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Da mesma forma como o psíquico
pode refletir impactos da condição biológica em processo
de mudança, não é possível negar o caráter
e importância dos significados atribuídos, por cada mulher,
à sua vivência do fenômeno climatérico e menopáusico,
enquanto anúncio e encerramento de sua vida reprodutiva.
Para muito além do biológico, este período comporta
representações, deslocamentos, simbolizações
e ressignificações importantes, seja quando se pensa no
desenvolvimento feminino, seja quando se enfoca a psicopatologia. Assim,
é interessante compreendermos a subjetividade feminina neste momento
de vulnerabilidade e desestabilização.
Lax (1982) considerou a crise psíquica que a mulher experimenta
durante a fase climatérica à luz do seu senso de integridade
corporal, seu senso de funcionamento corporal, sua auto-imagem e suas
tarefas vitais e interesses egóicos. O desequilíbrio ocorreria
em todas estas áreas do funcionamento psíquico. As mulheres
responderiam ao climatério de diferentes maneiras, algumas lidando
em direção a uma nova e saudável integração,
outras rumando em direção à patologia.
A perda do controle sobre o que ocorre com seu corpo faz reavivar fantasias
e tendências regressivas, sentindo-se exposta e sem defesa contra
sintomas como ondas de calor e suores, que inclusive a mortificam, pois
revelam seu estado menopausal sem que possa ter controle sobre seu corpo
e suas manifestações, promovendo, por vezes, interferência
no sentimento de integridade corporal e funcionamento harmonioso, resultando
em decréscimo do senso de bem-estar, e ocorrendo crises emocionais
significativas. .
Além do mais, a perda da capacidade reprodutiva para as mulheres
de várias décadas atrás, sob a supremacia da maternidade
como função principal em suas vidas, poderia resultar em
reação depressiva.
Alguns aspectos são facilmente observados durante os atendimentos
dessas mulheres:
Como o climatério
influencia na saúde mental
- Mudanças na perspectiva cronológica: a relação
com os pais se atualiza na relação com os filhos jovens
e adolescentes, mas com papéis invertidos. (exemplo: cuidados com
os pais idosos)
- Reversão nos ritmos exterior e interior de transformação:
agora são os filhos que crescem rapidamente e os pais que envelhecem
no mesmo ritmo. Luto pela consciência da natureza efêmera
da vida humana.
- Limites da criatividade: percepção dos próprios
limites do passado e a restrição para as realizações
no futuro. Outras pessoas, provavelmente, ultrapassarão estas limitações,
colocando em pauta a questão do amor e do ódio para consigo
e para com os outros.
- Identidade do ego na perspectiva do tempo: o novo conhecimento da meia-idade
sobre as próprias limitações consolida a identidade
do ego, diferentemente do passado. Aceitar a si mesmo é aspecto
importante da maturidade emocional, com reflexos em todos os relacionamentos.
- Ajuste de contas com a agressão exterior: enfrentamento realístico
dos ataques que permeiam o ambiente adulto, sem explorá-los, sem
negá-los, sem submeter-se ou por eles ser corrompido. Aceitação
do fato de que a responsabilidade final é para consigo mesmo.
- Perda, luto e morte: o enfrentamento da perda dos pais, irmãos,
parentes e amigos somam-se às próprias manifestações
de envelhecimento, reforçando a consciência do possível
adoecer e morte pessoal. A aceitação de perdas e fracassos
pessoais deve permitir a sensação de contar com recursos
suficientes para a aceitação de si mesmo e a reconstrução
de uma vida significativa, tendo por base o narcisismo normal.
- Conflitos edipianos: nova reativação do Complexo de Édipo
seja pelo crescimento dos filhos, pelas experiências concretas na
vida social e grupal ou pelas vivências com os pais enfraquecidos
rumo à morte.
Com a descrição da 'crise
da meia-idade' e as tarefas desenvolvimentais próprias a este período
do desenvolvimento, ficam pontuadas características marcantes às
quais homens e mulheres devem fazer face quando atingem o ponto médio
da vida, vivenciando pessoalmente estas dificuldades em maior ou menor
grau. Conquanto, a conjugação desta crise psíquica
com as contingências associadas ao climatério e menopausa,
faz com que esta fase do desenvolvimento seja ainda mais complexa para
as mulheres, devido à mútua influência de fatores
de ordem biológica, psíquica e social. Assim, se o atendimento
médico é imperativo nesta fase, o psicológico pode
ser imprescindível, pois não há na medicina medicamento
de metabolização e reposição que processe
estas vivências e significados associados. Assim, a prevenção
marca presença enquanto enfoque importante para a mulher que atinge
o meio da vida e que enfrenta fase de vulnerabilidade com frequência
solitariamente.
Como médico, do 'Pró-Mulher pude identificar na grande maioria
destas mulheres, necessidades de mudanças mais profundas: a elaboração
do luto pelas mudanças e perdas; revitalização de
recursos pessoais adormecidos; início da superação
criativa de golpe em sua feminilidade representado pelo climatério
e menopausa; aceitação de desafios que colocam à
prova sua capacidade e estrutura emocional; descoberta de possibilidades
pessoais que só o maior desenvolvimento emocional pode fazer frutificar;
início da concretização de projetos indicativos de
maior independência afetiva e financeira; maior amadurecimento da
condição de separação conjugal; encorajamento
para a tomada de decisões importantes na vida profissional e procura
de atividade que implica em empatia e doação afetiva aos
que dela necessitam.
Por fim, é claro que as oscilações
dos níveis hormonais femininos também podem contribuir para
os sintomas psíquicos que incidem neste período; tal tema
é um assunto para outro artigo. Em qualquer contexto relacionado
à saúde mental, o biopsicossocial, além das questões
culturais devem ser analisados em conjunto, evitando-se reducionismos
e atrasos na compreensão ampla do psiquismo da mulher climatérica
que se encontra nesta fase de transição entre a vida reprodutiva
e a vida não reprodutiva.
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