| "Então
não basta saber como um problema se formou em nosso desenvolvimento.
O jeito é trabalhar no sentido de transformar o que precisamos.
Se experimentarmos novas formas de agir, talvez possamos nos deparar
com novos resultados, mas isso requer empenho, um sólido compromisso
com as metas que definimos" |
Pretendo partilhar com vocês uma
pauta sugerida por meu editor: Por que temos dificuldade de mudar
nosso comportamento, mesmo estando cientes de suas causas, de sua
origem? |
Em tese, se sabemos o que causou certo modo de agir, significa que saberíamos,
ou estaríamos a um passo de, modificá-lo. Tremendo equívoco.
Quer entender melhor o que se passa?
Primeiro aspecto: estamos acostumados a dizer que fizemos isto ou aquilo
porque estávamos nervosos ou tristes (pode ser qualquer outro sentimento,
a depender da situação). Assim, atribuímos nosso
comportamento a um estado emocional sobre o qual temos reduzida chance
de exercer influência direta sobre ele. No entanto, se pensarmos
um pouco, a cadeia de eventos causais pode estar bem incompleta. Afinal
de contas, o que gerou aquela emoção, sentimento? Resposta
simples: um fato x e suas circunstâncias. Mas nem sempre
a ocorrência de um fato x resulta nos demais acontecimentos
que estamos tentando explicar. E aí? “Fui mal na prova porque
estava nervosa. Nervosa com o quê? Com o namorado que aprontou,
foi sozinho pra balada e me deixou na mão”. E por que ter
problema com namorado impediu a menina de ter bom desempenho na prova?
Ela não tinha estudado a matéria com antecedência,
aí ficou nervosa e chateada no fim de semana, só pensou
na traição do namorado durante esse período e não
se dedicou ao estudo. Então provavelmente ela foi mal porque não
estudou em tempo hábil, deixou para a última hora, e mesmo
se o namorado não tivesse aprontado, talvez ela não conseguisse
ter nota suficiente por falta de tempo e de dedicação.
Sem dúvida, no curto prazo, namorar deve ser mais atraente do que
estudar alguma matéria insípida, inserida no currículo
obrigatório. Então uma análise que afirmasse apenas
que “ela foi mal porque se sentiu nervosa” certamente não
apontaria como prevenir mais problemas desse tipo.
Há pessoas que até conseguem explicar de um jeito mais elaborado
seu comportamento e o dos outros também. Estabelecem relações
precisas entre eventos presentes e sua história de aquisição.
É o caso da pessoa que afirma que tem dificuldade em confiar nas
pessoas porque efetivamente cresceu num lar no qual reinavam as mentiras,
dissimulações e as decepções. De fato, dois
frequentes mecanismos de aprendizagem são a observação
dos padrões de comportamento alheios (e dos efeitos que eles produzem
no mundo) e também sentir na pele as consequências dos diferentes
jeitos de agir, próprios ou alheios. O problema é se essa
história de vida se converter numa justificativa-padrão
para os comportamentos destrutivos do presente: eu sou assim porque vivi
tais e tais experiências.
Parece uma antiga canção da personagem Gabriela: “Eu
nasci assim, vou ser sempre assim, Gabriela...” Precisamos entender
que a história pode explicar o passado, as condições
de aquisição de um padrão de comportamento. O mistério
é descobrir um jeitão de fazer diferente, quebrar a rotina,
experimentar outros caminhos. Sair da armadilha pode não ser fácil.
O que ajuda muito é desenvolvermos a sensibilidade a dois conjuntos
de fatores: ficarmos antenados nos nossos valores e crenças (descobrir
o que eu quero pra minha vida, que me trará sentido profundo e
ter clareza das minhas regras, das crenças, se elas combinam ou
não com os reais contextos nos quais minha vida se desenrola) e
prestar atenção no que o meio me oferece em termos de oportunidades,
recursos e dicas.
Então não basta saber como um problema se formou em nosso
desenvolvimento. O jeito é trabalhar no sentido de transformar
o que precisamos. Se experimentarmos novas formas de agir, talvez possamos
nos deparar com novos resultados, mas isso requer empenho, um sólido
compromisso com as metas que definimos.
Explicar nossas ações é fácil, mas o mais
difícil e gratificante é dar conta de mudar. Aí só
nos resta arregaçar as mangas e dar uma chance à vida e
a nós mesmos.
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