| "Um dos
grandes fatores promotores dos links que levam as famílias
a reencarnarem são justamente as emoções e sentimentos
compartilhados" |
Se existe uma área da existência
humana que está no topo do ranking das causadoras de dor e
frustração, essa é certamente a da família
e suas inter-relações. |
A imagem que me veio a mente nesse momento em que escrevo (maio de 2013),
é a da mãe e da filha do sequestrador de Ohio (EUA), que
manteve três moças cativas em seu porão por dez anos
sujeitando-as a estupros seguidos e maus tratos. Elas que estão
nas pontas desse painel de dor e revolta expressam bem a perplexidade
"familiar". A mãe se pergunta: Como eu pude ter gerado
um monstro desse quilate? A filha: Como eu pude ter sido gerada por esse
monstro a quem chamei de pai?
Na base dessa pirâmide de questões aparentemente sem respostas
estão fatores culturais, psicológicos e espirituais.
Entre os fatores culturais acredito que o mais relevante é a expectativa
pelo desempenho dos "papéis" no script familiar de cada
cultura. A grande maioria das pessoas busca se enquadrar em seu papel
familiar, aquele desempenho que a sua sociedade e seus valores espera
dele ou dela como pai, mãe, irmão, filho e etc. Embora se
mantenham mais ou menos estáveis desde os primórdios, esses
papéis vão se alterando, não só ao longo do
tempo, como também de sociedade para sociedade.
Há registros de que em épocas pré-históricas,
quem comia primeiro era o pai, em seguida os filhos e se sobrasse alguma
coisa a mãe podia se servir. Cabia à mãe o esforço
físico de carregar a "casa" nas costas durante as mudanças
da família. Em outras sociedades os idosos da tribo ou da família
incapazes de produzir, reproduzir ou ir à guerra, eram abandonados
na selva ou no deserto para morrer. Mas no geral, o que se espera da mãe
é que cuide e proteja sua prole, do pai que mantenha seguro o espaço
e os membros da família e dos filhos que cresçam, obedeçam
e mais tarde cuidem dos pais idosos.
Os papéis familiares têm a função de formatar
a personalidade dos indivíduos, para justamente preservar a continuidade
da família e o equilíbrio dos poderes internos. Mas por
outro lado, servem como camisa de força limitando a manifestação
individual. Porém como disse Freud, a história da civilização
é a história da repressão.
Quando um indivíduo resolve, por algum motivo (e podem ser tantos
que seria impossível listá-los) romper com o seu papel no
script familiar, vamos observar o desmoronamento dessa peça. Uma
mãe que se recusa a cuidar do filho pequeno, ou que manifesta desejo
sexual sobre ele; um pai que rouba recursos de sua família para
manter seu vício, ou ao invés de proteger, ameaça
e coloca em risco a integridade de seus filhos; filhos que maltratam ou
matam seus pais, irmãos e etc. Isso é uma violação
grave dos papéis que a sociedade estipulou para os membros da família.
Essa quebra de expectativas, frustra e gera dor nos demais membros e na
sociedade em geral. Mas quais seriam as razões dessa "quebra
de contrato" social?
A meu ver existe um fator nuclear que precisamos voltar ao passado para
entender. Esse fator é de natureza "espiritual" e chamo
de "Carma" de família. Obviamente se você não
acredita que vivemos outras existências e que projetamos para frente
programas assimilados em vidas anteriores, sugiro parar a leitura por
aqui, porque não teremos um código comum.
Mas se está lendo essa linha presumo que no mínimo está
curioso (a) para saber o que vou falar.
Um dos grandes fatores promotores dos links que levam as famílias
a reencarnarem são justamente as emoções e sentimentos
compartilhados.
Familiares estão presos numa teia de aranha de fios tecidos pelas
emoções e sentimentos gerados pela proximidade, e naturalmente
pelo desempenho que seus papéis irá produzir ao longo do
tempo, bem como de um objetivo comum ao grupo. Assim, o amor de mãe
se permanecer estável, pode ser forte o bastante para "trazer"
novamente os filhos numa próxima vida.
Esse, porém, é um quebra-cabeças altamente intrincado
onde fatores como grau de evolução pessoal, apegos, ódios,
culpas, acidentes... podem e vão interagir para tornar essa equação
num jogo de altíssima complexidade. Por exemplo, se uma mãe
teve uma velhice longa e debilitante e acabou sendo cuidada por uma filha
por muitos anos, essa relação numa próxima vida pode
vir invertida.
O peso da cultura também define muitas relações,
por exemplo: uma mulher jovem que foi praticamente obrigada a se casar
com um homem mais velho e autoritário, encontra um jovem romântico
e perfeitamente encaixado em suas fantasias românticas e escapistas
e desenvolve por ele um grande amor platônico. Esse amor, pelos
costumes da época é proibidíssimo, e mais ainda se
houver um comprometimento com dogmas religiosos. O que pode acontecer?
Numa vida seguinte, essa mulher pode "trazer" esse jovem como
seu filho (o amor vai continuar sendo platônico), o marido forte
e mais velho "traz" a mulher (para ela foi frustarnte a relação,
mas para ele não), e aí se cria um triângulo amoroso.
Vamos ver o pai desde cedo demonstrando uma animosidade sem explicação
pelo filho, a mãe devotando toda a sua atenção para
o filho, redirecionando seu afeto e até a sua sexualidade (que
agora está sublimada pelo manto do amor maternal), deixando o marido
frustrado, sentindo-se abandonado e alimentando seu ressentimento pelo
filho/rival.
Claro que estou simplificando relações complexas, mas basicamente
são esses os componentes do coquetel familiar.
Existe o outro lado. Famílias desagregadas, pela miséria,
pela guerra, por desastres naturais, onde a troca contínua de sentimentos
e afetos não foi possível, tendem a não gerar vínculos
suficientemente fortes para promover a reencarnação daquele
núcleo. O que vai acontecer com essas pessoas então? Vão
reencarnar de forma aleatória, talvez buscando justamente casais
sem história - com esses "buracos"- onde voltem a ser
estranhos, e provoquem relações fragmentadas, ressentimentos
e distância. E continua assim até que um indivíduo
mude a história, estabelecendo vínculos pelo amor e comprometimento.
Na Idade Média, era muito comum que famílias ricas e detentoras
de poder, por esperteza e ignorância se fizessem "casar"
entre si - irmãos com irmãs, pai com filhas, para manter
a "pureza" da linhagem e os bens.
Isso como todos sabem gerou um empobrecimento genético, que é
apenas a face física do que acontece quando mágoas, ódios,
frustrações, paixões, acertos de contas, são
requentados, requentados e requentados, sem possibilidade de renovação,
sem oxigênio novo para melhorar a "mistura".
Quando observo "carmas" muito pesados de família, com
graves conflitos internos, imagino logo se tratar de famílias que
vêm reencenando as mesmas peças, com os mesmos atores, e
os mesmos scripts há muito tempo. Isso raramente é "saudável",
porém essas companhias de "atores" se mantêm unidas
pelas emoções fortes, a volúpia do poder, as intrigas,
invejas, as paixões mantidas nas sombras por serem "proibidas"
(mas mesmo reprimidas não estão suprimidas), os assuntos
(graves, ou considerados graves) não resolvidos em vida e a sensação
enganosa de serem especiais: "nós contra o mundo!"
O imenso desafio para pessoas esclarecidas e desejosas de dar um passo
qualitativo adiante em relação ao equilíbrio é
justamente esse: "Amar sem apego!"
E quando digo amar, foi apenas uma questão de preferência
pelas palavras, poderia ter dito: odiar sem apego, invejar sem apego,
preocupar-se sem apego e etc. O truque é esse, desapegar-se, fazer
diminuir o peso dos papéis: de pai, de mãe, de irmã,
etc e aumentar o peso do indivíduo na relação familiar.
O pai pode e deve invadir o papel da mãe, a mãe pode e deve
invadir o papel do pai, mas antes de tudo, precisamos agir como seres
humanos éticos, com apenas uma ética que seja igual para
a família e para a sociedade.
Nesse fim de semana ouvi na TV o depoimento de uma mãe cujo filho
atacou fisicamente a professora e foi expulso do colégio, que declarou:
"Meu filho estava sendo perseguido, por ela, e só se defendeu";
mesmo diante das imagens e depoimentos. O que essa mãe está
fazendo? Está encenando um (falso) papel maternal, está
fazendo como os aristocratas medievais casando entre si, achando que isso
preservaria a linhagem. Ela, sem saber está se defendendo da falência
de seu papel. Ela não entedeu que os pais, assim como os governos,
não podem tudo, não sabem tudo e não conseguem ter
controle absoluto sobre aquele indivíduo, que tem a sua própria
história (e que em 99% dos casos todos desconhecemos).
Se a mãe do monstro de Ohio saísse em sua defesa, achando
que esse é o papel da "mãe", ou a sua filha o
fizesse achando a mesma coisa, aí sim elas estariam sendo vencidas
pela tirania dos papéis e fazendo o jogo do "inimigo".
Não se pode evitar de parir monstros ou de ser filhos e filhas
deles, mas podemos elevar nossas próprias vidas, elevar nossa consciência,
para que a distância que nos separa desses indivíduos estragados,
seja estelar - e assim ir melhorando aos pouquinhos a família e
a humanidade.
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