente.
Em muitos casos o que chamamos de amor pode ser totalmente incompatível
com a possibilidade de relacionamento saudável. Em outros casos,
um amor aparentemente menor, tendo encontrado um relacionamento de qualidade,
onde o respeito e o desejo contínuo de compartilhar e crescer esteja
presente, pode significar uma união incrivelmente mais feliz. Nessas
situações o amor supostamente menor, em um primeiro instante,
pode com o tempo, superar em muito aquele que julgávamos tão
imenso e que acaba sendo massacrado pelo egoísmo, ciúme
e manipulação.
Uma união para ser saudável, deve conter amor e relacionamento
de qualidade. Nessas condições, ainda que existam dores
(e não necessariamente precisarão existir), elas serão
saudáveis, e serão o fruto de processos de aprendizagem
e reconstrução do nosso modelo mental e do nosso modelo
de vida. Graves enganos cometidos em nome do amor continuam a ser graves
enganos.
Antes só do que mal acompanhado
Algumas pessoas optam pelos versos de Erasmo Carlos (grande compositor)...
“Antes mal acompanhado do que só...”, outras preferem
a sabedoria popular “antes só do que mal acompanhado”.
Na maturidade se percebe que mesmo acompanhados poderemos estar na mais
profunda solidão, mesmo que haja amor, porque se não há
um relacionamento de qualidade, cada qual vive só em seu mundo,
não existe o mundo comum, onde os amantes deveriam passar, pelo
menos parte do seu tempo. A solidão a dois talvez seja a mais dolorosa
entre todas as modalidades de solidão, porque quando o outro se
manifesta você preferiria estar, de fato, sozinho.
Essas situações não precisam ser assim. Precisamos
exercer o amor por nós mesmos e se existe amor, convidar o outro
a compartilhar conosco de maneira saudável esse maravilhoso sentimento
na construção de uma relação de valor, onde
ambos ganhem sem que nenhum dos dois tenha que perder. Na ausência
de um grande amor, é preferível viver em um excelente relacionamento
baseado na fraternidade, no afeto, carinho e respeito. Na ausência
de um relacionamento em que se possa investir e apostar, nos resta a coragem
de partir sabendo que nossas possibilidades de amar não estão
restritas a uma única situação.
Quantas pessoas você conhece que foram felizes somente no segundo
ou no terceiro casamento? Quantas pessoas você conhece que só
foram felizes depois de inúmeras e persistentes tentativas? Quantas
pessoas reconstruíram suas vidas após a perda (às
vezes por motivos graves) de quem amavam e, mesmo assim, conseguiram,
graças a sua capacidade de amar novamente, refazer suas vidas?
Não aprisione a si mesmo. Vale a pena lutar por um grande amor,
vale a pena lutar para salvar um relacionamento que se apresenta ferido
ou enfermo, mas observe bem qual é a causa da sua luta e se ela
será sempre apenas sua. “Nenhum reino dividido sobre si mesmo
sobreviverá”.
Relacionamento deve ser uma interação de qualidade
O amor é um sentimento de expansão da alma e deve trazer
alegria. Relacionamento deve ser uma interação de qualidade
onde aprendemos e crescemos uns com os outros em um clima de profundo
respeito pelo universo do outro. Na ausência dessas características
faça como na canção “Bilhete” de Ivan
Lins: “Jogue a cópia da chave por debaixo da porta, que é
pra não ter motivos de pensar numa volta. Fique junto dos seus.
Boa sorte. Adeus”
Agora, se existe amor, existe admiração e respeito, ainda
que o relacionamento sinta o impacto do encontro das diferenças
provenientes de dois mundos, duas identidades, do conjunto de hábitos
diferentes que cada um traz para a relação; neste caso,
vale a pena investir na relação e apostar no futuro. O firme
propósito de fazer dar certo vale a pena na presença do
amor e frente a um relacionamento de qualidade que contenha muitas virtudes
e potencial de felicidade. Nossas expectativas devem centrar-se na busca
por um relacionamento de qualidade, não por um ideal inatingível
causado por excesso de expectativas fantasiosas. O verdadeiro amor vive
e sobrevive no mundo real, não em condições ideais,
mas em condições essenciais.
|