| Comportamento | ||||||
| Reflexões sobre o indivíduo e sua relação com o mundo | ||||||
A armadilha do nirvana |
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| por Regina Wielenska | ||||||
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Viver é muito bom. Viver é muito ruim. Bom e ruim se alternam,
ou se oferecem a nós numa louca mistura.
Em meio a tamanho imbroglio conduzimos nosso destino. Definimos metas
que nos parecem desejáveis, sonhamos com o que podemos obter, sondamos
o ambiente em busca do melhor caminho. Isto nem sempre significa que seremos
capazes de chegar lá, mesmo que sejamos dedicados, esforçados,
comprometidos com a meta. Impossível esquecer a devastação
causada pelo tsunami em Bali, as chuvas em Santa Catarina e pelo rompimento
da barragem no Piauí, por exemplo. Os moradores conduziam suas
vidas e foram atingidos pela tragédia pessoal e coletiva. Para
eles, restou lidar com a destruição e mortes. A nós,
alguma solidariedade, insuficiente frente à extensão dos
danos. O mundo nem sempre é justo e distribui prêmios aos
virtuosos. Assim, o que a cultura nos leva a fazer? Crianças são poupadas dos menores sofrimentos, deveres e frustrações, os pais querem ser amigos e cúmplices dos filhos e se isentam de educá-los, porque isso equivaleria a produzir algum conflito, tarefa obviamente trabalhosa para os pais e dolorosas para os filhos. Posso hoje obrigar a escola a demitir um professor exigente demais, que inferniza meu filho, mas não poderei demitir o chefe do meu eterno garoto de vinte anos, que acaba de ser admitido para seu primeiro estágio, após competir com outros duzentos jovens. Estará meu filho preparado para lidar com esta frustração? Outra implicação deste "jeito fugitivo"" de lidar com o lado desagradável da vida se refere ao modo como (não) enfrentamos o fato de que todos morrem. Velórios, rituais religiosos e visitas de pêsames parecem práticas em extinção. A função desses fenômenos seria nos fazer entrar em contato com a perda, num contexto social que favorece a expressão da dor e gradualmente nos apoiar para reconstrução da vida, agora indelevelmente marcada pela presença do morto, que continua a nos influenciar direta, ou indiretamente. Talvez, "ausência do ente querido" fosse a expressão mais comum, porém preferi sinalizar a condição presente, de contato com a saudade e com as lacunas nos papéis desempenhados por aquele que se foi. Há famílias que não oferecem a seus membros qualquer oportunidade de viver o luto, este é um processo que geralmente requer um período entre seis meses e um ano para se completar. Reformar a casa, partir em viagem, banir o nome do morto das conversas, entupir quem ainda chora de tranquilizantes são recursos frequentes para fugir do que teríamos que viver durante a jornada da reconstrução, ou seja, sentir saudade, manejar privações materiais ou de outro tipo, lidar com papelada, redistribuir funções na família, etc..
Há saída para isso? Dilemas, para serem resolvidos, nos cobram um preço. No caso, é renunciar aos atalhos, arregaçar as mangas e se sujar com a lama da vida, sentir a dor sem se deixar afogar por ela, analisar os problemas e decompor as soluções em etapas menores, buscando as soluções possíveis, não as perfeitas ou idealizadas. E mais, enquanto choramos nossa dor e entramos ativamente em contato com os caminhos viáveis, não podemos esquecer que dias de sol, brisas suaves, caminhadas no parque e ombros amigos continuarão a existir ou poderão trombar conosco em algum momento da vida, desde que a gente fique atento. Esta é a graça do mundo imperfeito. Conviver com gente de carne e osso, tão maravilhosamente contraditória e imperfeita como nós, e comprometida com abraçar a experiência na sua totalidade, sem subterfúgios. Com boa companhia (o que inclui a nossa própria) estradas pedregosas ficam, no mínimo, mais suportáveis. E aí sobra sempre algum espaço para sorrisos, contato físico, conversas de acolhimento, ideias novas e apoio recíproco. Para finalizar, e na tentativa de inspirar os leitores, sugiro escutarem a canção A Ciranda da Bailarina, de Chico Buarque e Edu Lobo, da obra O Grande Circo Místico. Vocês verão que a bailarina do circo, e só ela, é perfeita, e por tal motivo, não é gente.... Ciranda da Bailarina Procurando bem Futucando bem Não livra ninguém Confessando bem O padre também Procurando bem
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