| "Podemos
distinguir perfeitamente bem o que é ficar contente com um
comportamento e o que é amar ou deixar de amar. Isso significa
separar, colocar em dois pontos completamente diferentes do nosso
coração, o que é o nosso amor pelo nosso filho
e o que é a nossa satisfação com ele e com
o comportamento dele. Quando separamos isto conseguimos também
ensinar os nossos filhos a separar o que é a autoestima do
que é o sucesso" |
Voltando à questão
das origens do problema da perda da autoestima natural, é
importante enfatizar que a criança aprende muito por imitação.
Ela percebe como os outros se comportam e procura se comportar da
mesma forma, ou o mais parecido que consegue. |
Quando uma criança vive num ambiente no qual é estimada
e valorizada, ela aprende deste exemplo. "Papai e mamãe gostam
de mim, os outros gostam de mim, eu vou gostar de mim também."
É uma reação instintiva, faz parte da natureza do
aprendizado e coincide com a atitude natural de autoestima.
Mas a grande maioria dos pais tem medo de que o filho saiba o quanto
eles o amam. Simplesmente por que sabem que estão muito vulneráveis
a este amor. Minha experiência de pai me mostrou que meu amor pelos
meus filhos é absoluto. Gosto deles apenas porque são meus
filhos e os amo tanto quanto a mim mesmo. Eles são partes de mim,
que se destacaram, têm vida própria e gosto deles de graça.
Gosto incondicionalmente, ou seja, não estabeleço condições.
Não gosto deles apenas quando tiram nota boa ou quando são
bonitos ou quando se comportam bem. Gosto deles sempre. Fico triste, aborrecido
se eles não correspondem a alguma expectativa que tenho. Mas sei
que este aborrecimento não diminui o meu amor por eles. E tenho
- como todos os pais e mães têm também - medo de que
eles saibam disso e pensem que se o pai e a mãe gostam deles mesmo
quando se comportam mal, mesmo quando tiram nota baixa, então eles
podem fazer qualquer coisa.
Esse tipo de medo leva os pais a esconderem do filho o quanto eles gostam
dele. Em consequência, os pais começam a dizer para os filhos
que não gostam deles quando se comportam mal, que só gostam
deles quando tiram boas notas e quando são obedientes. A criança
começa a ter esta informação equivocada de que o
amor que recebe é condicionado a coisas variadas como seu comportamento,
sua beleza, etc, de que ela merecer e conquistar este amor. O que, já
sabemos, não é verdade.
Na medida que a criança entende dessa forma e aprende essa lição,
passa a copiar esse modelo como referência e começa também
dizer para si mesma que só pode se gostar se... E aí esse
'se' começa a estabelecer condicionamentos: ..se for uma pessoa
bem-sucedida, ... se for uma pessoa bonita, ... se agradar os pais fazendo
o que eles esperam. Isto resulta em um prejuízo permanente da autoestima.
A partir daí, as pessoas, crianças e adultos, todos os
que passaram por esse tipo de aprendizado em maior ou menor grau começam
a condicionar o amor por si mesmo a determinadas exigências do tipo:
'se eu não for bonito, inteligente'; 'se não conseguir passar
no vestibular', etc, não gosto de mim. A pessoa fica derrotada
na sua autoestima. Vemos constantemente jovens e adolescentes que não
conseguiram sucesso em algum tipo de desafio ou de exigência que
eles se fizeram ou que lhes foi feita e ficam arrasados, com a autoestima
baixa. O que se ganha com isso? O que ganhamos quando torpedeamos a autoestima
dos nossos filhos?
É muito importante que o filho saiba que gostamos dele mesmo se
ele não passar no vestibular, mesmo se ele ou ela estão
namorando uma pessoa que achamos que não vale a pena, que não
merece.... Podemos distinguir perfeitamente bem o que é ficar contente
com um comportamento e o que é amar ou deixar de amar. Isso significa
separar, colocar em dois pontos completamente diferentes do nosso coração,
o que é o nosso amor pelo nosso filho e o que é a nossa
satisfação com ele e com o comportamento dele. Quando separamos
isto conseguimos também ensinar os nossos filhos a separar o que
é a autoestima do que é o sucesso. E a autoestima não
fica mais dependendo do sucesso, da realização, da conquista,
do atendimento às exigências. Quando autoestima (ou o amor
próprio) fica independente, o amor volta a ser de graça.
O processo de recuperação da autoestima consiste em desmentir
os valores equivocados que nos foram ensinados e que estabelecem o sucesso
como condição para gostarmos de nós mesmos. Somente
com esforço e atenção é que seremos capazes
de, com o tempo, reavermos a possibilidade de nos querermos bem independentemente
de quem somos. Voltarei ao assunto para desenvolver uma reflexão
sobre este processo de recuperação da autoestima.
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