| "... podemos sugerir que
o exercício físico realizado na adolescência pode
resultar no desenvolvimento de um circuito neural mais complexo capaz
de tolerar insultos no sistema nervoso nas fases mais tardias da vida" |
Estudos recentes têm enfatizado
o papel do exercício físico na prevenção
e regeneração nos processos de envelhecimento. |
No texto anterior (clique
aqui), foi comentado que o cérebro que envelhece é capaz
de se utilizar de mecanismos adaptativos consideráveis para evitar
uma maior redução cognitiva e neurodegeneração,
provavelmente por mecanismos de proteção e de restauração
neural.
Os fatores que previnem uma redução na capacidade cognitiva
pelo envelhecimento têm sido denominados conjuntamente de reserva
neural.
Estudos prelimilares mostram importante relação entre a
atividade física praticada na infância/adolescência
e a cognição desses mesmos indivíduos na idade avançada
(para mais detalhes, clique
aqui).
Nesse sentido, um grupo de pesquisadores do Departamento de Fisiologia
da Universidade Federal de São Paulo publicou um trabalho
sugerindo esse efeito (1). Gomes da Silva e colaboradores (1) verificaram
se o exercício físico realizado durante o desenvolvimento
cerebral pós-natal em ratos poderia modificar a suscetibilidade
a um dano cerebral em fases mais tardias da vida.
Como abordado textos anteriores (clique
aqui), estudos clínicos demonstraram um efeito positivo da
atividade física sobre a frequência e gravidade de crises
em pessoas com epilepsia. Informações de estudos em animais
também indicam que o exercício pode modular a vulnerabilidade
neuronal a insultos epilépticos (2), isto é, um programa
de exercício físico reduz a susceptibilidade a crises em
modelos animais de epilepsia.
Nesse estudo (1), animais foram submetidos a um programa de exercício
físico diário (corrida em esteira rolante) entre o período
pós-natal de 21 a 60 dias, isto é, da adolescência
ao início da fase adulta. Após este período, o treinamento
físico foi interrompido e os animais permaneceram sem atividade
física programada por mais 90 dias. Este "período sem
estímulo" foi usado para observar a influência do exercício
físico precoce na susceptibilidade a crises induzidas pelo modelo
da pilocarpina em períodos tardios da vida do animal. Os resultados
mostraram que o programa de exercício realizado durante o período
pós-natal do desenvolvimento cerebral atrasou o início das
crises e diminuiu a intensidade de sintomas motores induzidos pela pilocarpina
em ratos de meia-idade.
Alguns fatores podem estar contribuindo para esse efeito. Estudos recentes
têm mostrado que o exercício físico pode modular a
maturação funcional do cérebro por processos de neuroplasticidade.
Por exemplo, estudos realizados pelo mesmo grupo de pesquisadores mostram
que um programa de exercício físico em ratos durante a adolescência
aumenta a plasticidade cerebral, assim como a aprendizagem e memória
(3,4). Outro achado importante desses estudos com animais é que
a atividade física nas fases iniciais do desenvolvimento aumenta
a capacidade de evocar memórias em períodos mais tardios
da vida. Esses dados estão de acordo com achados anteriores em
humanos que mostram uma correlação entre a prática
de atividade física no início da vida e funções
cerebrais ao longo da vida (5).
Nesse sentido, muitos estudos indicam que várias experiências
de vida, como atividades educacionais, ocupacionais ou de lazer podem
estar associadas com a reserva neural e são sugeridos em promover
a melhora da saúde mental (Rivière et al, 2001; Raine et
al, 2003; Arida et al., 2010).
Com base nessas observações, podemos sugerir que o exercício
físico realizado na adolescência pode resultar no desenvolvimento
de um circuito neural mais complexo capaz de tolerar insultos no sistema
nervoso nas fases mais tardias da vida. Futuros estudos sobre essa questão
são extremamente importantes para elucidar como o exercício
realizado no período inicial da vida pode exercer impacto positivo
sobre o cérebro, a longo prazo. Para isso, estudos longitudinais
com programas de exercícios físicos durante a infância/adolescência
são necessários. Essa informação pode ter
implicações mais amplas não somente para a prevenção,
mas também como uma estratégia para retardar o aparecimento
de distúrbios cerebrais, assim como retardar o envelhecimento normal
do cérebral.
1-Gomes da Silva S, de Almeida AA, Silva Araújo BH, Scorza FA,
Cavalheiro EA, Arida RM. Early physical exercise and seizure susceptibility
later in life. Int J Dev Neurosci. 2011;29(8):861-5.
2- Arida, R.M., Scorza, F.A., Gomes da Silva, S., Schachter, S.C., Cavalheiro,
E.A. The potential role of physical exercise in the treatment of epilepsy.
Epilepsy Behav. 2010;17 (4):432–5.
3- Gomes da Silva, S., Unsain, N., Mascó, D.H., Toscano-Silva,
M., de Amorim, H.A., Silva Araújo, B.H., Simões, P.S., da
Grac¸ a Naffah-Mazzacoratti, M., Mortara, R.A., Scorza, F.A., Cavalheiro,
E.A., Arida, R.M. Early exercise promotes positive hippocampal plasticity
and improves spatial memory in the adult life of rats. Hippocampus, 2012;22(2):347-58.
4- Gomes da Silva, S., Araujo, B.H., Cossa, A.C., Scorza, F.A., Cavalheiro,
E.A., da Grac¸ a Naffah-Mazzacoratti, M., Arida, R.M.,. Physical
exercise in adolescence changes CB1 cannabinoid receptor expression in
the rat brain. Neurochem. Int. 2010;57(5):492-6.
5- Dik, M., Deeg, D.J., Visser, M., Jonker, C.,. Early life physical
activity and cognition at old age. J. Clin. Exp. Neuropsychol. 2003;25:643–53.
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