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Praticamente todos os dias recebo e-mails solicitando ajuda referente
ao relacionamento afetivo. O que não é diferente no consultório.
Mas sempre que fazemos uma queixa tendemos a ter a percepção
apenas do que nós sentimos, raramente avaliamos o que o outro sente,
sequer perguntamos, sequer o ouvimos. Ao ler o e-mail que repasso abaixo,
percebi que muitas vezes o outro, a quem muitas vezes julgamos como insensível,
sem amor, etc, também sofre, e muito, e com a intenção
de proporcionar uma reflexão estou dividindo com você.
"Tenho pensado muito em tudo que tem acontecido. A vida da gente
começou numa explosão de paixão, e muito pouco conhecimento
um do outro. Passei boa parte da vida sendo cobrado pelas pessoas, no
trabalho, em casa, na rua, na cama, no banho, no travesseiro, e agora,
por nosso relacionamento. Aquilo que somos hoje é o resultado de
uma vida, que nos deixa sequelas, às vezes passageiras, às
vezes irreversíveis, e outras ainda demoram para que se volte ao
normal.
Talvez pela falta desse histórico que temos um do outro, seja difícil
a sua compreensão daquilo que resulto hoje. Mas isso não
é problema seu. É meu. Para piorar, tem acontecido várias
coisas, desrespeito no trabalho, falta de grana, sentimentos de culpa,
autoestima baixa e nossas constantes brigas, indiferença.
O limite da dor, das sensações do corpo e do espírito
é diferente para cada ser humano. Além do mais, depende
do momento em que cada um se encontra. Uma caixa com uma laranja, não
pesa nada, mas uma caixa com mil laranjas, pesa muito. A diferença
está aí, para o espectador, aquele que nos vê de fora,
jamais poderá enxergar o que há dentro da caixa, com isso,
cada fato que acontece, para o espectador será apenas uma laranja.
Mas este não tem ideia do quanto essa caixa está pesada
para o outro, e essa simples laranja, pode ser o limite para que o outro
venha ao chão. A culpa? Não é de ninguém.
São apenas bagagens que adquirimos durante a vida, consequências,
ou não, de escolhas que fizemos, e que lentamente e dentro do possível,
vamos nos desfazendo delas, ou não. Há coisas que vamos
carregar para sempre independente de nossa vontade, podemos até
ignorá-las, mas estarão sempre lá.
Duas pessoas, já em idades avançadas quando se unem, dificilmente
estarão com suas caixas vazias, apesar disso, a tendência
será de olhar para o outro, como se este fosse mais forte, como
se a caixa do outro estivesse mais vazia. É natural nos voltarmos
para nossa caixa, só nós sabemos o quanto ela pesa e há
quanto tempo estamos suportando o seu peso. O nosso companheiro, por mais
que nos ame, terá apenas uma vaga noção desse peso.
Porque cada ser é único e a dor que sentimos é intransferível.
Nosso companheiro poderá ter por nós compaixão e
respeito, mas a nossa dor, ele já mais poderá sentir. E
na ânsia desvairada de buscar os nossos anseios, estamos nos afastando
cada dia mais.
Nada estamos fazendo além de nos acusarmos. Mais do que nunca estamos
olhando cada um para si próprio, acreditando que com isso estamos
lutando pelo amor. Ao contrário disso, estamos lutando pela nossa
desunião. Estamos tentando transformar um ao outro, perdendo o
respeito, e isso não é um bom sinal. Para que uma relação
dê certo é preciso um esforço de compreensão
muito grande, o que nem sempre estamos dispostos, vai depender do quanto
cada um está cansado, machucado. Independe do nosso amor pelo outro.
É uma questão de sobrevivência.
Não consigo ser aquilo que você almeja, e até acho
que estou muito longe disso. Sinto que estou sempre te deixando triste,
por mais que pense estar fazendo mais e mais por você. Mas nada
tem sido suficiente. Tenho certeza que você não está
feliz. Que você esperava de mim um outro homem, que não sou
e tenho certeza nem serei. Seu príncipe encantado está muito
além de mim. Eu não consigo dar o que você quer. Não
sei o quanto sua caixa está pesada, mas sei o quanto a minha está.
Estou muito cansado, não sei se tenho forças ainda para
continuar, já me machuquei, fui machucado e me deixei ser machucado
demais. E também não quero mais machucar. Sim, nos gostamos,
mas não dá pra continuar nos machucando. Não quero
ser cobrado além do que eu me cobro e nem além do que eu
posso dar. Não quero fazer ninguém infeliz, mas também
não quero ser infeliz.
Desculpe-me pelo desabafo, mas é que estou chegando no meu limite
e não estou conseguindo ver uma luz. Isso me deixa muito triste,
me põe mais para baixo e faz com que eu me sinta muito incapaz.
Estou a cada dia mais irritado e sem paciência, tenho noção
clara disso. Talvez o único caminho seja o respeito um pelo outro.
Aceitar mais, cada um como é, com seus limites, defeitos e qualidades.
E se isso não for possível, pelo menos sejamos corajosos
para admitir, que somos muito diferentes, e apesar do que sentimos um
pelo outro não conseguimos estreitar nossas diferenças.
Será mais honesto e melhor do que ficarmos aumentando as nossas
feridas. Já sofremos bastante na vida, se não dá
para ser feliz, que pelo menos estejamos em paz."
Espero que esse desabafo te faça refletir sobre sua própria
vida, sua relação afetiva. Você verbaliza o que sente?
Você realmente ouve o outro? O que você gostaria de dizer
e tem guardado dentro de você? Que tal se ouvir e depois ouvir ao
outro? E juntos pensarem num possível caminho? Qual o caminho que
vocês seguirão? Isso só vocês dois podem descobrir.
Abra-se para essa possibilidade. Uma relação é feita
por duas pessoas, e a decisão em como vivê-la também
deve ser um compromisso assumido pelos dois!
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