Aprender duas ou mais línguas
pode proteger de sintomas de demências na velhice
| "Estudo sobre o efeito do bilingüismo
ao longo da vida, realizado na Universidade de Toronto, (Canadá
-2007), publicado na Neuropsychology, constatou que as pessoas bilíngües
apresentaram melhores desempenhos em testes mentais, mesmo tendo as
mesmas queixas cognitivas. Esses resultados sugerem que pessoas bilíngües
têm mais reservas cognitivas, isso inclui um aumento de conexões
neurais, aumento do vocabulário e uma maior reorganização
funcional da atividade cerebral, sendo um fator protetor de sintomas
de demência" |
Com o crescimento da população de idosos
no mundo durante a última década, houve também
um crescimento significativo de doenças relacionadas à
velhice, especialmente as condições degenerativas como
a demência. Uma doença neurológica que se caracteriza
pela deterioração progressiva em domínios cognitivos,
tais como memória, cálculo, raciocínio abstrato,
linguagem, coordenação motora, orientação
temporal e espacial, com gravidade suficiente para interferir significativamente
nas atividades da vida diária. A grande questão no mundo
atual sobre este assunto é: |
Há algo que pode ser feito para prevenir futuros casos
de demência?
Estratégias de prevenção da demência significa
de forma realista retardar o início da doença. As perspectivas
para identificar de forma precoce a doença para se prevenir, retardar
ou tratar ainda pertencem ao futuro. Entretanto, o futuro da prevenção
da demência começa a partir do momento em que todo profissional
de saúde passa a introduzir o manejo da promoção
de saúde para os pacientes. Para tanto, muitas áreas podem
dar sua contribuição. Já sabemos que os fatores sociais,
educacionais fazem a diferença no aparecimento de déficits
cognitivos na velhice. Estudos mostram que é importante a atividade
mental complexa, o engajamento com o lazer, a prática da leitura,
de exercícios físicos e manter uma boa dieta para alcançar
uma velhice bem-sucedida e se proteger de fatores de riscos cognitivos
na velhice.
Dessa forma, a atividade mental mais elaborada que temos e que nos permite
fazer grandes associações e modificações é
a linguagem. Que contribui de forma decisiva na estimulação
mental ao longo da vida. A linguagem é uma importante função
sóciocognitiva, uma atividade constitutiva do pensamento que nos
possibilita interagir, apreender a realidade, entender o mundo, decodificar
símbolos, compartilhar sentimentos e desejos, fazer associações
lógicas, interpretar, entender, inferir um significado. A linguagem
é a expressão do ser. Dessa forma, o domínio da linguagem
causa efeitos transformadores sobre a mente humana.
Quando crianças, interagimos com outras pessoas intersubjetivamente
e adotamos convenções, regras, normas comunicativas da comunidade
lingüística onde estamos inseridos. Isso contribui para a
formação de novas representações mentais,
para a construção de conhecimentos.
Do ponto de vista neurofisiológico, a linguagem assim como as
outras capacidades cognitivas (memória, raciocínio lógico-matemático,
capacidades motora e de percepção) possuem regiões
importantes para o seu processamento, o hemisfério esquerdo com
a região de Broca relacionada com a capacidade de se expressar
(fala) e a área de Wernicke relacionada com a capacidade de entender,
a compreensão. Porém, isso não significa que sempre
a linguagem será processada somente no lado esquerdo do cérebro.
O hemisfério cerebral esquerdo classicamente está relacionado
com a linguagem e a atividade gestual, e o hemisfério cerebral
direito com as capacidades espaciais e construtivas. O hemisfério
direito também participa do processo de comunicação
verbal, especialmente na produção das diferentes entonações
melódicas da fala, no reconhecimento e na expressão dos
aspectos emocionais da fala e da escrita, e na utilização
da linguagem nas diversas situações do dia-a-dia. Essa variedade
funcional para a linguagem também ocorre no plano subcortical (substância
branca e os glânglios basais), ou seja, nas regiões mais
profundas do cérebro. O cérebro é um conjunto dinâmico
de células que continuamente recebe informações de
todas as modalidades, elabora-as e as compreende, e toma decisões.
A identificação do processamento da linguagem em diversos
níveis e as modificações nas redes neurais levou
os pesquisadores a estenderem as investigações para os casos
de pessoas que falam mais de uma língua. É que a aquisição
da linguagem oral e posteriormente a aprendizagem da linguagem escrita
introduz no sistema nervoso em desenvolvimento estratégias organizativas
específicas.
Aprendizado de outra língua na idade escolar
Aprender a falar e a escrever uma outra língua na idade escolar
pode ajudar a manter a mente mais ativa ao longo da vida. Por isso, a
necessidade de estimular cada vez mais cedo o aprendizado de uma outra
língua, de preferência no período escolar. É
que o aprendizado no período de aquisição da língua,
devido ao processo de maturidade do sistema nervoso que se dá por
volta dos 6-7 anos de idade fica mais fácil. Por isso é
que aprender uma outra língua na vida adulta já não
é tarefa tão fácil.
Bilíngües
Estudos realizados por Bialystok publicado na revista Experimental
Psychology em 2006, com crianças e pessoas idosas bilíngües
revelam que essas pessoas desenvolvem habilidades de atenção
melhores que os sujeitos que aprenderam uma só língua. Pessoas
bilíngües apresentam melhores desempenhos numa variedade de
tarefas que envolvem atenção e memória.
Com relação aos efeitos do envelhecimento e o aparecimento
de sintomas de demência em pessoas idosas com grande atividade lingüística,
acredita-se que as pessoas que possuem mais reservas cognitivas (mais
conhecimento, realizaram mais associações com as redes neurais
envolvendo a linguagem oral e escrita) têm mias proteção
funcional no caso de aparecimento de sintomas de demência, entre
elas as falhas de memória.
Com relação à linguagem escrita, o pesquisador português
Alexandre Castro Caldas explica que o domínio da ortografia, adquirido
por meio da aprendizagem na idade escolar, causa modificações
no cérebro, nas regiões onde acontece o processamento visual
e em regiões responsáveis pela função auditiva
(córtex temporal) o que facilita o ser humano a lidar com a linguagem
e causa melhora nos mecanismos de processamento da informação.
Efeitos do bilingüismo
Um estudo que analisou o efeito do bilingüismo ao longo da vida na
manutenção das funções cognitivas e na proteção
contra sintomas de demência em 228 pessoas idosas, sendo 51% bilíngües,
na Universidade de Toronto, no Canadá em 2007, publicado na Neuropsychology,
constatou que as pessoas bilíngües apresentaram melhores desempenhos
em testes mentais, mesmo tendo as mesmas queixas cognitivas. Esses resultados
sugerem que pessoas bilíngües têm mais reservas cognitivas,
isso inclui um aumento de conexões neurais, aumento do vocabulário
e uma maior reorganização funcional da atividade cerebral,
sendo um fator protetor de sintomas de demência.
Na verdade o próprio processo de escolarização, aquisição
da leitura e da escrita, o uso continuo da linguagem no cotidiano, já
estimula outras competências. E estimular a alfabetização,
a cultura, os valores artísticos e a manutenção da
mente ativa ao longo da vida torna-se fundamental. Aprender outra língua
além de uma necessidade pode ser muito prazeroso e trazer benefícios
positivos.
O efeito do envelhecimento sobre as habilidades lingüísticas
tem sido muito pouco investigado com mais detalhes na literatura gerontológica,
principalmente tratando-se de sujeitos bilíngües e poliglotas.
Os estudos do funcionamento da linguagem no contexto do envelhecimento
patológico, sobretudo nos quadros demenciais ainda se apresentam
como um desafio à Neuropsicologia e Neurolinguística, principalmente
na tentativa de estabelecer a relação entre linguagem e
cognição.A linguagem não é um simples código,
ela se caracteriza por um sistema simbólico de grande plasticidade
com a qual podemos dizer de forma criativa as coisas que conhecemos no
mundo.
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