| "... biologia (e aqui
se insere a genética), história de vida e cultura caminham
necessariamente de mãos dadas no processo de construção
do eu. Análises parciais acerca de qualquer um dos três
aspectos provavelmente caracterizam alguns fios da complexa trama
inserida na urdidura do ser. Todo fenômeno comportamental precisa
ser analisado à luz de sua multideterminação..." |
Profissionais de saúde mental são frequentemente
indagados sobre a origem das doenças mentais e suas bases genéticas.
O que causa o transtorno do pânico? Se meu irmão tem
esquizofrenia, eu ou meus filhos corremos o risco de desenvolver essa
doença? Pai alcoólatra terá filho alcoólatra?
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A ciência atual mostra-se empenhada em conhecer o código
genético humano, na esperança de prevenir o advento de doenças,
ou de reabilitar indivíduos acometidos por doenças cujo
tratamento dependa de manipulações genéticas.
Desde já acho bom deixar claro que as ciências do comportamento
progrediram enormemente a partir de meados do século 20. E quanto
mais elas evoluem, mais capazes somos de fazer novas perguntas com base
no saber já adquirido. Ampliar o conhecimento é projeto
sem fim. Desse modo, não podemos ser ingênuos e acreditar
que qualquer descoberta científica isolada porá fim a discussões
sobre o tema ao qual se refere. Posto isso, declaramos abolida a ditadura
das verdades científicas fora de contexto e absolutas.
É curioso o entusiasmo da mídia quando cientistas anunciam
algo como a descoberta do gene do comportamento altruísta, da depressão
ou da dependência química. Na maioria dos casos, há
um hiato entre o que realmente a pesquisa sugere ou comprova e a tradução
das descobertas científicas para a linguagem do homem comum, sujeito
menos afeito a sutilezas terminológicas, ou questões de
metodologia de pesquisa e análise de dados.
Pesquisas de laboratório com animais são muito importantes,
e seus resultados inspiram comparações entre o fenômeno
animal e seu correlato nos humanos. Por sua vez, pesquisas com dezenas
de sujeitos humanos fazem uso de manobras estatísticas para dar
sentido aos resultados coletados. A descoberta de uma alteração
genética não necessariamente explica todos os casos conhecidos
de um certo transtorno psiquiátrico e tampouco dá conta
da totalidade do fenômeno.
Então, como ficam as coisas?
Acho que podemos comparar a análise de um comportamento complexo
aos determinantes do sucesso ou fracasso de uma empresa. Raramente o sucesso
de um empreendimento se deve a um único fator. Vejamos o caso de
um restaurante, por exemplo. A qualidade da comida é fundamental.
Mas ela depende da qualidade dos ingredientes, da inventividade do chef,
da higiene com que é manipulada, da harmonia entre os membros da
brigada que atua na cozinha e aqueles que trabalham no salão, atendendo
diretamente ao público. Mas isso não basta, precisamos avaliar
preços, pois a relação custo-benefício precisa
parecer acessível e justa ao comensal que se dispõe a gastar
seus reais em troca de uma boa refeição fora de casa. O
gerenciamento financeiro é essencial. O proprietário tem
capital de giro? Sabe quanto cobrar para cobrir as despesas fixas e obter
algum lucro? As leis fiscais, trabalhistas e sanitárias são
seguidas? Como divulgar o restaurante e manter sua boa imagem no mercado,
buscando aproximar-se dos líderes daquele nicho de mercado e se
equiparando a eles? Com certeza, ao analisar alguns dos determinantes
do sucesso de um restaurante, deixei de lado outros fatores tão
ou mais relevantes. Nenhum fator isolado asseguraria o sucesso de um restaurante
ou o conduziria ao fracasso absoluto, certo?
Do mesmo modo, um transtorno mental decorre da combinação
de uma série de fatores, cuja soma constitui aquilo que denominamos
a multideterminação deste fenômeno. A genética,
por exemplo, parece contribuir parcialmente para que um indivíduo
apresente um transtorno psiquiátrico. E a palavra genética,
no presente contexto, pode significar coisas diferentes. Por exemplo,
as pessoas herdam de seus antepassados a maior probabilidade (vejam bem,
eu disse probabilidade, e somente isso) de desenvolver um transtorno.
Uma segunda possibilidade seria pensar que um indivíduo específico
não herdou a predisposição ao transtorno psiquiátrico,
mas sofreu mudanças em seu código genético (talvez
durante a concepção, gravidez ou outra etapa de seu desenvolvimento
dentro ou fora do útero), as quais auferiram a ele maior chance
do transtorno se manifestar, pela primeira vez, na família a qual
pertence.
Mesmo assim, continuamos a falar em probabilidades, números difíceis
de estimar com precisão. Um segundo, e igualmente importante, conjunto
de fatores se alia aos aspectos genéticos para construir quem somos.
Trata-se da história de vida: tudo que o indivíduo experiencia
ou testemunha desde que saiu do ventre materno. Aprendemos por meio da
tentativa e erro; também observamos os resultados dos desempenhos
dos outros e fazemos igual (ou, quiçá, o oposto); somos
verbais e conseguimos formular regras norteadoras de nossas ações.
Aprendemos por meio do comportamento verbal e não verbal daqueles
nos cercam. O bicho-homem depende de outros humanos para sobreviver. Por
tal razão, somos, em boa parte, uma sofisticada construção
social, que se entrecruza com a dimensão biológica do ser.
Aprendemos a pensar, a falar, a agir, a sentir; o desenvolvimento disso
tudo decorre da comunidade que nos acolheu ao nascimento.
Aspectos culturais
A cultura é o terceiro grande pilar, é fonte de influência
tanto sobre nossa saúde mental como sobre a ocorrência dos
transtornos psiquiátricos. Alguns importantes estressores são
períodos de guerra, conflitos raciais, fortes retrocessos econômicos,
perseguições políticas e religiosas. A divulgação
pela mídia de certos padrões idealizados (como deveriam
ser nosso corpo, valores e estilo de vida) não se coaduna com as
situações sociais de violência, instabilidade, comunicação
em massa, etc.). Refiro-me aos contextos que produzem sentimentos de desamparo,
desesperança, inadequação social e medo. Por exemplo,
como manter e atingir aquele inalcançável corpo perfeito,
ou de que jeito podemos saciar nosso anseio por adquirir cada novidade
criada numa sociedade tecnológica?
Somos incitados a fazer sexo, precocemente, a despeito do desejo e o orgasmo
múltiplo parece ser quase uma obrigação. Isso sem
discutir a questão da exibição de poder e a busca
pela popularidade entre grupos e indivíduos, a qualquer preço,
via redes sociais. O coletivo interage com o individual de maneira, por
vezes, traiçoeira.
Resumindo: biologia (e aqui se insere a genética), história
de vida e cultura caminham necessariamente de mãos dadas no processo
de construção do eu. Análises parciais acerca de
qualquer um dos três aspectos provavelmente caracterizam alguns
fios da complexa trama inserida na urdidura do ser. Todo fenômeno
comportamental precisa ser analisado à luz de sua multideterminação
e precisamos interpretar com cautela e rigor (e uma pitada de esperança)
cada descoberta da ciência do comportamento.
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