Cérebro & Corpo
Entenda a relação entre cérebro, corpo, saúde e bem-estar
Exercício físico reduz dependência de morfina em ratos; indica estudo
por Ricardo Arida
"O exercício físico regular causa uma dependência positiva (de realizar mais exercício) e diminui a dependência para outras drogas que prejudicam a saúde" Pesquisas sugerem que o abuso de substâncias da familia dos opioides* causam alterações neurais de longo prazo no cérebro. Isso exacerba as anormalidades comportamentais associadas a deficits cognitivos, tolerância e dependência**.

O vício é um disturbio crônico que requer tratamento por longo prazo. Medicações têm sido desenvolvidas para ajudar nos benefícios de intervenções psicossociais para a prevenção da recidiva. Várias substâncias produzidas e liberadas no sistema nervoso central como a dopamina agem de certa forma, com propriedades de recompensa.

Como comentado em textos anteriores, a atividade física regular está associada à saúde cerebral. Estudos em animais e humanos mostram que o exercício regular ajuda na recuperação da lesão cerebral e melhora a função cognitiva. É importante lembrar que o exercício físico também influencia os sistemas dopaminérgicos, noradrenérgicos e serotoninérgicos, isto é, modula a síntese e liberação desses neurotransmissores do sistema nervoso central. Na prática, o exercício induz a liberação de certos neurotransmissores no cérebro que aliviam a dor física e mental.

Já está bem estabelecido que a atividade física aumenta a plasticidade cerebral, ou seja, gera novos neurônios, fortalece as conexões entre eles e aumenta a vascularização cerebral.

Achados recentes mostram que os níveis de endorfinas, principalmente as betaendorfinas estão elevadas durante o exercício. Particularmente, tem sido proposto (clique aqui) que a elevação dos níveis de betaendorfinas produz um estado de euforia levando a melhora de humor. Essas endorfinas tendem a minimizar o desconforto do exercício e estão associadas com a sensação de euforia (runner’s high).

Como foi realizado o estudo

Um estudo recente*** publicou dados interessantes a esse respeito, mostrando que o exercício físico pode também reduzir o comportamento da dependência da morfina em ratos.

Inicialmente, os ratos foram treinados a receber comida quando pressionavam uma barra. Em seguida, foi implantada cirurgicamente, uma cânula na veia jugular conectada a uma bomba de infusão que liberava morfina quando os animais pressionavam a barra. Um grupo de animais foi treinado em corrida em esteira rolante e submetido ao mesmo procedimento dos outros animais. Os resultados mostraram que os animais aprenderam a pressionar mais vezes a barra para aumentar a liberação de morfina. Entretanto, os animais que participaram de um programa de corrida em esteira, ativaram a barra significantemente menos vezes que os animais que não participaram do programa de exercício.

Os achados podem em parte, ser devido à liberação de endorfinas induzidas pelo exercício físico. Uma vez que o exercício físico ativa vários sistemas de neurotransmissores, como o sistema opioide (aumento da liberação de endorfinas), parece que a corrida levou os animais a diminuir a autoadministraçao de morfina.

Alguns pesquisadores têm sugerido que o efeito de recompensa do exercício é mediado pelo opioides endógenos - produzidos pelo nosso corpo. Isto é, o exercício deve ativar pelo menos alguns dos mesmos sistemas que são ativados pela morfina. Outros estudos ainda sugerem que após o treinamento físico ou exercício regular, a sensibilidade aos efeitos da morfina diminuem****.

Exercício físico pode ser um método de tratamento não farmacológico para reduzir certos vícios

Dessa forma, como comentado em textos anteriores, o exercício físico pode ser um método de tratamento não farmacológico para reduzir certos vícios. Ao mesmo tempo, a prática de exercício físico pode induzir certa dependência. Por exemplo, a melhora do humor em resposta ao exercício prolongado, em inglês, “runner’s high”, relatado por muitos atletas que participam de corrida de longa distância, tem sido previamente atribuído à liberação dos opioides endógenos como a betaendorfina.

Portanto, poderíamos pensar que o exercício físico regular causa uma dependência positiva (de realizar mais exercício) e diminui a dependência para outras drogas que prejudicam a saúde. Mais uma vez, pesquisas reforçam os efeitos positivos da atividade física para a saúde física e mental.

* Os opioides formam um grupo de substâncias naturais ou sintéticas derivadas do ópio que é obtido da papoula ou Papaver somniferum. Eles são usados principalmente na terapia da dor crônica e da dor aguda de alta intensidade. Produzem em doses elevadas euforia, estados hipnóticos e dependência e alguns (morfina e heroína) são usados como droga recreativa de abuso.

** Williams JT, Christie MJ, Manzoni O. Cellular and synaptic adaptations mediating opioid dependence, Physiol Rev 2001;81: 299-343.

*** Hosseini M, Alaei HA, Naderi A, Sharifi MR, Zahed R. Treadmill exercise reduces self-administration of morphine in male rats. Pathophysiology 2009; 16:3-7.

**** Smith MA, Yancey DL. Sensitivity to the effect of opioids in rats with free access to exercise wheels: mu-opioid tolerance and physical dependence, Psychopharmacology 2003;168:426-434.

Artigos relacionados - clique no título

>>> Exercício físico e emoção estão intimamente ligados

>>> Estilo de vida altera saúde do cérebro; indicam estudos

>>> Sessões curtas de exercícios moderados reduzem impulso de fumar; indicam estudos

>>> Simples caminhada traz inúmeros benefícios; saiba

Colunas relacionadas:
Vida Saudável Corpo Yoga Cyber Drogas
para ler artigos anteriores
 
Ricardo Arida
Doutor em Neurociências pela Universidade Federal de São Paulo e Pós-Doutorado
pela Universidade de Oxford - UK.
>> Mais informações >>
Clique aqui para falar com Ricardo Arida
para a página principal