Reflexões
Reflexões e entretenimento sobre o cotidiano

De outro ponto de vista

por Angelina Garcia
"...ou colocamos mais lenha na fogueira, dando ao outro motivos que reforcem seu estado de espírito, ou nos colocamos ao seu lado, de verdade, e assim o desarmamos" A secretária recebeu-o com seu simpático sorriso, pedindo-lhe que se sentasse e aguardasse a profissional que estava a caminho. De quebra já se encaminhava para oferecer-lhe um café, que acreditava bem-vindo na manhã bem fria.

A voz veio dura:

- Não tenho esse tempo. E ameaçou sair.

Helena poderia, sim, tê-lo tomado por estúpido, arrogante e fechar a conversa com o clássico “sinto muito”, mas reconhecia que seu emprego dependia também da habilidade no trato às crianças e a seus familiares.

Secretárias costumam saber que estão sujeitas a esse tipo de situação e como contorná-la, mas quanto mais usava esse conhecimento treinado para amaciar o pai, mais ele se irritava, pois também tinha secretária. Percebeu, então, que por esse caminho poderia, indiretamente, colaborar com a perda de um paciente.

Enquanto buscava novas formas de abordar o pai, pôs-se a pensar na razão pela qual ele estaria lhe pedindo o impossível, que a fonoaudióloga do filho se fizesse presente naquele instante.

Falta de tempo não era, pois ele poderia encurtar a conversa que, nesses casos, é sabido, não dura menos que meia hora. Afinal, nem chegava a cinco minutos o atraso da terapeuta.

O que antecedera àquela visita, que levava o pai a querer agarrar-se à primeira desculpa para sair correndo? Estaria substituindo a mãe? Fora pressionado pela mãe para que desta vez fosse ele a ouvir sobre os problemas do filho? Fora intimado pela terapeuta? Alguma coisa na sua relação com o filho estaria impedindo uma progressão satisfatória do tratamento? Consciente ou inconscientemente ele se culpava pelas dificuldades do filho?

Não saberia o que passava pela cabeça dele, mas ainda assim se compadeceu. Não que ele fosse um coitado que merecesse pena, mas um pai, cuja angústia merecia consideração.

Anos e anos atrás daquela mesa, esforçando-se para manter a simpatia, mesmo em circunstâncias adversas, Helena nunca atinou para a possibilidade de ver por trás da agressividade, do rompante, da frieza, apenas a fragilidade humana. E nessas horas, ou colocamos mais lenha na fogueira, dando ao outro motivos que reforcem seu estado de espírito, ou nos colocamos ao seu lado, de verdade, e assim o desarmamos.

Nem precisou fazer esforço. O sorriso surgiu espontâneo, acolhedor, quando pegou o telefone e olhou com ternura para o senhor Alfredo.

- Eu também detesto esperar. Vamos ver se ela já está chegando?

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Angelina Garcia
é especialista em Linguagem, com cursos em Processo Criativo e Psicologia Profunda; Análise do Discurso e Neurolingüística
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