| Evidente que
é de extrema vantagem para um jogador de pôquer ser um bom psicólogo,
o que lhe dá melhor possibilidade de perceber quando outro está
blefando. Acontece que as pessoas não blefam apenas no pôquer. Blefam
também na vida. E com uma assustadora freqüência, que só
os bons psicólogos são capazes de avaliar, sendo capazes de, quando
desconfiam do blefe, pagar para ver. Mais: algumas pessoas blefam até para
elas mesmas, só descobrindo que blefavam quando se lhes pede que mostrem
seu jogo. Ana Maria, a quem namorei, era assim. Blefava até para ela mesma.
É a protagonista do episódio que passo a relatar.
Antes
de fazê-lo, quero fazer algumas considerações sobre valores.
Em minha opinião, todos têm o direito de ter os seus valores, sejam
quais for. Um tribunal pode e deve condenar e aplicar todas as sanções
cabíveis a quem infringe as leis por esse tribunal representadas, mas não
tem direito, em adição a fazê-lo, de enxovalhar e denegrir
a pessoa do infrator.
Há uma variação infinita de
visões axiológicas relativamente às relações
amoroso-sexuais: indo da obrigação islâmica de segregação
da mulher até do simples olhar de outros homens à oferta feita por
um esquimó - não sei se usam isso ainda - de que o forasteiro que
o visita sirva-se sexualmente de sua mulher, indo da castidade à promiscuidade,
indo da monogamia à poligamia, da homossexualidade à heterossexualidade
ou bissexualidade etc., etc.
Eu, particularmente, defendo que, pelo menos
a partir do momento que uma sociedade considera um sujeito apto a cumprir deveres
como, por exemplo, votar e a ter direitos como, por exemplo, dirigir automóveis,
ninguém mais deveria se intrometer na forma e direção que
ele dá a sua vida amorosa e sexual, entendido que ele o faça, não
por forçar ou ser forçado, mas montado sobre seu arbítrio
e respeitando o arbítrio dos demais.
A mim, por exemplo, não
interessam "fidelidades fiscalizadas". Soa-me insólito ouvir
um homem dizendo: "Minha mulher, me trair? É ruim! Eu tô ali,
em cima! Ela ta controladinha! Não dou mole, não!" Para mim,
ele está passando a mensagem de que se sente um cornudo potencial, que
só não tem tal potencialidade concretizada mediante muito esforço.
À parte isso, acho impossível manter uma relação satisfatória
e profunda com alguém, se mentimos para essa pessoa. Se a mulher que está
comigo precisar saber alguma coisa sobre mim, o mais simples é que pergunte
a mim mesmo. Ou vou dizer-lhe a verdade ou, se estiver num momento de estranhamento
com ela, falar algo como: "Lamento, mas não me estou sentindo suficientemente
bem com você para lhe responder a essa pergunta". Aí, sim, cabe,
se ela quiser, ir procurar informações alhures.
Os valores
de Ana Maria sobre amor e sexo não eram exatamente esses e, além
de ser uma blefadora contumaz, parece que tinha menos disposição
do que eu para agir de acordo com os valores que dizia esposar. O diálogo
a seguir, ocorrido quando voltei de um almoço com minha anterior companheira
(sobre o que, evidentemente, não menti) mostra bem isso:
ANA MARIA
(a quem, aliás, na época, eu muito amava): - Eu não sou mulher
de ficar namorando homem que fica indo se encontrar para almoçar com ex-mulher!
EU: - Ah, sim? E você já decidiu quem você vai namorar
agora? Calou-se, saiu da sala e voltou, algum pouco tempo depois, perguntando
se eu queria tomar um cafezinho. Antes de blefar, é interessante saber
com quem. Mas, como?, se, às vezes, nem o blefador sabe que está
blefando?
|