| Tenho observado que muitas das queixas
no consultório, ou entre amigos e familiares, é a questão
da falta de respeito. Neste final de semana aconteceu algo no prédio
onde moro que caracteriza um pouco ao que me refiro. Houve uma festa no
salão localizado no térreo, e o som ficou ligado num volume
que devia repercutir por algumas quadras, até às 3:30hs
da madrugada, com direito a gritos, estouros de bexigas, e pessoas cantando
alto. Sim, era sábado, mas muitos acordam cedo também no
domingo para ir trabalhar. Quando questionado ao porteiro sobre a síndica,
a orientação recebida do porteiro é que ela não
deve ser “incomodada”. Apesar das várias reclamações
feitas pelos moradores, o som continuou. Foi acionado 190 e o policial
quando chegou, simplesmente foi mandado embora pelos responsáveis
da festa. Qual a necessidade de pessoas que agem dessa maneira? Provar
o quê? A quem?
| "Todos sabemos que a
falta de respeito com o outro, seja esse quem for, é apenas
o reflexo da falta de respeito por si mesmo, e principalmente da falta
de autoconhecimento" |
Vemos a falta de respeito também nos atendimentos
das empresas pelas quais pagamos por seus serviços e quando
precisamos de um atendimento, seja para informação,
reclamação, sugestão, somos atendidos por gravações,
ou ainda, por pessoas que recebem treinamento para agirem como se
fossem robôs, como se quem estivesse do outro lado, no caso,
nós, não fossemos dignos de respostas ou de nossas solicitações
atendidas. |
E quando dirigimos nossos automóveis pelas ruas públicas,
quantos de nós não temos observado o carro à frente
ir bem devagar, mesmo estando do lado direito, e ao se aproximar do farol
que está fechando, acelerar mais, te deixando parado? Ou ainda,
motoristas que param no meio da rua, sem se importarem com quem vem trás?
E o recente acidente onde o rapaz foi gentilmente ajudar outro motorista
e pagou com sua própria vida, não sendo socorrido nem por
quem ele quis ajudar? O que dizer diante de tanto desrespeito pela vida
humana? Sem falar do caso Isabella, e tantos outros que temos conhecimento
e tantos que nem ficamos sabendo.
Mas podemos pensar em casos bem mais próximos, dentro de nossa
própria família e muitas vezes, dentro de nossa própria
casa. Quantas pessoas são violentadas, agredidas, desrespeitadas,
pelo marido, mãe, filho, tio, irmão, etc., e não
conseguem forças nem para se defender?
Até aonde vai o limite da tolerância e paciência diante
desses fatos? Paciência... penso que esse é um dos nossos
grandes aprendizados que todos temos que obter, mas como agir quando estamos
sendo lesados, prejudicados, injustiçados, passados para trás?
Como lidar com o sentimento de impotência frente às várias
situações que nos são colocadas no dia-a-dia?
As pessoas estão se esquecendo, ou será que nunca aprenderam,
a colocar em prática a ética, responsabilidade e respeito?
Quando criança, ainda me lembro, meu avô dizia que a palavra
valia mais que qualquer papel. Existia responsabilidade pelo que se fazia,
falava, mas não nos dias de hoje. Na maioria das vezes nem com
documentos conseguimos provar algo, e se tentamos, podemos levar anos.
O que leva muitos a sequer tentarem lutar pelos seus direitos, infelizmente,
tornado-se omissos e dando cada vez mais poder para aqueles que já
o detêm, e que demonstram precisar disso para provar aos outros,
e a si mesmos, que com poder são pessoas com mais capacidade, quando
sabemos que na verdade, autoridade e poder nada tem haver com capacidade.
Pessoas que são agressivas em seu modo de falar, agir, e assim,
intimidam, humilham, envergonham, querem conseguir o quê? O respeito
que eles mesmos não sentem por si próprios? Se impor perante
o outro, apenas com o intuito de mostrar que quem manda é ele?
Afinal, qual a vantagem que se obtém no desrespeito?
Todos sabemos que a falta de respeito com o outro, seja esse quem for,
é apenas o reflexo da falta de respeito por si mesmo, e principalmente
da falta de autoconhecimento. Não pretendemos ser melhor que ninguém,
mas não podemos negar que cada um age de acordo com seu nível
de evolução, e quem sabe vendo por esse prisma, conseguimos
compreender as limitações, para não dizer, maldade,
do ser humano para com seu próximo.
É lamentável que cada vez mais a falta de respeito, e em
seu extremo e conseqüência, as atrocidades existam, e se fazem
presente dentro de nossas casas, quando não literalmente, pela
mídia; mas devemos, sim, aprender também a nos defender;
de maneira honesta, responsável, ética, mas nos defender.
Como? Começando por cada um fazendo uma análise de seus
próprios comportamentos, observando-se como age com aqueles que
ama, com amigos, conhecidos e principalmente, desconhecidos. Se após
sua análise profunda e verdadeira, concluir que não há
o que mudar em si mesmo, ou se você até tem o que mudar,
mais respeito pelos outros e por si mesmo não lhe falta, continue
assim!
Afinal, não é porque algumas pessoas, ainda que seja maioria,
não respeitam nada, nem ninguém, é que iremos mudar
nosso próprio jeito de ser para nos tornar igual. Devemos sim,
aprender com aqueles que exercitam acima de tudo a humildade e respeito,
e ter paciência com aqueles que não sabem ou ainda, não
aprenderam, que o respeito pelo outro começa com o devido respeito
por si mesmo.
Artigos relacionados - clique no título
Por que a falta de respeito e de comprometimento
é tolerada?
Por que alguns criam caso por qualquer coisinha?
Um ollhar sobre a ética
Corrupção fragiliza 'nosso
espiritual' coletivo e pessoal
|