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| Colecionismo - "Refere-se
a um padrão comportamental caracterizado pelo acúmulo
de quantidades excessivas de itens com questionável valor utilitário
ou material, associado à intensa dificuldade para fazer o descarte
desses mesmos objetos, resultando ao longo do tempo, em prejuízo
da qualidade de vida do indivíduo"
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Recentemente pediram-me para comentar sobre o sofrimento
das pessoas que são desorganizadas e arcam com as consequências
nefastas desse padrão de comportamento. Não há
um só jeito de ser des/organizado.
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Poderia comentar sobre aqueles que não planejam suas rotinas
e se perdem em meio aos deveres e compromissos, sofrem com atrasos e tarefas
acumuladas. Há também pessoas que são atrapalhadas
em aspectos mais abstratos e com repercussões indesejáveis
na vida prática, em aspectos não necessariamente ligados
ao gerenciamento do tempo (por exemplo, na maneira como organizam e expressam
suas ideias, ou quando lidam com suas finanças).
Assistir um trecho do programa da apresentadora americana Oprah Winfrey
sinalizou para mim outra possibilidade, quero comentar sobre o colecionismo
patológico, um quadro psiquiátrico ainda negligenciado por
profissionais de saúde, e pouco conhecido da população
em geral.
Refere-se a um padrão comportamental caracterizado pelo acúmulo
de quantidades excessivas de itens com questionável valor utilitário
ou material, associado à intensa dificuldade para fazer o descarte
desses mesmos objetos, resultando ao longo do tempo, em prejuízo
da qualidade de vida do indivíduo.
| Já participei do
tratamento de casos assim, escrevi a respeito em periódico
científico, e posso atestar que, geralmente, a vida dos portadores
do transtorno resulta numa absoluta falta de ordem e arrumação,
que consome as pessoas, limita suas vidas e tem consequências
devastadoras. A pessoa provavelmente busca segurança e controle
em sua vida, guarda a todo custos objetos os quais acredita possam
lhe ser remotamente úteis, e acaba por produzir o caos incontrolável. |
Colecionar pode ser um hobby. Além do propósito de ampliar
a coleção (selos, bonecas de época, canetas, aeromodelos,
latas de batata frita industrializada ou de cerveja, etc.), colecionadores
interagem entre si, buscam aprender mais sobre seu objeto de interesse,
sentem-se orgulho de seus pertences e sentem prazer ao exibi-los a quem
saiba apreciá-los. Neste caso, nada há de prejudicial, que
preocupe especialistas em problemas de comportamento.
No entanto, há quem acumule descontroladamente, sem critério
e organização, coisas como papéis (comprovantes bancários
de décadas, notas fiscais jurássicas, papeizinhos para anotações,
recortes de revistas), roupas imprestáveis, latas, potes de vidro,
pedaços de barbante, jornais velhos, a lista é interminável.
Descartar, por sua vez, é um verbo impossível de ser conjugado.
O argumento básico de quem age assim é que aquilo "pode
vir a ser necessário, sabe-se Deus quando" e aí a pessoa
estará preparada para a ocasião. O problema é: quem
conseguiria achar aquele parafuso específico, guardado em meio
a muitas pilhas de outras coisas, num cômodo quase intransitável?
Há poucos anos, na cidade de São Paulo, os vizinhos de uma
senhora, residente no bairro do Itaim Bibi, precisaram chamar as autoridades
sanitárias. O odor que emanava da casa era insuportável;
aranhas, escorpiões e baratas formaram ali um condomínio.
Em meio a pilhas infectas e amontoados desordenados, encontraram até
um automóvel. Esse é um caso extremo, explorado pela mídia
na época. A desocupação foi feita à força,
sob ordem judicial, e a pobre senhora, encaminhada - contra sua vontade
- para cuidados de saúde.
Os portadores, em sua maioria, costumam manter alguma visão crítica
sobre sua condição. Embora convictos de que acumular tantas
coisas seja lógico e razoável (recomendo aos familiares
que nunca tentem contra-argumentar, porque serão derrotados). Usualmente
dizem que chegará o dia em que conseguirão se organizar,
comprarão mais prateleiras, containeres, terão uma casa
maior, farão uma superarrumação e aí todos
verão que a pessoa estava certa em guardar tudo aquilo.
Sob a crença de que apenas precisam ter chance de arrumar tudo
melhor, passam anos sem receber visitas, devido ao constrangimento produzido
pelo escrutínio alheio. Cômodos ficam intransitáveis,
até a cama pode ter sua área livre reduzida. Falta espaço
para sentar, fazer refeições, praticar hobbies, receber
visitas e hóspedes, dar festas, para viver. Há casos, menos
frequentes, de colecionismo de animais. A pessoa vive em meio a cães
e gatos, geralmente coletados da rua, em plena imundície e ausência
de cuidados como alimentação apropriada, limpeza, vacinação
e outras práticas de quem se preocupa com a guarda responsável.
É doloroso constatar quer esse comportamento não surge em
sua exuberância máxima da noite para o dia. É trabalho
de formiga. Por anos a fio, as coisa se processam disfarçadamente,
em alguns casos com a cumplicidade, ativa ou passiva, de algum membro
da família. Examinando a história pessoal e familiar, é
comum identificar casos de depressão, Transtorno Obsessivo Compulsivo,
compulsão por compras, entre outros transtornos. Também
chama a atenção que a vida dessas pessoas costuma ser empobrecida
do ponto de vista psicológico, seja como decorrência de perdas,
negligência parental, abusos, déficits em habilidades de
comunicação (inassertividade, dificuldade na expressão
de necessidades e de sentimentos em geral) e /ou sociais.
Tratamento
Há tratamento? Sim. Quase nunca a solução é
simples, isenta de embates, conflitos, hesitação e recaídas.
O apoio de especialistas e a orientação da família
são fundamentais. O argumento básico, a ser usado com o
portador, não passa pela ênfase na insensatez de armazenar
tanto lixo. Na verdade, buscamos discutir quais os valores básicos
da pessoa: seja propiciar uma vida de qualidade aos que ama, ter espaço
para convívio, zelar por um ambiente sem pó, mofo e insetos,
para assegurar a saúde de todos, etc.. São criadas estratégias
para iniciar o descarte, classificar o que deve ser mantido e o que pode
ser vendido, reciclado, doado, ou jogado no lixo sem hesitação.
Define-se um limite para o quanto de cada item poderá ser mantido
na casa, qual área deverá ser preservada para circulação
e outros usos que não o armazenamento. O bloqueio do colecionismo
é um projeto amplo, trabalhoso e vale cada minuto do esforço.
Tão importante quanto reorganizar a vida de fora para dentro, é
um investimento de longo prazo na terapia, rica oportunidade para identificar
o que influenciou e ainda mantém o empobrecimento dos relacionamentos
e dos interesses na vida. Intervir sobre essa armadilha é essencial.
Do contrário, estaremos desconsiderando a totalidade da pessoa
e focando apenas em uma dimensão do indivíduo, seu patológico
excesso comportamental. De certo modo, a intervenção envolve
recriar o ambiente doméstico, intervir de forma ampla sobre a qualidade
de vida e rever o que realmente faz diferença para a serenidade
emocional e vivência do prazer.
Para aprender mais a respeito, sugiro buscarem informações
em
www.ocfoundation.org/hoarding/
http://www.oprah.com/slideshow/oprahshow/oprahshow2_ss_20050506
http://www.eatmedaily.com/2009/08/hoarding-rotten-food-on-aes-hoarders-video/
http://www.onlineorganizing.com/NewslettersArticle.asp?article=449&newsletter=go
http://www.psicolog.com.br/download.php?view.7
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