| "Querer convencer
seus leitores de que somos controladores dos processos de nossas vidas
pode ser até uma boa estratégia do tipo: “Vá
lá e assuma o comando!” Isso não é verdadeiro.
Existem fatores de imponderabilidade que podemos atribuir a vários
agentes: Deus, o diabo, a natureza, o código genético,
ou simplesmente a acidentes" |
Uma cliente estava me falando a respeito de
um livro escrito por um grande guru de origem indiana. Ele dizia que
o universo é perfeito e que nós somos exatamente aquilo
que produzimos mentalmente e projetamos no Cosmo. Ela foi
vítima de paralisia infantil quando era bem menina e sofre
naturalmente até hoje as consequências dessa doença.
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Fiquei pensando nisso e observei
que em termos cósmicos não existe essa perfeição
alardeada por tantos gurus da autoajuda.
Galáxias colidem entre si gerando destruição e caos,
que mais tarde vai se transformar em ordem para depois começar
tudo de novo. Alguns sistemas funcionam bem (de qual ponte de vista cara
pálida?) outros nem tanto (idem), mas percebemos que tanto lá
no macrocosmo quanto no nosso microcosmo acidentes acontecem, ou como
diz o meu filho shit happens!
Concordo que grande parte do que somos ou de onde estamos na vida se deve
aos modelos mentais adotados. Acredito, porém que uma parte daquilo
que nos acomete se deva a acidentes e a forças que nos são
superiores e obviamente estão além do nosso poder de controlá-las.
Das balas perdidas a acidentes genéticos e tsunamis, a história
da humanidade está marcada por essa estranha correlação
de forças.
Quando os neandertais e os cro-magnon se defrontaram num passado
distante, não se podia dizer que o neandertal por ser menos aquinhoado
de massa encefálica fosse o responsável por sua derrocada
diante de nossos ancestrais mais bem dotados de cérebro e agressividade.
Os atarracados e bem adaptados neandertais foram extintos e os cro-magnons
conseguiram perpetuar seu material genético.
Querer convencer seus leitores de que somos controladores dos processos
de nossas vidas pode ser até uma boa estratégia do tipo:
“Vá lá e assuma o comando!”, mas não
é verdadeiro. Existem fatores de imponderabilidade que podemos
atribuir a vários agentes: Deus, o diabo, a natureza, o código
genético, ou simplesmente a acidentes.
Isso não quer dizer que esses autores estejam completamente errados.
Existe sim uma necessidade de assumirmos o controle daquilo que é
possível. Uma pessoa nascida autista, alguém que teve paralisia
infantil, ou que foi pego pelo Alzheimer, tem sempre uma margem de manobra
autooriginada e, se abdicar-se dela, estará retrocedendo no processo
evolutivo, estará dando um passo atrás na direção
do macaco que fomos.
Por isso é tão importante para todos aqueles que não
foram vítimas das balas perdidas do destino, o esforço máximo
para não agir como se fossem deficientes físicos ou mentais.
Acidentes acontecem, mas quando estamos dentro da não acidentalidade
podemos e devemos assumir as rédeas de nossas vidas.
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