| "Animais,
incluindo os humanos, se beneficiam de algo interessante ou estimulante
para fazer, o que pode ser uma hora de meditação ou
relaxamento, escrever uma coluna de internet (o meu caso!), tecer
a colcha do enxoval de uma neta, plantar vegetais, levar o cachorro
para passear, deixar a cozinha cheirosa..." |
Humanos e vários outros animais
guardam entre si notáveis semelhanças comportamentais
e hoje quero falar sobre a importância de se cultivar uma vida
rica em variedade de estimulação externa. |
Não é à toa que zoológicos bem gerenciados
empregam especialistas em comportamento animal, dedicados a criar formas
de enriquecimento ambiental para os animais sob seus cuidados. Um ambiente
variado, permeado por novidades e desafios, pode ser capaz de prevenir
o surgimento de alguns comportamentos estereotipados, autolesivos e agressivos
dos animais.
Leões podem, por exemplo, receber nacos de carne amarrados a cordas
em locais que exijam deles empenho ao “caçarem” sua
ração diária. Cordas, escadas, plataformas, caixas,
panos e outros objetos são incorporados ao recinto de primatas.
Desse modo eles podem se entreter e dispor de atividades de “recreação”,
num ambiente que, se desprovido de tais recursos, serviria para um reduzido
número de possibilidades. Há primatas que começam,
experimentalmente, a operar tablets para fazer desenhos e ver vídeos
e os resultados são muito interessantes.
Nos programas de TV da Super Nanny, com a educadora Jo Frost,
várias vezes testemunhei crianças destruindo coisas, subindo
literalmente nas paredes, trocando agressões desmedidas com os
irmãos. Uma das causas frequentes disso é a falta de oportunidade
para brincadeiras de fato interessantes, estruturadas e supervisionadas
por um adulto capaz de se divertir com a atividade e de transmitir esse
entusiasmo às crianças.
Os pais, por vezes assoberbados de obrigações e problemas,
acostumaram suas crianças a ficarem passivas frente a um brinquedo
eletrônico ou a assistirem televisão como forma de ficarem
isentos da necessidade de interagirem com elas. Desastre na certa.
Num documentário sobre resiliência, termo emprestado da Física
e Engenharia pela Psicologia para se referir à
capacidade de um material de se recuperar após um impacto, vi o
depoimento de presos políticos. Eles narraram que ao serem mantidos
sob intenso confinamento criaram um jeito parecido com um código
morse para se comunicarem por meio de pancadas nas paredes entre as celas.
E assim chegavam até a darem aulas de idiomas e outras disciplinas
uns aos outros. O conteúdo era menos relevante do que o diálogo,
a possibilidade de se ter algo a fazer na solitária, interagindo
com um semelhante.
As UTIs (unidades médicas que recebem pacientes pós-cirúrgicos
ou que exigem cuidados muito especiais) se modernizaram e hoje oferecem
aos pacientes a chance de se receber visitas, ouvir música, ter
alternância entre claro e escuro, visitas dos Doutores da Alegria,
entre outras oportunidades. Trata-se de uma estratégia que colabora,
em muito, para a prevenção de sintomas depressivos e psicóticos
que acometiam pacientes graves, confinados ao asséptico e patologizante
ambiente estéril da UTI.
Precisamos de mais exemplos ou esses bastam?
Animais, incluindo os humanos, se beneficiam de algo interessante ou estimulante
para fazer, o que pode ser uma hora de meditação ou relaxamento,
escrever uma coluna de internet (o meu caso!), tecer a colcha do enxoval
de uma neta, plantar vegetais, levar o cachorro para passear, deixar a
cozinha cheirosa e brilhante, compor uma sinfonia ou um sambinha descompromissado.
Escolha sua lista pessoal e dedique-se a ela, curta o fruto de suas ações,
exercer ativamente suas competências resultará em concreto
benefício para sua saúde e bem-estar. Experimente.
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