| "O grande perigo na vida de uma
celebridade é acreditar demais na imagem produzida e divulgada
sobre si, perdendo a conexão com sua identidade" |
Nestes dias em que a morte de Michael Jackson mobiliza
a imprensa internacional, cabe refletirmos sobre a seguinte questão:
De quê e de quem Michael tentou se proteger durante todos esses
anos? |
Compreender hipóteses para responder essa pergunta pode nos ajudar,
salvaguardas as proporções e particularidades, a compreender
nossas próprias tentativas de autoproteção.
Quando tentamos demasiadamente nos proteger estamos, via de regra, fugindo
deliberadamente de algo.
A hipótese de que Michael Jackson sofresse da chamada síndrome
de Peter Pan (síndrome proposta originariamente pelo Dr. Dan Kiley
em seu livro lançado em 1983 intitulado: “A síndrome
de Peter Pan: homens que nunca crescem”), pode ser explicada como
uma tentativa de “proteger” a si mesmo do envelhecimento.
Talvez Michael estivesse, de fato, não querendo envelhecer por
sentir não ter possuído uma infância autêntica.
Nessa categoria de raciocínio, quantos milhões de pessoas
do mundo se enquadrariam?
Sufocado desde pequeno pela indústria do entretenimento e sob relatadas
hostilizações familiares, não é difícil
supor e imaginar o quanto sua infância foi prejudicada, adiada e,
talvez, nunca efetivamente vivenciada.
A construção do parque temático particular “Neverland”
(Terra do Nunca) parece evidenciar (salvaguardadas as possibilidades de
marketing envolvidas) essa vontade de resgatar a infância e brincar
em um parque privativo (desejo que muitas crianças já manifestaram,
ao menos em breves momentos).
O nome “Terra do Nunca” metaforicamente aponta para a realidade
do lugar “a que nunca se chega”, “nunca existe”,
“nunca perdura”. Talvez, simbolicamente, o próprio
cantor estivesse manifestando uma “certeza velada” de que
essa infância perdida nunca seria recuperada e, que somente sonhos
fantasiosos e lendas como as de Peter Pan pudessem lhe oferecer conforto
pelas vias da imaginação. Vale lembrar que ele ficou profundamente
magoado ao ser excluído do papel principal no filme Peter Pan.
Análises psicológicas mais profundas dos possíveis
transtornos psicológicos vivenciados pelo artista não cabem
em um artigo dessa natureza. Porém, a pergunta que nos propomos
é útil: De quê e de quem Michael tentou se proteger
todos esses anos?
Múltiplas respostas são possíveis. Ele poderia estar
tentando se proteger da fama (embora não conseguindo viver sem
ela), poderia estar tentando se proteger do inevitável encontro
com a idade adulta, do inevitável envelhecimento e até mesmo
da inevitável morte.
Michael poderia estar tentando se proteger do inevitável encontro
consigo mesmo; hipótese que explicaria tantas cirurgias plásticas
buscando encontrar uma imagem exterior que cancelasse a imagem interior
que, de alguma forma, o incomodava.
Michael poderia estar tentando se proteger do passado, do presente e do
futuro. Tudo ao mesmo tempo!
Um gênio, um artista brilhante, o maior ícone da música
pop de todos os tempos, mas um ser humano em conflitos profundos. Vivendo
uma fuga da realidade tão intensa que o conduziu a todas as situações
adversas e polêmicas da sua trajetória.
Não que o Homem seja apenas produto do meio, mas nenhum
de nós acharia fácil ter vivido sob a pressão que
Michael Jackson viveu em toda a sua vida.
O grande perigo na vida de uma celebridade é acreditar demais na
imagem produzida e divulgada sobre si, perdendo a conexão com sua
identidade. Isso não aconteceu somente com ele. Elvis Presley,
apenas para citar um exemplo, também atravessou esse abismo, Marilyn
Monroe, também.
Autoproteção de Michael Jackson
Michael cercou-se de todos os tipos de proteção possíveis
e imagináveis:
1) Comprou parte dos direitos das músicas do Beatles, “protegendo”
seus rendimentos;
2) Tentou “proteger” a majestade, unindo as histórias
do rei do pop com o rei do rock, “casando” com a filha de
Elvis Presley;
3) “Protegeu-se” dos ataques sobre sua conduta sexual e com
crianças, “namorando mulheres” e tendo três filhos;
4) “Protegeu-se” das ações judiciais, fazendo,
acordos milionários;
5) “Protegeu-se” dos fãs e de sua própria equipe
com esquemas de segurança gigantescos;
6) “Protegeu-se” da família afastando-se dela;
7) “Protegeu-se” da dor a custa de poderosos analgésicos;
8) Protegeu-se de uma possível performance inferior à dos
tempos áureos, postergando a volta aos palcos;
9) Protegeu-se da falência, leiloando bens e propondo uma nova mega
turnê;
10) “Protegeu-se” de envelhecer partindo antes, de tanto se
proteger...
Olhando a biografia de Michael Jackson (à qual muitos fatos novos,
reais e fictícios, se somarão - já que a indústria
do entretenimento não para, e se alimenta da vida e da morte de
seus ídolos) nota-se um menino prodígio. Um gênio
frágil, um artista capaz de levar ás lágrimas o gigante
talento de Sammy Davis Jr. Um consumista extremado - consumiu de tudo
e em tamanha quantidade que acabou consumindo a si mesmo.
Observando sua vida, encontramos uma criança criativa, atarefada,
atormentada e pressionada por tudo e por todos, inclusive por si mesmo.
Michael viveu fugindo e se protegendo, criando, encantando, emocionando,
ditando tendências, cometendo erros e acertos, sendo acusado, absolvido,
caluniado, admirado.
Dormir na câmara hiperbárica (que retardava o envelhecimento)
não o impediu de partir tão cedo. Excesso de proteção
desprotege...
Fica aqui registrado o meu mais profundo respeito a esse genial artista,
cujos supostos erros não julgo, porque sequer conheço a
verdade sobre os fatos. Conheço apenas os relatos, versões
e notícias veiculadas. E mesmo se conhecesse os fatos, ainda assim,
eu não o julgaria.
Quem de nós pode assegurar quais seriam nossas reações
vivendo uma vida tão atípica quanto a dessas megacelebridades
colocadas na vitrine do mundo, desde a infância, frente a um público
que quer o espetáculo, seja ele qual for?
De quê e de quem Michael tentou se proteger todos esses anos?
Ele partiu cedo, deixou seu legado, mas provavelmente jamais tenha encontrado
o que buscava...
E você, o que vem buscando? De quê e de quem você vem
fugindo nessas tentativas infinitas de se proteger?
Acabamos todos por encontrar o que tememos e descobrindo que excesso de
proteção desprotege!
Comece a viver, abandone os mitos criados por você mesmo e pelos
outros a seu respeito.
“Desproteja-se”, ao menos um pouco, para viver a vida real.
Abandonar a infância ou o comportamento adolescente dói.
Mas dói mais tentar manter-se neles.
Crescer não é uma opção, é uma condição.
Aceite-a no melhor tempo: agora!
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