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Morte e vida
"Vida só vida, vida sem sombra é visão
utópica projetada para além do mundo de contradições,
trabalho e guerra. Nessa utopia não haveria mudanças
nem fluxo, nem trabalho. No extremo oposto teríamos o trabalho
que não se renova, a impiedosa tarefa de Sísifo, vida
sem lógica, sem Discurso. O Discurso revela-se no transcurso.
Negados ambos os extremos, resta a vida-morte, vida que se refaz,
transcorre." (Schüler)
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| "... não devemos temer
a morte, porque enquanto estamos vivos ela não está
presente, e quando ela está, nós é que não
estamos" |
Retomando as referências ao artigo anterior
(clique aqui), que tratava do idiota,
do ensimesmado, surgem muitas questões, ainda referentes à
idiotia. A primeira delas diz respeito à morte. |
Nosso limite, nosso fim. De Heráclito - que afirmava que constantemente
damos diferentes formas a nossas vidas, mas que a última forma
nos é dada pelos vermes - a Heidegger - que nos apresenta como
um "ser para a morte": nossa única certeza, nossa limitação
e, paradoxalmente, nossa possibilidade de ser-no-mundo - a morte aparece
em suas diferentes faces e leituras, como possibilidades de vida.
Se estamos vivos, caminhamos para a morte, morremos a cada instante, mas
também cultivamos a vida, com substituições de nossas
células, com renovações de nosso ser. O mesmo fruto,
diz Heráclito, é sadio e podre, também não
seríamos nós, ao mesmo tempo, sadios e podres? Nossas organizações
sociais nascem e morrem a cada dia, refazem-se, desfazem-se em novas formas,
em colisão de ideias. Não há pleno sem a contradição,
a divergência já anunciada por Heráclito é
verificada diariamente. Se repetimos o mesmo, não há fluxo,
não há vida.
| "Quando morremos? Na
verdade, morremos todos os dias. Morte são também nossas
decepções, nossos projetos falidos, nossas ideias abortadas.
Morte é tudo o que nega a vida. A morte definitiva, a que encerra
todos os atos, a que nos apresenta a vida concluída, dessa
não podemos tratar porque ela nos excede. Restam-nos os insucessos
que a anunciam, neles acenam os signos do que não nos é
dado alcançar. Esperamos e conjeturamos. Como poderíamos,
de outro modo, elevar-nos acima da solidez dos corpos que nos cercam,
assinalando-lhes a precariedade?" (SCHÜLER, 2001: 196). |
Quantas vezes morremos em vida? Quantos projetos abortados? Quantas decepções?
Num primeiro momento a morte nos atinge, congela, impede. Mas assim que
vivemos nosso luto, que choramos nossos sonhos mortos, nova vida surge:
novos planos, novas possibilidades, às vezes melhores que as anteriores.
Quantas vezes se faz necessário que abortemos um projeto falido
para darmos lugar a uma proposta mais condizente com as possibilidades
reais? Quantas outras vezes necessitamos negar uma ideia para que outras
possam surgir? Quantas vezes aquele que nos contradiz e nos provoca ao
abandono de um posicionamento fechado nos impulsiona, ao mesmo tempo,
ao renascimento, através de novas posições?
O problema é que tememos a morte, nos apavoramos diante dela, ao
invés de vê-la como possibilidade de vida. Queremos somente
a vida, o que é, como afirma Schüler, utopia. Não há
vida sem morte, nem morte sem vida. Poderíamos ficar com Epicuro
que nos garante que não devemos temer a morte, porque enquanto
estamos vivos ela não está presente, e quando ela está,
nós é que não estamos.
| "Então, o mais
terrível de todos os males, a morte, não significa nada
para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é
a morte que não está presente; ao contrário,
quando a morte está presente, nós é que não
estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os
vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não
existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no
entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior
dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida." (EPICURO,
2002: 29). |
Apesar de inevitável, lutamos constantemente contra a limitação
que nos é imposta. Buscamos todos os meios possíveis para
preservar a vida. O desenvolvimento tecnológico, o investimento
em medicamentos, as pesquisas sobre formas de ampliar os limites da vida
são frequentes e buscados em larga escala na sociedade atual. Há
quem aposte na construção dos ciborgues, considerando a
mistura de silício com material genético como um ponto de
partida para a imortalidade. Há quem defenda a possibilidade de
um download de nossa consciência para uma máquina, permitindo
assim a manutenção da vida em outro formato, em outro hardware,
como, por exemplo, Kurzweil, em A era das máquinas espirituais.
Mas nos preocupamos com outras formas de morte? Claude Levi-Strauss, em
Antropologia Estrutural, descreve algumas situações
em sociedades primitivas, onde os condenados à morte simbólica
- ou seja, aqueles que por algum motivo foram condenados por suas sociedades
a serem tratados como se não existissem, como se tivessem morrido
- em pouco tempo morriam de fato.
Quanta morte há, então, na indiferença? Afirma Buber,
em Eu e Tu, que o contrário do amor não é
o ódio, e sim a indiferença. A indiferença não
provoca, exclui; não discorda, anula; impede a vida, mata. Diz
Schüler: "Há espaço comum quando a diferença
não provoca indiferença." (2001: 145). No espaço
comum construímos, ampliamos as margens do rio que é e não
é o mesmo. O espaço comum propicia a morte do mesmo para
o surgimento do novo, do eu que se constitui junto-com-o-outro,
daquele que sai do idiotismo e, em seu movimento, cria a vida.
Se buscamos a vida e tememos a morte, porque nos tornamos a cada dia mais
ensimesmados? Por que constituímos uma sociedade cada vez mais
individualista? Por que tratamos o outro com indiferença? Por que
nos permitimos tratar com indiferença? Qual a diferença
que fazemos no mundo onde vivemos? Se morte e vida são complementares,
se morremos a cada dia e isso nos permite renovação, qual
a nossa renovação diária?
Referências Bibliográficas:
BUBER, M. Eu e Tu. São Paulo: Centauro, 2008.
EPICURO. Carta sobre a felicidade - a Meneceu. São Paulo: UNESP,
2002.
HERÁCLITO. Col. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural,
1973.
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes, 1989.
KURZWEIL, Ray. Era das máquinas espirituais. São Paulo:
Aleph, 2007.
LEVI-STRAUSS, Claude. Antropologia Estrutural. São Paulo: Cosac
Naif: 2008.
SCHÜLER, Donaldo. Heráclito e seu (dis)curso. Porto Alegre:
L&PM, 2001.
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