| No mais das vezes,
chegar pontualmente a uma sessão de análise é a maneira
mais objetiva de se tirar o máximo proveito dela. Mas todo o analista
sabe que há pacientes que são pontuais por essa razão
prática e outros que o são por fobia de atrasar, o que,
naturalmente, produz um compulsão de ser pontual. Mas como fazer
o paciente compulsivamente pontual reconhecer como SINTOMA um comportamento
que, do ponto de vista objetivo, é totalmente desejável?
A comparação entre as sessões de dois pacientes,
Antônio e Horácio, num dia em que um engarrafamento monstro
forçou ambos a chegarem atrasados, vai nos ajudar a resolver a
questão.
A reação de Antônio
ANTÔNIO: — Pô, doutor, desculpe o atraso.
LC: — Tudo bem.
ANTÔNIO: — Está um engarrafamento infernal em toda
a N.S. de Copacabana.
LC: — Eu soube.
ANTÔNIO: — Bem, vamos ver se eu aproveito o que resta da sessão.
Como eu estava dizendo da última vez, blá, blá, blá,
blá, blá, blá...
A reação de Horácio
HORÁCIO: — Pô, doutor, desculpe o atraso.
LC: — Tudo bem.
HORÁCIO: — Esta cidade está ficando um inferno. Será
que, agora, a gente vai ter que sair sempre uma hora antes para chegar
pontualmente a um lugar a que a gente chegava em vinte minutos? Isso é
problema desse prefeito, que só faz reformas de maquiagem, e também
dessa população de idiotas, que não sabem votar.
Esse negócio de chegar atrasado é um inferno, porque eu
tinha uma porção de coisas para falar hoje e, agora, não
vai dar mais, inclusive porque estou com tanta raiva de me haverem feito
chegar atrasado que não consigo pensar em outra coisa. E não
tenho nenhuma possibilidade de reagir! O que vou fazer? Matar o prefeito?
Assassinar esse eleitor brasileiro que é um babaca? Blá,
blá, blá, blá, blá, blá...
LC: — Horácio, acho que seria produtivo se nós falássemos
um pouco sobre o papel da pontualidade e do atraso em sua vida. Parece
ser um ponto particularmente sensível para você.
HORÁCIO: — Ué, não consigo ver nenhum problema
aí! Não é normal que a pessoa queira chegar na hora
em sua sessão de análise e que fique frustrado quando isso
não acontece?
LC: — Supernormal. Ocorre apenas que você não parece
simplesmente frustrado, mas, sim, traumatizado por seu atraso e isso,
sim, merece nossa atenção.
HORÁCIO: — Por que você está dizendo que eu
fiquei traumatizado e não, frustrado?
LC: — Vários pacientes chegaram atrasados hoje. Os frustrados
com isso mencionaram ligeramente o assunto e aproveitaram o resto da sessão
para dar continuidade ao que vinha sendo tratadoem suas análises.
Os traumatizados com o fato não conseguiram, como você, parar
de falar no assunto, e, nesse caso, o mais produtivo é esquecermos
o resto, e aprofundarmos o problema do atraso.
HORÁCIO: — Bem, minha mãe sempre chegava atrasada
quando ia me buscar na escola. Todo mundo já tinha ido embora e
eu ficava lá, esperando..., esperando... Era horrível!
Horácio fizera uma CONTRA-IDENTIFICAÇÃO: tinha FOBIA
de repetir em sua vida o comportamento que o traumatizara e, a partir
daquela sessão, pudemos começar a trabalhar isso.
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