| Todos nós sentimos a necessidade
de estar no controle dos eventos e situações da nossa vida,
principalmente os que afetam nosso bem-estar, nossos objetivos e nossos
ideais. Durante todo nosso curso de vida, da infância até
a velhice estão presentes o exercício da autonomia, a condição
de dependência e independência.
Muitas vezes, no imaginário popular estas condições
são tratadas como sendo antagônicas (que se contrapõe),
entretanto, na literatura mais recente, esses conceitos são considerados
como referentes a uma dinâmica que se exprime de várias formas
nas diversas fases da vida.
| "Em instituições,
por exemplo, como os asilos e casas de repouso, muitas vezes a dependência
física é confundida com dependência para a tomada
de decisão, o que dá origem à perda da individualidade" |
Autonomia significa o exercício
do autogoverno, auto-regulação, livre-escolha, privacidade,
liberdade individual e independência moral. Refere-se à
liberdade de experenciar os eventos de vida com harmonia
com os próprios sentimentos e necessidades. |
Independência é a capacidade funcional, isto é a
capacidade de realizar as atividades básicas do nosso dia-a-dia
(alimentar-se, fazer a higiene pessoal, ir ao toalete, tomar banho, vestir-se,
se locomover, etc...) e atividades instrumentais da vida diária
(fazer compras, pagar as contas, usar meio de transporte, preparar uma
refeição, cozinhar, cuidar da própria saúde,
manter sua própria segurança) a ponto de sobreviver sem
ajuda para o autocuidado e o manejo instrumental da vida.
Déficits em capacidades funcionais refletem-se em dependência
funcional. A independência não é condição
necessária para a autonomia, embora seja uma condição
freqüentemente presente em pessoas capazes de decidirem por si. A
independência está associada à agência, à
autonomia, à autoconfiança e ao autocontrole. A dependência
significa a incapacidade da pessoa funcionar satisfatoriamente sem ajuda,
quer por dificuldades físicas e/ou mentais.
Autonomia, dependência e independência
Assim, autonomia, dependência e independência são condições
que se entrelaçam. São condições presentes
em nosso curso de vida com diferentes formas de manifestação
pelas pessoas e por uma sociedade. É possível que uma pessoa
seja dependente mas sem perder sua autonomia.
Na medida que amadurecemos nos libertamos das relações e
necessidades de apoio, segurança e assistência dos outros.
A natureza da dependência e da autonomia se transforma ao longo
da vida e o equilíbrio dessas duas condições vai
se alterando. A busca de identidade e individualidade propicia o desenvolvimento
da autonomia. A autoconfiança e senso de agenciar a própria
vida nos dão a certeza de que não estamos sozinhos.
Existem três dimensões que influenciam a dinâmica autonomia,
dependência e independência ao longo da vida, são as
dimensões biológicas, sociais e psicológicas. Ou
seja, o crescimento e mudanças biológicas, as exigências
sociais e antecedentes psicológicos assumem diferentes pesos em
diferentes fases na vida de todos nós. Assim, quando bebê,
e na infância, somos mais dependentes devido às exigências
biológicas, devido às limitações físicas
e mentais naturais e na vida adulta nossa autonomia e independência
é afetada mais pelas exigências sociais e por metas individuais.
Por isso, ser dependente no contexto da vida adulta tem um sentido bem
diferente da dependência na infância.
Na vida adulta e na velhice, a adequada fusão da dependência
e independência, depende do senso de agência e autonomia.
É importante lembrar que existe uma relação entre
as competências da pessoa e as exigências de seu ambiente
e da sociedade em que se vive.
Muitas vezes a dependência física é confundida com
perda de autonomia, por isso vemos freqüentemente que o senso comum
considera que com o envelhecimento os idosos são vulneráveis
a perder o controle de suas vidas. O ambiente social tem uma grande responsabilidade
sobre as condições de autonomia, dependência e independência
do indivíduo idoso.
O fato de outras pessoas no ambiente ajudar nas necessidades biológicas
de uma pessoa não significa que ela não possa exercer seu
papel efetivo em seu próprio desenvolvimento, ou seja, ter um domínio
de seu contexto social. Em instituições, por exemplo, como
os asilos e casas de repouso, muitas vezes a dependência física
é confundida com dependência para a tomada de decisão,
o que dá origem à perda da individualidade.
Superproteção e dependência
Ambientes superprotetores e de baixa exigência também geram
dependência, indicação para que os cuidadores familiares
e profissionais não pensem o cuidado como fazer pelo idoso, mas
como dar-lhe a ajuda necessária para que se comporte na medida
de suas possibilidades. A perda de domínio sobre a própria
vida e sobre o próprio ambiente pode ter conseqüências
negativas significativas para a saúde física e mental em
todas as idades.
A autonomia é uma necessidade básica do ser humano e essencial
ao bem-estar subjetivo dos indivíduos. Torna-se muito importante
selecionar eventos na vida que podemos exercer de forma plena e satisfatória
nossa autonomia e nelas investir. Aceitar a diminuição do
desenvolvimento físico ou mental sem reagir, como aspecto inevitável
do declínio biológico pode impedir a pessoa de explorar
suas capacidades. Por outro lado, o fato de os idosos também descobrir
que podem controlar o ambiente pela dependência também pode
ter um efeito benéfico.
O grande exercício da vida é o aprendizado em diferenciar
quando o controle da própria vida é compensatória
e quando não é. E é assim que todos agem quando pedem
forças para modificar aquilo que pode ser modificado, paciência
para aceitar aquilo que não pode ser modificado e sabedoria para
perceber a diferença, como aborda a prece da Serenidade.
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