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Conheça os efeitos colaterais da cocaína nos dentes, na pele e no pulmão




por Danilo Baltieri

"O uso de cocaína resulta em aumento da frequência cardíaca e aumento da demanda de oxigênio pelo coração. Apesar disso, ao mesmo tempo, a cocaína provoca intensa constrição dos vasos sanguíneos (inclusive coronarianos), diminuindo a oferta de oxigênio para os tecidos. Isso pode conduzir à angina, arritmias cardíacas e infarto" Resposta: Inúmeros efeitos físicos e psicológicos são provocados pelo consumo de cocaína. Euforia, excitação psicomotota, tontura, visão borrada, zumbido, desorientação são frequentemente observados e relatados.

Outros sintomas como paranoia, alucinações, confusão mental, tremores, vômitos, insônia, pupilas dilatadas (midríase), hipertermia (elevação da temperatura corporal), hipertensão, taquicardia e aumento da frequência respiratória também são vislumbrados comumente.

O uso de cocaína resulta em aumento da frequência cardíaca e aumento da demanda de oxigênio pelo coração. Apesar disso, ao mesmo tempo, a cocaína provoca intensa constrição dos vasos sanguíneos (inclusive coronarianos), diminuindo a oferta de oxigênio para os tecidos. Isso pode conduzir à angina, arritmias cardíacas e infarto. Também, o consumo de cocaína provoca aumento da pressão arterial em 15 a 20% acima do basal.

Vale a pena lembrar também que a cocaína atravessa a placenta e atinge o feto. Vários estudos em humanos e em animais relatam que o uso da cocaína diminui a circunferência craniana do bebê ao nascimento e tem efeito negativo sobre o seu desenvolvimento da linguagem. Defeitos orobucais têm sido observados em bebês de mães usuárias da droga (lábio leporino, fenda palatal).

Região orofacial

Mais do que metade daqueles que inalam cocaína apresentam sangramento nasal, rinite e sintomas crônicos de sinusite. Perfuração do septo nasal é observada em cerca de 5% dos usuários. Na verdade, o efeito vasoconstritor da cocaína induz isquemia local que, por sua vez, pode induzir necrose do septo nasal e tecidos adjacentes. Também, os adulterantes que podem existir junto com a cocaína, tais como talco, quinino, anfetaminas, lidocaína, procaína etc, complicam ainda mais as lesões. Da mesma forma, o palato (céu da boca) pode ser intensamente atingido pela cocaína, incluindo o surgimento de perfurações e fístulas, o que prejudica a articulação da linguagem e o regime alimentar.

Usuários de cocaína frequentemente sofrem de bruxismo (ranger de dentes noturno durante o sono), comumente produzindo dor na articulação temporomandibular e músculos mastigatórios. Desgaste dos dentes caninos e incisivos tem sido observado entre usuários crônicos da droga. Também, dissolvida na saliva, a cocaína diminui o pH da boca, aumentando o risco de dissolução de minerais dos dentes (hidroxiapatita). Retração gengival e boca seca têm também sido observadas entre usuários da droga.

Manifestações dermatológicas

Além dos efeitos diretos da cocaína sobre a mucosa e a pele, devem-se ressaltar os efeitos indiretos, relacionados, por exemplo, à má nutrição comumente vista entre dependentes de cocaína/crack.

Realmente, além dos efeitos euforizantes da cocaína/crack, essa substância propicia a constrição das veias e artérias do corpo, provoca danos nas paredes dos vasos sangüíneos e intensifica o fenômeno da coagulação.

Os fumantes de crack apresentam, frequentemente, lesões enegrecidas e puntiformes (que tem forma ou aparência de pontos) nas palmas das mãos e dedos, mais amiúde verificada na mão não dominante. Tais lesões são atribuídas às queimaduras pelo cachimbo usado para conter a droga e elas são repetidas, visto que a intoxicação torna o usuário menos perceptível aos efeitos térmicos da queimadura. As altas temperaturas atingidas pelos vapores emitidos durante o consumo podem produzir uma diminuição dos supercílios.

Complicações dermatológicas mais raras, mas graves, podem ocorrer com o usuário de cocaína/crack, como necrose epidérmica segmentar, associada com manchas azuladas distribuídas pelo corpo, desencadeadas pelo vasoespasmo prolongado.

A inalação da cocaína pode resultar em edema da mucosa nasal, com sintomas de rinorréia (coriza significativa), diminuição da capacidade para sentir odores e, cronicamente, em necrose e perfuração do septo nasal. O consumo crônico desta substância tem também sido associado a vários outros quadros dermatológicos, como vasculites, verrugas intranasais, púrpura palpável (pequenos pontos elevados vermelhos ou de cor púrpura, resultado do extravasamento de sangue dos capilares sangüíneos) e esclerodermia (espessamento da pele, resultado do acúmulo excessivo de proteínas – colágeno). É comum o encontro de escoriações generalizadas na pele devido à coceira induzida pela cocaína/crack.

Alguns indivíduos, após o uso, têm a sensação de que existem bichos andando pelo seu corpo; isso, também, faz com que eles se cocem com grande intensidade.

O dependente de cocaína/crack, frequentemente, alimenta-se de maneira inadequada e insuficiente. O déficit constante e progressivo de vários nutrientes induz à inúmeras complicações em vários órgãos, como a pele.

Pulmão

Também com relação ao sistema respiratório, várias complicações decorrentes do consumo de cocaína / crack têm sido recorrentemente descritas. Bronco-espasmo, hemorragia alveolar, inflamação dos alvéolos (alveolites), hipertensão pulmonar, edema pulmonar, fibrose do espaço entre os alvéolos têm sido vislumbrados.

As repercussões respiratórias do uso da droga não dependem apenas da via de administração, mas também da presença de adulterantes, microorganismos, tempo de uso, susceptibilidade individual, uso compartilhado de parafernálias.

Também, é importante ressaltar que pequenas doses de cocaína podem aumentar a taxa respiratória, enquanto altas doses podem provocar depressão respiratória. No entanto, em alguns usuários, a cocaína pode ter um efeito paradoxal, induzindo inicialmente um aumento da taxa respiratória seguida por redução clinicamente significativa.

Quando o crack é fumado, os pulmões são diretamente expostos à forma volátil da droga e aos vários produtos resultantes da combustão. Logo, lesão direta da droga sobre as células pulmonares, constrição dos vasos sanguíneos e efeitos dos adulterantes se combinam em um resultado absolutamente catastrófico.
Clinicamente, o usuário pode queixar-se de dor ao respirar, falta de ar, tosse, hemoptise (expectoração sanguinolenta através da tosse), febre, sintomas de asma ou bronquite.

Abaixo, forneço interessantes referências sobre o tema:

Brewer, J. D., Meves, A., Bostwick, J. M., Hamacher, K. L., & Pittelkow, M. R. (2008). Cocaine abuse: dermatologic manifestations and therapeutic approaches. J Am Acad Dermatol, 59(3), 483-487.
Terra Filho, M., Yen, C. C., Santos Ude, P., & Munoz, D. R. (2004). Pulmonary alterations in cocaine users. Sao Paulo Med J, 122(1), 26-31.

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ATENÇÃO: As respostas do profissional desta coluna não substituem uma consulta ou acompanhamento de um profissional de psicologia e não se caracterizam como sendo um atendimento

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Danilo Baltieri
Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas
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