| Coluna
Reflexões - Reflexão e entretenimento sobre o cotidiano |
Ilusão compromete realização de propósitos
Por Angelina Garcia
As colegas se esbarram por acaso.Tânia
sorriu, lembrando-se de que esta era a Cidinha, cheia de propósitos, mas
nenhum movimento em direção a eles. Encontrava sempre coisas mais
urgentes. Caso não houvesse, ela inventava. Parecia, mesmo, que a idéia
do desejo realizado fosse suficiente para satisfazê-la. Aí estava
o perigo. Não podemos confundir sonho com a ilusão de que há
alguma coisa pronta nos esperando.
A ilusão tem muitas caras,
entre elas o depois. Podemos passar toda uma vida adiando coisas, acreditando
que um dia vamos realizá-las: quando sobrar dinheiro; depois que os filhos
crescerem; depois da aposentadoria; depois que terminarmos a casa; depois disto;
depois daquilo. E o depois nunca chega, porque ainda não é a hora;
porque não temos certeza se vai dar certo; porque queremos nos preparar
para que tudo saia perfeito. É importante nos colocarmos atentos para a
diferença entre atitudes que dizem respeito ao planejamento de determinada
empreitada e aquelas que usamos como artifício para não iniciá-la.
Esperar que algo mágico, além de nós, mude o rumo da
nossa história, é outra forma de mantermos a ilusão. É
possível, sim, que o inesperado aconteça e nos traga a oportunidade,
mas isto não ocorre sempre, nem para todos, portanto é melhor não
contarmos com ele. Além disso, coisa alguma vem pronta, a não ser
as inconsistentes.
Para o mestre do teatro, Constantin Stanislavski,
"a natureza não dá saltos", nem a humana. Quando observamos
qualquer obra, seja um delicioso espetáculo; um bom livro; um belo quadro,
uma música que nos remexe as entranhas; uma família harmoniosa,
na qual um torce pelo prazer do outro; um lindo jardim nos espiando da frente
de uma casa, é comum nos esquecermos que houve um laborioso processo atrás
de cada uma delas.
Assim é com os nossos projetos, dos mais simples
aos mais complexos, inclusive aqueles de reconstrução pessoal. Quanto
mais cedo começarmos nosso trabalho, mais tempo teremos para torná-los
possíveis. Não custa lembrar o velho ditado: aquilo que não
fizermos hoje será o acumulado de amanhã. Também não
é possível pularmos etapas, nem tentarmos passar rapidamente por
elas, para não senti-las. Estar, de fato, em cada momento da trajetória
é o trampolim para o seguinte.
Então, mãos à
obra, com o cuidado em não se dispersar pelo caminho. Um pouquinho a cada
dia. Em silêncio, se for necessário. De qualquer maneira, no final,
haverá alguém disposto a acreditar que demos um salto.
| |
![]() | Angelina
Garcia é professora de português e Mestre
em Artes Cênicas Mais informações - clique aqui |