|
| "Práticas de
leitura ajudam a manter a funcionalidade intelectual ao longo da vida,
mantendo a mente ativa e prevenindo déficits de memória
e declínios das funções cognitivas - capacidade
de adquirir e reter conhecimento" |
Imagina-se que as pessoas mais velhas passem mais
tempo lendo do que as pessoas mais jovens, pelo fato da leitura ser
uma atividade que não exige tanto esforço físico
e a maior parte das pessoas mais velhas ser aposentada e com tempo
mais livre para sua prática. Mas não é bem assim.
Geralmente as pessoas mais velhas depois de se aposentarem não
leem mais. |
Os adultos mais velhos que leem muito são os que geralmente foram
quase leitores vorazes quando jovens. Se considerarmos apenas os adultos
mais velhos, que são leitores ativos, então existem certas
diferenças intrigantes entre eles e seus pares mais jovens.
Os leitores mais velhos ativos passam mais tempo lendo, mas significativamente
a maior parte do tempo é reservada à leitura de jornais
e revistas. Isso significa que a prática de leitura dos mais velhos
não é tão intensa a ponto de desenvolver e manter
a habilidade da leitura, porque o conteúdo dos jornais pode ser
fácil comparado às exigências de um romance de peso,
por exemplo. Da mesma maneira que a falta de treino intenso reduz o desempenho
de um atleta, a falta de leitura de textos, livros de ficção,
romance, biografias, documentários, pode provocar um declínio
nas habilidades de leitura. Não se sabe por que ocorre essa mudança
nos hábitos de leitura ao longo da vida.
Muitas pessoas quando chegam à velhice sentem que já leram
quase toda ficção que gostariam de ler e não querem
reler obras das quais já conhecem os enredos. Os adultos jovens
talvez leiam obras mais “pesadas” para aperfeiçoar-se.
Os mais velhos já não têm esse impulso competitivo.
Seja qual for a razão, eles escolhem leituras fáceis, tipo
periódicos, jornais ou ficção leve na maior parte
do tempo. Além disso, eles parecem se divertir tanto com suas leituras
quanto os adultos mais jovens.
A leitura é uma “atividade interativa complexa de produção
de sentidos”, ou seja, quando lemos um texto estamos captando ideias
do autor, interagindo com ele, mobilizando saberes. A capacidade do uso
da linguagem, que diferencia o homem de outros animais, é uma admirável
capacidade de formar ideias no cérebro dos demais. Portanto, a
leitura é uma atividade na qual se levam em conta as experiências
e os conhecimentos do leitor, exigindo dele um conhecimento dos sistemas
da linguagem (conhecimento gramatical), o conhecimento de mundo ou enciclopédico
(vocabulário, conceitos, representações) e o conhecimento
sociointeracional (conhecimento sobre as ações verbais,
formas de inter-ação através da linguagem).
Tais conhecimentos envolve, também, o saber sobre as práticas
peculiares ao meio social e histórico em que vivem os leitores
para que possa existir o devido reconhecimento do que está sendo
lido.
Quando lemos um texto não somos simplesmente um decodificador de
textos, um receptor passivo, e sim sujeitos com conhecimentos em processo
de interação com o conteúdo que gostamos ou que nos
interessamos em ler. Dessa forma a leitura é o processo no qual
o leitor realiza um trabalho ativo de compreensão e interpretação
do texto, a partir de seus objetivos, de seu conhecimento pelo assunto,
sobre o autor e de tudo que sabe sobre a linguagem. É uma atividade
que implica estratégias de seleção, antecipação,
inferência e verificação, para haver a devida compreensão.
As práticas de leitura ajudam a manter a funcionalidade intelectual
ao longo da vida, mantendo a mente ativa e prevenindo de déficits
de memória e declínios das funções cognitivas.
Estilo de vida e letramento
As práticas de leitura estão relacionadas ao estilo de vida
das pessoas e ao seu grau de letramento.
Letramento se define por um “conjunto de práticas de comunicação
social” relacionadas com o uso de materiais escritos, que envolvem
ações de natureza não só física, mental
e linguístico/discursiva como também social e político/ideológica.
Letramento não é o mesmo que alfabetização
ou nível educacional, ou seja, não corresponde ao aprendizado
do código escrito. O letramento se refere ao contexto e práticas
sócioculturais determinadas. Tem a ver mais com o conhecimento
e os usos que o sujeito tem da língua e realiza com ela, do que
com a formalização do aprendizado do código escrito
que a pessoa apresenta. O letramento é a habilidade de se colocar
em prática todos os comportamentos necessários para desempenhar
adequadamente todas as demandas de leitura.
A deficiência visual também é um fator que prejudica
a manutenção dos hábitos de leitura na velhice. A
visão da maioria das pessoas mais velhas piora e a acuidade visual
diminui. Estudos estimam que 23% das pessoas mais velhas são incapazes
de ler textos em impressão normal. Uma solução para
isso é imprimir livros com caracteres maiores. A impressão
maior facilita a leitura para as pessoas com dificuldade visual.
O importante é que se mantenham as habilidades de leitura ao
longo da vida, a prática da leitura aumenta a *densidade sináptica
no cérebro, aumentando o número de conexões neuronais.
E a ação reflexiva dos indivíduos sobre a língua,
além de possibilitar o bom funcionamento intelectual, auxilia na
manutenção das competências na velhice devido ao enriquecimento
de estratégias sóciocognitivas acumuladas ao longo do curso
de vida, na qual se inclui a leitura e a escrita.
*Densidade sináptica: refere-se ao número de neurônios
e consequentemente maior comunicação entre as células
nervosas.
Artigos relacionados - clique no título
>>> Forma
de viver influencia desempenho de memória ao longo da vida
>>> Entenda
o funcionamento do cérebro e a ação do tempo sobre
o sistema nervoso
>>> Exercícios
físicos reduzem riscos de Alzheimer
>>> Idosos
ativos fisicamente executam tarefas de atenção melhor que
sedentários
|