| Páscoa - "Tomara que no coração
de cada um renasçam projetos, desejos acompanhados da esperança
e vivacidade com as quais a criança se depara ao receber a
discreta e delicada visita do Coelho" |
Com a proximidade das Páscoa e de Pessach
(Páscoa judaica), duas celebrações importantes
para inúmeros cristãos e judeus, pensei em destacar
aqui os motivos que me levam a valorizar certas cerimônias e
rituais sociais. A título de preâmbulo, gostaria de relembrar
duas cantigas dos meus remotos tempos de pré-escola. |
COELHINHO DE OLHOS VERMELHOS
De olhos vermelhos
De pelo branquinho
Orelhas bem grandes
Eu sou coelhinho
Sou muito assustado, porém sou guloso
Por uma cenoura, já fico manhoso
Eu pulo prá frente, eu salto prá trás
Dou mil cambalhotas, sou forte demais
Comi a cenoura, com casca e tudo
Tão grande ela era
Fiquei barrigudo
COELHINHO DA PÁSCOA
Coelhinho da Páscoa
Que trazes pra mim?
Um ovo, dois ovos, três ovos, assim?
Coelhinho da Páscoa, que cor ele tem?
Azul, amarelo e vermelho também?
Nossa performance vocal era acompanhada por gestual compatível
com a letra. Ensaiar as canções, recortar num molde de cartolina
a máscara do coelho, pintar suas feições e, ao final
de tudo, fazer uma apresentação para os pais, nos ocupava
imensamente, por dias a fio, e era fonte de singela alegria.
Empenhada em resgatar na memória afetiva exemplos do positivo
envolvimento familiar na celebração de rituais pascais,
outras lembranças me ocorreram.
Recordo as idas, com uma das avós, a igrejas, para participar da
procissão ou orar em frente à imagem do Cristo morto. Consegui
recordar da vez em que meu avô, em pleno sábado de Aleluia,
durante nossa hospedagem na cidade de Santos, saiu em busca de capim e
cenoura. Pegou seu chapéu de palha e nele preparou um ninho para
que eu pudesse receber, em alto estilo, o coelho da Páscoa. Depois,
de madrugada, ele se deu ao trabalho de acordar para, na surdina, roer
a cenoura, espalhar o capim pelo chão do quarto, e depositar no
ninho o ovo de chocolate. Descobrir a cenoura mordida, chamar os adultos
para mostrar-lhes a descoberta, abrir o ovo com lembrancinhas dentro,
é muito a prazeroso o resgate da emoção infantil
de que o coelho cumpriu sua promessa. Agora, adulta, valorizo o carinho
da família que se dispôs delicadamente a cultivar aquela
fantasia ou, em outro contexto, a me explicar o valor do sacrifício
de Cristo pelos seus semelhantes (estes, por vezes, eram tão diferentes
de nós).
Acho que no ano seguinte ao evento no litoral decidi enviar uma carta
ao simpático mamífero. Ditei para minha mãe minha
mensagem e ela prometeu postar a carta no “correio lá do
centro”, perto do escritório. Embora a crença em Noéis
e Coelho estivesse nos seus estertores, fiz aos cinco ou seis anos de
idade uma despedida em “grand finale”. Uma tia paciente, cuja
caligrafia eu desconhecia, escreveu a carta-resposta, encontrada por mim
na caixa de correspondência de casa. O envelope com meu nome escrito
tinha muito durex para prender o selo, representado por uma rodela já
murcha de cenoura. O coelho afirmava reconhecer meus méritos e
se comprometia a entregar o presente no dia de praxe. Sem muita coragem
para questionar os fatos da vida, lembro que me perguntava se a carta
poderia mesmo ser considerada evidência suficiente da existência
do coelho. Achei de bom tom me dar por satisfeita com a veracidade da
prova (um insólito documento postal a mim endereçado) e
embarquei no espírito da coisa.
Páscoa: oportunidade para exercitar a fantasia
O que pretendo enfatizar é que essa história/estória
do coelho tem muito valor, além das óbvias implicações
comerciais. Brincar, desse jeito surreal, é saudável exercício
da fantasia, tanto para adultos como para crianças. Gente grande
tende a endurecer com as cruezas do cotidiano. Ocasiões festivas
podem servir de pretexto para o florescer da imaginação,
da liberdade de brincar. Sou adulto que se permite pirar um pouquinho
e ajuda um neto a se divertir também, interagindo com entidades
impalpáveis, cujo advento traz alguma alegria.
Na idade adulta, Deus, entendido com seus múltiplos nomes e enquadres,
talvez assuma o posto do Coelho, da Fada-madrinha ou do Papai Noel. Falo
de muitos seres, igualmente impalpáveis, de indemonstrável
existência. Apostando em sua existência e poder de proteção,
eu posso me encantar e ficar em paz com a mera hipótese de que
alguém, sei lá onde e de que jeito, zela por mim, está
presente nas horas críticas do meu viver, fica de plantão
para me dar força, um norte, a exata esperança. São
todas relevantes entidades (físicas, energéticas ou verbais),
que produzem emoções de conforto, modificam meu estado presente,
influenciam o que faço, o que penso.
Então sugiro que celebre a Páscoa e quaisquer outros eventos,
sejam eles religiosas, pessoais, coletivos. Agora, sinto que falta pouco
para Verônica cantar sua tristeza, a via sacra seguir o doloroso
rumo tão conhecido de todos. Tomara que no coração
de cada um renasçam projetos, desejos acompanhados da esperança
e vivacidade com as quais a criança se depara ao receber a discreta
e delicada visita do Coelho.
Ah, antes que eu me esqueça, copio abaixo um resumo das interessantes
explicações que dois amigos me enviaram em resposta a uma
mensagem pascal que lhes enviei em 2007. Páscoa também é
cultura!
“A Páscoa inicialmente era uma festa de fertilidade, marcava
o inicio da Primavera, e também o início do ano, quando
toda a natureza renascia. Até hoje é marcada pelo calendário
lunar, por isso incide a cada ano em um dia. A Páscoa hebraica
acontece no primeiro dia de lua cheia após o equinócio do
dia 21 de março. A cristã é no primeiro domingo de
lua cheia após 21 de março.”
Resumo feito, eu peço que aceitem meus melhores votos, endereçados
a quem tem fé ou não. Celebrem ao menos a esperança
de um viver digno para os indivíduos e seu meio ambiente, o que
estará de bom tamanho. Feliz renascimento a todos.
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