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Está muito difundida
entre nós a idéia de que a felicidade depende do sucesso pessoal.
Este pensamento contém um equívoco frustrante, pois cria obstáculos
quase intransponíveis para nosso convívio com o sentimento de
sermos felizes. Uma das causas mais freqüentes desta vinculação
entre realização e felicidade consiste na formulação
que os pais inadvertidamente costumam fazer para seus filhos condicionando seu
amor por eles ao comportamento deles. É comum ouvirmos os pais dizendo
para os filhos que só gostam deles quando eles fazem tal ou qual coisa
ou tiram notas altas no colégio, ou afirmando: "não gosto
de você quando age desta forma". Para a criança, o amor dos
pais é o valor mais próximo de felicidade, o que a leva a estabelecer
uma associação entre conseguir resultados e ser feliz.
Quando associamos realização pessoal
com felicidade, colocamos esta no futuro, pois o sucesso, ou nossas metas e
objetivos ficam visualizados em nosso porvir. Uma vez que seja construída
alguma formulação como: "eu serei feliz quando...",
ou "no dia em que eu conseguir (...) então serei feliz", estamos
pondo nossa felicidade fora do alcance do momento presente. Estaremos quase
que proibidos de nos sentirmos felizes enquanto não obtivermos o sucesso
proposto. Isto funciona como uma espécie de castigo temporário
que nos constrange, determinando que não poderemos saborear o sentimento
de felicidade enquanto não cumprirmos determinada meta ou compromisso
assumido com nós mesmos.
O problema é que o amanhã nunca chega
e a realização, posta no futuro, sempre depende de uma nova conquista,
que está sempre mais adiante, como o horizonte, que nunca podemos alcançar
ou, para usar um exemplo mais corriqueiro, a cenoura que se amarra na frente
do focinho do burro para induzi-lo a caminhar, sem jamais alcançá-la.
Nossa felicidade, da mesma forma estará sempre no dia seguinte, no próximo
resultado, ou quando finalmente estivermos morrendo. Pensar a felicidade como
uma espécie de recompensa por sucessos obtidos desloca-a do nosso presente,
do aqui-e-agora da existência e a transforma num conceito teórico
e abstrato.
Também não podemos deixar que as
dores e tristezas que fazem parte inevitável da vida de todos nós
obstruam a capacidade de ser feliz. Muitas vezes durante a vida a felicidade
convive com momentos de sofrimento. Aliás, é certo que quanto
mais pessoas amamos, mais momentos de solidária dor atravessaremos, mas
isto faz parte do processo de viver plenamente.
Na verdade, a felicidade só existe no momento
presente: no ar que nos enche os pulmões e oxigena nosso organismo, na
comida que nos alimenta, na água fresca bebida em um momento de sede,
na contemplação das maravilhas da natureza de nosso exuberante
planeta, no som e no vôo dos pássaros, no calor do sol ou no frescor
da chuva, na mão que nos acaricia ou na pele que acariciamos, no perturbador
encontro com a pessoa amada, que faz o coração pulsar forte e
cheio de vida.
Quando nos permitimos viver cada momento de nossas
vidas atentos à milagrosa benção que nos foi concedida
de podermos estar vivos, conscientes e, além disso, capazes para nos
envolver amorosamente com as outras pessoas, então a felicidade estará
sempre conosco, independente dos sucessos. E a alegria de eventuais realizações
será apenas um ingrediente a mais de uma vida plena e feliz.
Luiz Alberto
Py é médico psiquiatra e psicanalista.
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