| Consideremos o seguinte
diálogo:
FULANO: — Posso-lhe fazer uma pergunta?
BELTRANO: — Claro, contanto que eu não tenha que responder...
Com efeito, porque diabos uma pessoa, em vez de dizer “Gostaria
de lhe fazer uma pergunta” – merecendo ouvir de volta um educadíssimo
“Por favor” – haveria de dizer “Posso-lhe fazer
uma pergunta?” – podendo receber a aparentemente mal-educada
resposta acima?
Na verdade, quando ouço esse segundo tipo de formulação,
o que penso é “Lá vem bomba! Esse sujeito não
consegue carregar sozinho o nariz que pretende meter onde nâo é
chamado e está querendo minha cumplicidade para carregá-lo.
É ruim de conseguir!”
Excesso de ranzinzice? De paranóia? Talvez. De qualquer forma,
paranóicos e ranzinzas como eu podem fazer uso da fórmula.
É ótima defesa contra esses sujeitos que, além de
pretenderem se meter em nossas vidas, querem nosso prévio aval.
A fórmula de outras aplicações. Vejamos:
FULANO: — Posso-lhe pedir uma coisa?
BELTRANO: — À vontade, contanto que eu não tenha que
fazer...
A propósito de pessoas que pretendem nossa cumplicidade com a mordida
que nos pretendem dar, vale abordar o capítulo “mendigos”.
As ruas do Rio de Janeiro estão apinhadas deles, mas há-os
de dois tipos: os mendigos normais e os MENDIGOS CHATOS.
Os primeiros chegam e pedem diretamente – “Dr. dá pra
me arranjar um real?” – e eu, conforme meu humor e meus trocados,
dou ou não dou. Já os segundos não pedem diretamente
dinheiro, pedem “atenção”, para, depois de nos
encher a paciência, nos pedir dinheiro. A esses dou atenção
pouca e dinheiro nenhum:
MENDIGO (VARIAÇÃO CHATA): — Doutor, o senhor poderia
me dar um minuto de sua atenção?
EU: — Se não se trata de dinheiro, posso-lhe dar minha atenção;
se se trata de dinheiro, é melhor não perdermos tempo, a
resposta é não.
MENDIGO (VARIAÇÃO CHATA): — Mas, doutor...
EU: — É dinheiro?
MENDIGO (VARIAÇÃO CHATA): — Doutor...
EU: — É dinheiro?
Depois da terceira, normalmente vão embora, SEM DIZER QUE ERA DINHEIRO!
Que diabos, vivemos em uma terra em que nem mendigo se assume!
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