| "...ou colocamos mais lenha na
fogueira, dando ao outro motivos que reforcem seu estado de espírito,
ou nos colocamos ao seu lado, de verdade, e assim o desarmamos" |
A secretária recebeu-o com seu simpático
sorriso, pedindo-lhe que se sentasse e aguardasse a profissional que
estava a caminho. De quebra já se encaminhava para oferecer-lhe
um café, que acreditava bem-vindo na manhã bem fria. |
A voz veio dura:
- Não tenho esse tempo. E ameaçou sair.
Helena poderia, sim, tê-lo tomado por estúpido, arrogante
e fechar a conversa com o clássico “sinto muito”, mas
reconhecia que seu emprego dependia também da habilidade no trato
às crianças e a seus familiares.
Secretárias costumam saber que estão sujeitas a esse tipo
de situação e como contorná-la, mas quanto mais usava
esse conhecimento treinado para amaciar o pai, mais ele se irritava, pois
também tinha secretária. Percebeu, então, que por
esse caminho poderia, indiretamente, colaborar com a perda de um paciente.
Enquanto buscava novas formas de abordar o pai, pôs-se a pensar
na razão pela qual ele estaria lhe pedindo o impossível,
que a fonoaudióloga do filho se fizesse presente naquele instante.
Falta de tempo não era, pois ele poderia encurtar a conversa que,
nesses casos, é sabido, não dura menos que meia hora. Afinal,
nem chegava a cinco minutos o atraso da terapeuta.
O que antecedera àquela visita, que levava o pai a querer agarrar-se
à primeira desculpa para sair correndo? Estaria substituindo a
mãe? Fora pressionado pela mãe para que desta vez fosse
ele a ouvir sobre os problemas do filho? Fora intimado pela terapeuta?
Alguma coisa na sua relação com o filho estaria impedindo
uma progressão satisfatória do tratamento? Consciente ou
inconscientemente ele se culpava pelas dificuldades do filho?
Não saberia o que passava pela cabeça dele, mas ainda assim
se compadeceu. Não que ele fosse um coitado que merecesse pena,
mas um pai, cuja angústia merecia consideração.
Anos e anos atrás daquela mesa, esforçando-se para manter
a simpatia, mesmo em circunstâncias adversas, Helena nunca atinou
para a possibilidade de ver por trás da agressividade, do rompante,
da frieza, apenas a fragilidade humana. E nessas horas, ou colocamos mais
lenha na fogueira, dando ao outro motivos que reforcem seu estado de espírito,
ou nos colocamos ao seu lado, de verdade, e assim o desarmamos.
Nem precisou fazer esforço. O sorriso surgiu espontâneo,
acolhedor, quando pegou o telefone e olhou com ternura para o senhor Alfredo.
- Eu também detesto esperar. Vamos ver se ela já está
chegando?
|