| "A cerveja sem álcool
(embora algumas delas contenham pequenas quantidades de etanol) tem
sido associada com esses estímulos que facilitam as recaídas
entre dependentes de álcool, seja pelo sabor, pelo cheiro ou
pela situação. Alguns estudos têm mostrado que,
entre bebedores pesados, o consumo de cerveja sem álcool (também
conhecida como “cerveja placebo”) pode disparar o desejo
de beber" |
Resposta:
A prevenção de recaídas é um dos principais
focos durante o tratamento de pacientes portadores da Síndrome
de Dependência de Álcool. Logo, a necessidade de
reconhecer o risco de recaída bem como os fatores associados
com esse risco é componente essencial para o sucesso terapêutico. |
Fatores de alto risco são aquelas situações nas
quais os indivíduos dependentes costumavam fazer uso da substância
nos tempos de “consumo ativo”. Esses fatores tipicamente envolvem
situações interpessoais (participação nas
mesmas festas, nos mesmos encontros com os mesmos amigos da época
das bebedeiras, pressão do grupo, por exemplo) e intrapessoais
(ansiedade, frustração, fissura, por exemplo). Comumente,
essas situações se misturam em uma combinação
preocupante.
| Várias pesquisas demonstram que os
indivíduos dependentes de álcool demonstram aumento
da fissura pela bebida, quando são expostos a certos estímulos
ambientais relacionados com o consumo anterior. Esses estímulos,
tais como o cheiro da bebida ou mesmo a visão da mesma, podem
disparar a vontade de beber que se torna evidente através do
surgimento de ansiedade e do aumento de pensamentos envolvendo a ingestão
do álcool. |
Advertência de A.A
A advertência fornecida pelos grupos de Alcoólicos Anônimos
(A.A) e outros grupos de mútua-ajuda (Narcóticos Anônimos,
por exemplo) de “evitar pessoas, locais e objetos associados com
o consumo das substâncias” foi desenvolvida como uma forma
de minimizar a exposição a estímulos que despertam
a fissura.
| Uma sugestão prática tem sido
encorajar os indivíduos dependentes a remover de suas casas
quaisquer substâncias e parafernálias relacionadas ao
consumo da substância abusada. |
Nós sabemos que é impossível evitar todos os estímulos
relacionados ao consumo anterior de bebida. No entanto, evitar situações
de maior risco é possível e depende diretamente da contribuição
de cada paciente e dos seus pares.
Da mesma forma, como os alcoolistas consistem em uma população
bastante heterogênea, as orientações terapêuticas
deverão ser adequadamente individualizadas, baseadas no mapeamento
das situações de risco de cada paciente. Daí a necessidade
desses indivíduos participarem efetivamente de uma adequada abordagem
terapêutica.
Perigo da cerveja sem álcool
A cerveja sem álcool (embora algumas delas contenham pequenas quantidades
de etanol) tem sido associada com esses estímulos que facilitam
as recaídas entre dependentes de álcool, seja pelo sabor,
pelo cheiro ou pela situação. Alguns estudos têm mostrado
que, entre bebedores pesados, o consumo de cerveja sem álcool (também
conhecida como “cerveja placebo”) pode disparar o desejo de
beber.
Na prática clínica diária, tenho recomendado a
pacientes dependentes de álcool a não utilização
de cerveja, vinho sem álcool ou quaisquer tipos de ‘bebidas
placebo’, para evitar o desencadeamento da fissura e consequentemente
a recaída. Alguns pacientes que não seguem essa recomendação
acabam por apresentar recaídas no consumo de álcool, de
fato.
O segredo do sucesso terapêutico é desenvolver habilidades
sociais ou interpessoais que não envolvam o consumo de bebidas
alcoólicas ou mesmo de ‘bebidas placebo’. Isso, na
realidade, é possível dentro de um contexto terapêutico,
embora bastante difícil para alguns indivíduos.
O tratamento de pacientes dependentes de álcool é bastante
complexo e deve ser adequadamente individualizado, tendo em vista a heterogeneidade
da população de dependentes.
Ainda existe a necessidade científica de averiguar adequadamente
o papel da cerveja sem álcool ou cerveja placebo entre diferentes
tipos de alcoolistas. No entanto, no momento atual, recomendo a não
utilização das mesmas pelos indivíduos dependentes
de álcool em tratamento para promoção de abstinência.
Abaixo, forneço referência bibliográfica sobre o
tema:
White, J. M., & Staiger, P. K. (1991). Response to alcohol cues as
a function of consumption level. Drug Alcohol Depend, 27(2), 191-195.
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