| Vira
e mexe a mídia veicula matérias associando corrupção
à doença mental. Já vi reportagens classificando três
subtipos de corruptos: o corrupto anti-social, o corrupto borderline e o corrupto
narcísico, fazendo-se um elo de ligação com os transtornos
de personalidade (TP). Vou começar definindo de maneira clara
e correta o que é um Transtorno de Personalidade (TP). A personalidade
é a síntese de nossos comportamentos, cognições e
emoções que faz de cada um de nós uma pessoa única.
Estes atributos tendem a ser estáveis e permanentes, permitindo que nossos
familiares, amigos e conhecidos possam prever como nós reagiremos a uma
dada situação e permite a eles nos descrever para outras pessoas.
Embora nossa personalidade tenha esta característica de estabilidade
e permanência, a ponto de que nossa reação, a determinadas
situações possa ser previsível, a pessoa com uma personalidade
saudável demonstra uma grande variedade de respostas às situações
de vida e, principalmente, às situações estressantes.
Um transtorno de personalidade ocorre quando uma pessoa não pode mostrar
tal flexibilidade e adaptabilidade. A falta de adaptabilidade e o limitado repertório
de respostas frente às situações comuns de vida, e principalmente
daquelas mais estressantes, torna-se uma importante fonte de sofrimento para o
indivíduo e para os que estão à sua volta. Sou muito
favorável aos esclarecimentos prestados à comunidade, mas desde
que os esclarecimentos sejam apenas esclarecimentos baseados em dados científicos.
Não acho correto que alguns conhecimentos possam servir para desculpar
ou ainda justificar as pessoas pelas crueldades e roubos que cometem.
Os transtornos de personalidade tornam-se reconhecíveis na adolescência,
ou às vezes antes, e permanecem pela maior parte da vida adulta. São
padrões desadaptados, inflexíveis, muito enraizados e de severidade
suficiente para atrapalhar o funcionamento da pessoa e trazem muito sofrimento.
| "Sou
muito favorável aos esclarecimentos prestados à comunidade, mas
desde que os esclarecimentos sejam apenas esclarecimentos baseados em dados científicos.
Não acho correto que alguns conhecimentos possam servir para desculpar
ou ainda justificar as pessoas pelas crueldades e roubos que cometem" | O
diagnóstico de transtorno de personalidade pode indicar que o paciente
tem um elevado risco para cometer suicídio, afeta o curso e prognóstico
de doenças co-existentes, destaca importantes fatores
etiológicos - causadores - informa ao clínico acerca da
evolução e prognóstico do paciente, indica áreas de
importante disfunção nos papéis sociais, familiares e ocupacionais
e ajuda o clínico na administração global do tratamento. |
O
texto ficaria muito extenso se eu fosse falar de todos os transtornos de personalidade,
incluindo estes e outros. Irei falar do transtorno de personalidade borderline
por ser o mais intrigante, misterioso e desafiador de todos. Depois dele, um dos
mais importantes, sem dúvida, é o transtorno de personalidade anti-social.
Entre as principais características do anti-social temos: desrespeito
brutal aos direitos e sentimentos dos outros, ausência de sentimento de
culpa e remorso, insensibilidade com os outros, incapacidade de planejar o futuro,
incapacidade de aprender com a própria experiência de erros e fracassos
Transtorno de personalidade
borderline - TBP O borderline, do inglês "fronteira",
é caracterizado por uma fragilidade psíquica importante predominantemente
em mulheres. A pessoa sente-se abandonada ou rejeitada, tornando-se auto ou hetero
agressiva, verbalmente e até fisicamente em casos extremos com liberação
de emoções e impulsividade. Por que o transtorno de
borderline atinge mais as mulheres? É ainda um assunto controverso.
As mulheres costumam, em geral, sofrer mais intensamente do que os homens, por
questões vivenciais, culturais, de personalidade e sociais, de um sentimento
de abandono, real ou imaginado. Seja qual for, tal sentimento de abandono detona
a impulsividade e a instabilidade afetiva, duas características principais
do transtorno de personalidade borderline. O borderline é uma doença
do vínculo, as mulheres sofrem mais. Nas
mulheres, é mais comum a auto-agressão e automutilação.
Os critérios atuais que os médicos devem usar para
diagnosticar um transtorno borderline da personalidade são os do DSM-IV
(Manual Diagnóstico e Estatístico em Saúde Mental, da Associação
de Psiquiatria Americana). Entre os critérios temos: Um
padrão difuso de instabilidade das relações interpessoais,
auto-imagem e afetos, com acentuada impulsividade começando no início
da vida adulta, e presente numa variedade de contextos, como indicado por cinco
(ou mais ) dos seguintes: 1
- Esforços desesperados para evitar abandonos
reais ou imaginários das pessoas próximas ou mesmo no trabalho e
escola.
2 - Um padrão de relações interpessoais instáveis
e intensas caracterizadas pela alternância de extremos
de idealização e desvalorização. Por exemplo, refere-se
à forma como, por exemplo, a mulher vê o outro (marido) no contexto
do relacionamento afetivo, ora idealizando-o (ninguém tem o poder de manter-se
intacto com tanta idealização, ninguém é perfeito),
ora desvalorizando as atitudes do outro. Tais comportamentos geram frustrações
e sentimentos de abandono, detonadores dos impulsos dos borderlines.
3 - Perturbações de identidade: Auto-imagem
e sentido de self (sentido de ser a própria pessoa, contato com
a interioridade) acentuadamente e persistentemente instáveis.
4 - Impulsividade em pelo menos duas áreas que são potencialmente
lesivas à pessoa (self ): compras, sexo, abuso de substâncias, direção
perigosa e exageros alimentares. 5 - Comportamento suicída
recorrente, com tentativas e ameaças ou comportamento auto-mutilantes.
6 - Instabilidade afetiva devida à acentuada reatividade de
humor (por exemplo disforia episódica - tristeza
acompanhada de irritabilidade e ansiedade esporádicos. intensa, irritabilidade
ou ansiedade usualmente durando poucas horas e só raramente mais que uns
poucos dias). 7 - Sentimentos de vazio crônicos.
8 - Raiva inapropriada e intensa ou difícil de controlar (por exemplo
ataques freqüentes de mal humor, raiva constante, agressões físicas
repetitivas). 9 - Ideação
paranóide passageira, relacionada ao estresse ou sintomas dissociativos
severos. Na ideação paranóide a pessoa se sente
prejudicada ou até mesmo perseguida pelas atitudes do outro.Tudo é
indício e reforço do sentimento grande de abandono percebido pelo
borderline. Sintomas dissociativos referem-se a sintomas relacionados a conflitos
inconscientes não elaborados. Dissociação é uma interrupção
da integração das funções da consciência, da
memória, da identidade e da percepção do ambiente. Como parte
do processo de dissociação os sintomas podem incluir despersonalização
- a sensação do processo mental estar separado do resto do corpo,
ou desrealização - a experiência em que o mundo parece estranho
ou irreal. Ambas as situações estão relacionadas a estados
de ansiedade. Há pessoas que chegam a ter perda de memória, paralisia,
dores musculares. Ou seja, sintomas físicos na esfera somática,
na tentativa de "fuga" de tais conflitos psicológicos existentes.
Isso depende da estrutura de personalidade de cada pessoa, cada qual tem uma vulnerabilidade,
uma sensibilidade específica. É mais comum em momentos de muito
estresse. Tais pessoas geralmente têm poucos recursos para gerenciarem os
conflitos existentes. O diagnóstico
de borderline pelo médico continua sendo uma questão muito complexa,
apesar das diretrizes que em muito ajudam, e deve ser feito por profissionais
que tenham um sólido conhecimento dos transtornos de personalidade, um
método sistemático de avaliação e muita experiência
em lidar com pacientes com estes transtornos. Aspectos sociológicos, culturais
e antropológicos deveriam também ser enfatizados quando analisamos
a corrupção. É importante notar que o diagnóstico
de borderline é feito pela presença de uma variedade de traços
e não por um critério isolado. No entanto, merece ser destacado
no diagnóstico o esforço desesperado que o
portador do transtorno faz, para evitar o abandono real ou imaginário e
a gravidade das alterações das relações interpessoais,
sejam na família, escola, trabalho e lazer e, posteriormente, estas
perturbações aparecem também com os profissionais que se
aproximam para oferecer tratamentos. A característica mais comum
da pessoa portadora deste transtorno é a de uma pessoa com graves alterações
em várias áreas do seu funcionamento: -
Escolaridade interrompida, sem uma carreira profissional definida. Os
objetivos mudam rapidamente e nada é levado adiante. São pessoas
que estão muito defasadas com os pares
que não tiveram interrupções
nas suas metas. Tais pessoas ficam prejudicadas nas suas
evoluções pessoais e profissionais, quando comparadas com o cônjuge,
que geralmente, mantêm o curso natural da vida, independente do processo
de doença. Toda doença mental prejudica o constante crescimento
interno, as pessoas ficam estagnadas, isso gera, quando não há o
tratamento adequado, uma defasagem ampla em relação ao parceiro
(a) não acometido (a). Tal situação costuma gerar vários
atritos. - Relações interpessoais muito perturbadas dentro
da família e fora dela. Brigas constantes e agressões físicas
não são raras. Qualquer atrito com um chefe ou supervisor adquire
uma proporção muito grande, levando o abandono do trabalho. A relação
com professores é complicada e tumultuada, dificultando o prosseguimento
de estudos. As relações de amizade são quase inexistentes.
- É freqüente o envolvimento com bebidas alcoólicas e
outras drogas, o que às vezes leva a extremos de violências e envolvimento
em atividades ilegais. A droga é um grande complicador para quem já
tem um funcionamento bastante precário. -
Histórico de tentativas de suicídio e ameaças constantes
em relação a esta possibilidade. Algumas são tentativas sérias
e outras são apenas para manipular e controlar pessoas
à volta. - Condutas automutilantes
como cortes e queimaduras. - Variação muito grande no humor,
com freqüentes ataques de fúria, que em geral são de curta
duração. - Condutas manipulativas - os borderlines estão
sempre negociando com as pessoas à sua volta, não para obter vantagens
ou tirar proveito dos outros, mas para tentar uma afirmação de si
próprios. Eles parecem estar sempre perguntando ´´Quem está
no controle da definição desta situação, de mim mesmo.
E da realidade?`` Como ficam extremamente fixados nesta questão
do exercício de controle, de poder e competência, há um grande
prejuizo para as relações interpessoais e a conquista de realizações
pessoais e materiais.
Em resumo, são pessoas que tem seus familiares
e pessoas próximas aterrorizadas por suas condutas agressivas, sua imprevisibilidade,
suas rápidas mudanças, seus ataques de ira, suas ameaças
de uicídio, de automutilação e provocação de
acidentes. E o mais complicado, é que tudo isso se alterna com momentos
em que a pessoa é afavel e carinhosa. O início das manifestações
do transtorno de personalidade borderline ocorre na adolescência ou início
da vida adulta (raramente antes). É um início tumultuado, explosivo,
com grandes manifestações de cóleras e condutas muito agressivas,
comportamentos perturbadores e destrutivos, ameaças de agressões,
de suicídio e automutilação. São frequentes
as agressões verbais e físicas a familiares e pessoas próximas.
Podem ocorrer fugas e envolvimento com drogas, furtos em casa e fora dela.
Frequentemente, há a necessidade de internação nesta
fase. Quando ela ocorre, a pessoa pode permanecer até dois anos após
a alta, ainda com várias áreas de funcionamento prejudicados. Os
cinco primeiros anos são em geral os mais complicados. Uma pergunta
que sempre passa pela cabeça das pessoas é como este transtorno
se inicia e também, se devido às suas manifestações,
podemos dizer que a situação é muito desesperadora e que
as perspectivas futuras serão negativas? Os conhecimentos mais
recentes mostram que, mesmo com toda a conturbação e sofrimento
que o portador do TBP causa a sí próprio e a seus familiares, o
curso do transtorno não é tão negativo como se pensava antes.
Hoje, sabemos que o risco maior de completar o suicídio no TBP é
nos 5 a 7 anos do início da manifestação. Depois, o risco
cai muito. Sabemos também que 10% das pessoas com TBP completam o suicídio.
Isto nos permite ver as possibilidades de melhora e mudanças no curso
do TBP de uma maneira mais otimista do que era visto no passado. Tudo isto tem
uma boa repercussão ao manter a esperança nos médicos, nos
pacientes e nos familiares. São tratamentos complicados e freqüentemente
invadidos pelas dificuldades de relações interpessoais do portador
do TBP. Fazer o médico fracassar em suas tentativas de ajudar, torna-se
geralmente o item mais importante. As queixas e reclamações são
frequentes e, em seis meses, a metade dos pacientes que inicia um tratamento já
terá abandonado. Estima-se que apenas 10% dos pacientes façam um
tratamento até o final. Os tratamentos que apresentam os melhores
resultados são aqueles que envolvem psicoterapia, medicação
(quando indicado), orientação ou terapia familiar e medidas de reabilitação.
Esses procedimentos diminuem o sofrimento do portador do TBP, ajudam as famílias
que estão na linha de frente de problemas muito difíceis e ajudam
o paciente a transpor o período mais tumultuado de seu transtorno. Aqueles
que ultrapassam o período de maior risco de suicídio, automutilação
e envolvimento com drogas, têm mais chance de chegar ao período de
estabilização. Os tratamentos servem
também para criar conhecimentos e desenvolver a experiência dos profissionais
envolvidos neste trabalho, com benefícios para os pacientes que virão.
Compreender a origem ou as causas dos transtornos de personalidade é
uma das áreas de maior desafio para pesquisadores e clínicos. Os
modelos causadores devem ir além das relações lineares de
causa-efeito para integrar um espectro de fatores bio-psico-sociais. Em relação
às causas, devemos ressaltar que os fatores genéticos desempenham
um papel importante. O TBP é cinco vezes mais freqüente
em pessoas que tem um parente de 1º grau com o transtorno. O impacto do ambiente
familiar no desenvolvimento da criança também é um fator
causal importante. Cerca de 80% dos pacientes com TBP vêem o casamento de
seus pais como sendo de natureza conflitual. Por fim, fatores sociais mais amplos
tais como mudanças sociais rápidas - que interferem na transmissão
intergerações de valores - têm um papel causal, além
dos fatores psicológicos e constitucionais. Os atendimentos clínicos
e as pesquisas mostram consistentemente que a carga suportada pelos membros da
família afetam a comunicação e o desempenho dos papéis
familiares, trazendo tensões enormes que podem levar a separações
conjugais e outros problemas na convivência familiar. Encerrando
este artigo sobre TPB, motivado pelas matérias que associam doença
mental à corrupção, envolvendo três tipos de transtornos
de personalidade, inclusive, o borderline, observo um triste contraste: estamos
diante de uma população que aposta e se baseia na proteção
dos direitos humanos e, ao mesmo tempo, ocorre uma violação sistemática
destes direitos, quando tentam justificar grande parte dos roubos e da corrupção
através dos critérios diagnósticos dos transtornos mentais.
Há que se ter muito cuidado em assuntos tão complexos.
Do mesmo modo que precisamos considerar e nos responsabilizar pelos corruptos
que nós elegemos para o nosso país, precisamos considerar também
que é injusto e estigmatizante, para todos os portadores de transtornos
mentais, considerarmos tais corruptos, autores de graves infrações
penais, como pessoas que têm sempre algum transtorno de personalidade. Tal
generalização é extremamente deletéria. |