| "Não consigo analisar com
precisão as razões que levam alguém a criar lendas urbanas
e disseminá-las digitalmente" | Escrever
sobre comportamento, um tema tão vasto, abre espaço para a discussão
de assuntos que, aparentemente, pertenceriam mais ao âmbito dos especialistas
em tecnologia de informação. | Gostaria
hoje de conversar sobre como interagimos com um tipo específico de conhecimento:
as (des)informações divulgadas por e-mails. Transitarei em meio
a questões éticas, científicas e sociais, que se entrelaçam,
e proponho refletirmos sobre alguns desses aspectos de nosso comportamento, nossa
relação com temas divulgados via correio eletrônico.
Assim, partilho com vocês meu (obsessivo?) desconforto com um fenômeno
que assola caixas postais. Não me refiro aos vírus e outros programas
maliciosos que destroem nossos arquivos do computador, ou se infiltram nas máquinas
com a finalidade de roubar senhas, causando danos frequentemente irreparáveis.
Para tal problema, na maior parte dos casos, um antivírus atualizado diariamente
é solução quase certeira. No entanto, o combate
de outra praga, mais sutil e igualmente perniciosa, exige ações
complexas como demonstrar senso crítico, responsabilidade e muito respeito
ao outro. Por exemplo, certa vez enviaram-me um arquivo em power point com texto
atribuído a Shakespeare. Surpreende-me que o autor do arquivo anexado (quanto
tempo perdido por nada) e quem depois o repassou não tenha se dado ao trabalho
de desconfiar da suposta autoria. Absolutamente nada correspondia ao
jeito de escrever, aos temas de interesse, ao contexto sóciocultural no
qual Shakespeare viveu e produziu suas obras. O remetente não refletiu
com profundidade sobre o que recebeu, e simplesmente encaminhou o material aos
amigos e conhecidos porque "o texto pareceu tão bonitinho e criativo".
Autores conhecidos como Mário Quintana, L. F. Veríssimo, Martha
Medeiros, Jorge L. Borges, e muitos outros, são vítimas regulares
desse engodo. O problema tem desdobramentos. Há casos de autores
novos, gente talentosa, porém menos conhecida pelo grande público,
publicarem sua crônica, poema ou outra modalidade de texto em algum blog
ou veículo de menor expressão e, algum tempo depois, se depararem
com seu trabalho sendo atribuído a um grande nome, da literatura brasileira
ou de outro país. Perdem o direito à autoria do seu trabalho, arduamente
produzido. Quer dizer que e-mails com apresentações de slides em
anexo são irrefletidamente encaminhados porque o valor inerente das palavras
mantém relação de direta proporcionalidade com o renome ou
fama de seu suposto autor? Comete-se, no mínimo, um desrespeito com quem
de fato escreveu a obra e com aquele a quem, indevidamente, se atribui a autoria.
É duplo constrangimento quando o texto divulgado é flagrantemente
ruim, preconceituoso, tacanho e, ainda por cima, é atribuído a quem
jamais o teria escrito ou referendado seu teor. Conheci o blog de Rosangela
Aliberti (www.rosangelaliberti.recantodasletras.com.br) quando decidi investigar
se um texto que me fora enviado realmente tinha sido escrito por determinado autor.
Tive o prazer de descobrir que ela, e muitas outras pessoas espalhadas em comunidades
virtuais dão a César o que é de César, e se preocupam,
ao menos na seara da literatura, em desfazer o estrago causado por esses emails.
O esforço investido na produção de um texto justifica esse
trabalho de defesa da autoria legítima. Provavelmente, parte do
problema que descrevo reflete a precariedade da nossa educação,
especialmente em Literatura, História e Filosofia. Predomina um despreparo
intelectual. Além disso, somos incentivados a reenviar qualquer coisa depositada
em nossa caixa postal. A título de networking, nos socializamos enviando
inverdades ou bobajadas aos conhecidos e amigos. Quer dizer que o que importa
é dar o comando "encaminhar e-mail" para cultivar as amizades
e, por tal razão, qualquer coisa vale? Falando em inverdades,
o que dizer dos e-mails alarmistas e de teor descabido sobre modalidades de serviços
ao consumidor, crimes, falsas substâncias químicas, doenças,
mudanças na legislação e uma infinidade de outros assuntos?
Em comum, trazem termos vagos (uma menina em Milwaukee...), descrevem condições
dramáticas e autoridades científicas (o FDA registrou óbitos
causados pela substância x contida nos xampus), assustadoras (depois do
golpe, o coitado acordou numa banheira cheia de gelo e sem um dos rins), e incitam
o leitor a encaminhar o e-mail para todos seus contatos, com o pretexto de ajudar
mais pessoas a resolver problemas ("através do telefone 0800XXXXXX
você faz boletins de ocorrência"), prevenir problemas (a vacina
tal é perigosa), etc.. 'Sherlock Hoaxes' Há
bons sites (pessoalmente, gosto do Snopes e do QuatroCantos) dedicados a desmistificar
os hoaxes, o nome em inglês para esses embustes virtuais. Há hoaxes
que circulam pela web em vários idiomas. Deduzo que há quem perca
tempo traduzindo inverdades. Se exercitarmos nosso senso crítico (o que
requer fazer uso de conhecimentos de ciência e outras habilidades) conseguiremos
desconfiar de mensagens com esse perfil, e aí não será o
caso de encaminhá-las. Ao contrário, podemos colocar as palavras-chave,
acrescidas da expressão hoax, num buscador na internet. Rapidamente conseguiremos
avaliar se a informação procede. Isto sem esquecer que alguns hoaxes
citam nome e telefone de alguém (por exemplo, "Fulano de Tal, pesquisador-chefe
da instituição XYZ"), esses podem ser dados reais (a pessoa/instituição
existe e, na maior parte das vezes, jamais referendou aquilo) ou fictícios
(nome, telefone e instituições são Frankensteins virtuais,
dados aleatórios reunidos por um fraudador, que se diverte com mentiras).
Que tal nos dar ao trabalho de telefonar e checar a veracidade? Se confirmarmos
ser hoax, podemos devolver a mensagem a quem o enviou, fornecer dados que coletamos
e sugerir à pessoa que seja ética e agora esclareça os fatos
a todos aqueles para quem enviou o embuste. Parece pouco simpático agir
assim, confrontando o amigo desavisado, impulsivo, excessivamente crédulo
ou acidentalmente mentiroso, porém seremos bem mais respeitosos e daremos
um freio à disseminação da inverdade. A praga da
corrente Corrente é outra praga. Existe antes da Internet.
Sua baixa disseminação explicava-se pelo trabalho que o remetente
teria: copiar um texto 20 vezes, usar papel carbono ou tirar Xerox, envelopar
cada uma e mandar anonimamente pelo correio a vítimas selecionadas da caderneta
de endereços. Agora, com poucos cliques encaminha-se uma oração
ou imagem recebida pela web, acompanhada por uma ameaça esotérica
a quem não a encaminhar aos seus contatos ou, ao contrário, pela
promessa de que o envio (para ao menos n pessoas em tempo recorde) resultará
na ocorrência, três dias depois, de algo esplendoroso na vida do remetente.
É coerente considerar amigo a pessoa que me envia uma corrente,
impondo que eu faça o mesmo com terceiros, pois do contrário serei
penalizada ferozmente pelos céus? Como explicar a ausência de relatos
sobre a efetiva concretização das benesses prometidas pelas correntes?
Dá vontade de, numa roda de amigos, interrogar o remetente sobre no que
resultou o envio daquelas correntes. Não consigo analisar com
precisão as razões que levam alguém a criar lendas urbanas
e disseminá-las digitalmente. Esse comportamento não é novo.
No meu tempo de ginásio (que cursei logo após a extinção
dos dinossauros, diriam os desafetos) falava-se da "loira do banheiro",
descrita como a aparição de uma mulher morta há anos naquele
banheiro da escola. Adoraria ter acesso às origens desse mito, transmitido
oralmente, por anos a fio, em tantas localidades. Considero que repassar todo
e qualquer e-mail, sem primeiro submetê-lo a um escrutínio, equivale
a um adulto que continuasse a acreditar na loira do banheiro e se dedicasse com
empenho a avisar a todos sobre a existência do fantasma. Muito estranho,
no mínimo. Não quero ser desmancha-prazeres, quem me conhece
pessoalmente sabe que partilho alguns e-mails com amigos, e somente aqueles que
me autorizaram a fazê-lo; minha meta é manter a trilha da ética,
responsabilidade e do discernimento. A despeito das supostas boas intenções,
ainda cometo equívocos. As estatísticas, por enquanto, favorecem
o lado positivo. Alguém mais se juntaria nesse propósito?
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