| "Descobertas
interessantes podem brotar desses momentos em que nos desconectamos
do habitual e sintonizamos a fina melodia do respirar lentamente,
como que suspensos no tempo e no espaço" |
Uma amiga decidiu passar a semana de seu aniversário
na companhia de desconhecidos, todos empenhados no propósito
de conviverem durante uma semana, num sítio, praticando meditação,
em silêncio. |
Até a velinha do bolo de aniversário foi assoprada com
um bater silencioso de palmas. Rotina monástica, celular desligado,
sem rádio, TV, computador, tocador de mp3. Ela me descreve seus
dias de retiro como uma experiência muito especial, revigorante,
e já reservou vaga para o outro encontro.
Não diria que tal programa me atrai, parece-me intenso demais,
para o qual não me sinto preparada. Entretanto reconheço
seu valor e proponho aos leitores um microexperimento, com o qual estou
bem familiarizada: reservem uma hora para ficarem em casa, em absoluto
silêncio e desconectados da tecnologia. Reduzam o fazer, amplifiquem
o estar, a escuta interna. Façam tudo devagar, inclusive o ato
de respirar. Inspirem com suavidade, e metaforicamente sintam o ar percorrer
cada parte de seu corpo. Expirem len-ta-men-te, aproveitando para soltarem
o que estiver tenso, travado, fora de seu eixo natural. Aí inspirem
de novo, sem sofreguidão. O ar não vai acabar.
Os pensamentos invadirão sua consciência: contas a pagar,
a bobeira deste exercício de hippie dos anos setenta, os minutos
que já passaram ou os que faltam para a hora se completar. Tudo
bem, apenas constate que pensou alguma coisa, deixe as palavras se afastarem
de você, como folhas ao vento. Novas palavras ou imagens chegarão,
e trate-as do mesmo modo, com delicada indiferença. Qualquer luz,
som, cheiro, evento externo parecerá amplificado, saltará
aos seus sentidos. Sinta o que tiver de sentir, sem julgar. Não
se agarre às coisas ao seu redor, permaneça na experiência
contemplativa por mais um tempo.
Depois que se fartou dessa vivência, se espreguice, mova lentamente
o corpo, faça caretas, beba um copo de água e observe o
que seus sentidos estão registrando. Lave o rosto e as mãos,
retome lentamente seu contato com o universo do atordoamento urbano, no
qual somos massacrados pelas buzinas, telefones, gritaria, balbúrdia.
Descubra se há espaço para alguma negociação.
Buzinar menos, abaixar o som do tocador de mp3, falar suavemente.
Atentar para o universo da subjetividade, conhecer melhor nossas emoções,
os diferentes estados do corpo, tudo isso requer um mínimo grau
de disponibilidade. Descobertas interessantes podem brotar desses momentos
em que nos desconectamos do habitual e sintonizamos a fina melodia do
respirar lentamente, como que suspensos no tempo e no espaço.
Escrever sobre esse exercício meditativo é mil vezes mais
fácil do que sua prática. Só que apenas escrever
a respeito não me satisfaz. Quando busco meditar, do meu jeito,
no limite de minha tolerância, conheço mais um pedacinho
do mundo, enxergo além da superfície das coisas, fico mais
conectada ao que importa, num estado de consciência plena. Se uma
hora lhe parecer demais, dê uma chance a você por três
minutos.
Qualquer esforço em prol da meditação será
recompensado, e se você tiver interesse em aprender mais a respeito,
busque na internet sobre os benefícios da meditação
para a saúde física e psíquica de todos nós.
Mas lembre-se: ler a respeito não substitui o sentir. Boa prática
a quem quiser viver com inteireza e serenidade.
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