Psicologia do Esporte
Entenda a relação entre corpo, mente, saúde e bem-estar

Os cinco elementos essenciais à concentração
por Renato Miranda

Um dos assuntos mais discutidos e estudados no esporte é sobre a importância da concentração no rendimento do atleta. A concentração é uma habilidade tão significativa no desempenho do atleta que extrapola o meio esportivo. Significa que várias estratégias de orientação e melhoria da concentração são dinamizadas além do esporte e muitos procedimentos, de maneira pertinente, são reverberados em vários setores de nossas vidas, como na administração de empresas, na indústria, no meio acadêmico, nas artes, na mídia e outros.

Por se tratar de assunto muito em voga e instigante dividirei minhas ideias em dois textos. Em um primeiro momento os componentes que formam o conceito de concentração serão abordados e no segundo texto falaremos sobre os fatores que auxiliam e aqueles que prejudicam a concentração. Em suposto, no final dos textos você terá bons instrumentos para treinar e melhorar sua concentração, ou ao menos, entender um pouco mais sobre essa habilidade psicológica de grande relevância.

O que é concentração?

Concentração é capacidade pessoal de provocar um estado de sensibilização para ficar em alerta, selecionando unidades importantes de informação entre milhares disponíveis. Ao mesmo tempo, bloquear o impacto de sinais irrelevantes e focar sinais relevantes da tarefa, direcionando os pensamentos para o plano de ação.

Os componentes que formam o conceito de concentração podem ser assim resumidos: sensibilização, foco seletivo, manutenção do foco, consciência da situação e harmonia da excitação emocional.

1º) Sensibilização

Para iniciarmos o processo de uma boa concentração antes de tudo é necessário auxiliar nosso organismo (corpo/mente) a acionar da melhor maneira possível todos os órgãos sensoriais envolvidos na ação em questão para ficarmos ativos. Já reparou como os atletas antes da competição fazem exercícios respiratórios e movimentos com grande intensidade e de curta duração (saltito, agitação de braços e mãos, pescoço e outros). Isso por que para concentrarmos precisamos estar em alerta e perceber aquilo que é significante para nossa ação. Nesse sentido a sensação (registro dos estímulos feito pelos órgãos sensoriais) é considerada a primeira etapa da percepção. Ou seja, não há uma boa percepção sem um bom registro dos estímulos (sensação!), portanto, o primeiro passo para concentrarmos é manter nossos órgãos sensoriais em ótimo nível de funcionamento. Por isso é que se diz que aprender é perceber, sem percepção não há aprendizagem, pois não há concentração.

2º) Foco seletivo

Significa selecionar, no ambiente da ação e em nossa mente, entre os vários sinais (estímulos) disponíveis, somente aqueles que são significativos para a nossa tarefa e ao mesmo tempo desfocar todos os sinais irrelevantes.

3º) Manutenção do foco

Não é suficiente para uma boa concentração “apenas” selecionar aquilo que tem que ser focado, mas é necessário manter essa focalização do início ao fim da tarefa. E aí está uma grande exigência para o sucesso, manter o foco resistente até o fim da tarefa. Talvez seja isso que explica em parte, equipes e atletas que vão bem durante grande parte da disputa, mas por um momento perdem o foco o que significa dispersar energia psíquica e por vezes, é fator determinante para a derrota e frustração.

4º) Consciência da situação

Em poucas palavras é dominar a exigência técnica e o plano de ação (tática) daquilo que se tem a fazer ou parte do que se está aprendendo. Veja o exemplo: Posso saber como me concentrar, mas se me disserem para subir em um avião e saltar de para-quedas, não terei possibilidades nenhuma de concentrar por mais que eu saiba como fazê-lo, isso por que não tenho consciência de quais procedimentos, técnica e demais comportamentos que tenho a fazer e não seriam suficientes algumas instruções. Todo um processo de aprendizagem e treinamento prévios são condições para enfim poder concentrar.

5º) Harmonia da excitação emocional

Para atingir um bom nível de concentração além de tudo já dito, é preciso regular o estado emocional a fim de evitar tensões, apreensões, nervosismo e outros sentimentos correlatos. Esses sentimentos invadem a nossa mente geram aflição e pensamento negativo, causando impedimento para organizar e sistematizar nossas ações. Assegurar sentimentos compatíveis com a tarefa a ser realizada é pré-requisito para liberar nossa energia psíquica de maneira positiva e só assim será possível concentrarmos de fato. Portanto, nível adequado de relaxamento, controle do estado de ansiedade, confiança e motivação adequada, por exemplo, fazem com que a mente tenha condições favoráveis de “trabalhar suavemente”, com precisão e com pensamentos positivos.

É preciso uma ótima harmonização do estado de excitação emocional, a fim de focar pensamentos positivos e desfocar pensamentos negativos.

Quando entendemos esses elementos que compõem o conceito de concentração damos o primeiro passo para melhorarmos nossa capacidade de agir com eficácia. Os esportistas altamente especializados sabem exatamente o valor e como melhorar a concentração. Tanto é assim que muitos especialistas em esporte frequentemente são convidados a auxiliarem profissionais de outras áreas que enfrentam competição e uma exigente rotina de trabalho.

Para finalizar, é válido refletir que sem concentração não conseguimos realizar nenhuma atividade de alto rendimento. Uma atividade sem concentração ideal é uma atividade sem intensidade e sem coerência, portanto, sem qualidade.

 

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Renato Miranda
é graduado em Educação Física (UFJF) e possui mestrado e doutorado em Psicologia do Esporte com especializações: Escola Superior de Esporte Alemã e Instituto de Cultura Física de Moscou, prof. de Ed. Física da UFJF, Secretário de Esporte e Lazer da Prefeitura de Juiz de Fora.
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Renato Miranda e Maurício Bara
'Construindo um Atleta Vencedor'- Editora Artmed

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