| "A criança gordinha
e a criança obesa tendem a se transformar no adolescente gordinho
e no adolescente obeso, alvos certos de gozações, chacotas
e bullying. A nossa cultura, a nossa sociedade, os nossos tempos cultuam
o magro e discriminam o gordo. Além dos problemas de saúde,
acrescem-se os problemas com a autoestima, tornando a sobrevivência
muito difícil nos grupos sociais" |
Em artigo recente na revista “Pesquisa”
da FAPESP, Carlos Fioravanti escreve sob o titulo “Coma menos,
filho” sobre as mães que nem sempre reconhecem quando
suas crianças estão acima do peso. |
O jornalista comenta uma pesquisa da Universidade Federal
do Espírito Santo, na qual é revelado que apenas 10% das
mães de crianças, com sobrepeso ou obesidade, reconheceram
que seus filhos estavam realmente pesando acima do normal para a altura
e para a idade.
As crianças com excesso de peso, tendem com alta frequência
a apresentar problemas de pressão arterial, o que é um risco
importante para doenças cardiovasculares, que é a principal
causa de morte na população brasileira.
Calcula-se que 23,3% da população de crianças no
Brasil, segundo essa pesquisa, tenha atualmente peso acima da normalidade.
Pode-se perguntar por que as mães não reconhecem quando
seus filhos estão com peso acima do desejável. Poucos anos
atrás, propagava-se a crença que bebês gordinhos eram
bonitos e bem saudáveis. As mães eram congratuladas quando
tinham bebês com “dobrinhas” nas articulações,
e quando tinham bebês que “enchiam” o berço.
Existia a suposição que o bebê e as crianças
deveriam ter peso a mais, pois teriam uma reserva caso ficassem doentinhos.
Jamais seria proposto o “Coma menos, filho”, mas sim o “Coma,
pelo amor de Deus”.
Por gerações, as crianças se aproveitaram do “Coma
pelo amor de Deus” e a recusa a comer tornou-se uma estratégia
para manipular o comportamento da casa e testar os limites de pais, desesperados
quando não conseguiam alimentar seus filhos.
Atualmente, temos um cenário diferente. Estima-se que um terço
da população do mundo faz regime e dois terços passa
fome. A distribuição de riqueza demais heterogênea
cria uma situação onde sobra alimentos para um grupo e há
escassez para outro. Isso repercute na infância. Onde falta alimentos
não existe transtornos alimentares, mas onde esses abundam, a tendência
aos distúrbios relativos à alimentação aumentam,
mesmo em crianças bem jovens.
Observa-se que hábitos inadequados, qualidade ruim na alimentação
e lazer mais sedentário é compartilhado pelas crianças
e por seus pais. A merenda escolar das escolas, que atendem às
populações de renda mais baixa, assim como as cantinas das
escolas particulares, oferecem às crianças alimentos com
alto valor calórico e baixo valor nutritivo.
Alimento é reforço primário e está relacionado
a afeto. Assim recusar o doce, o salgadinho, o refrigerante, a batatinha
ao filho é sempre doloroso. Mais difícil ainda é
quando se tem um filho gordinho e um filho magrinho, o que é frequente
acontecer. Que fazer?
Uma alimentação de rotina saudável, equilibrada é
benéfica sempre para todos da família. Excesso de gorduras,
de açúcares deve ser evitado, sabe-se hoje em dia. O comer
bem é necessário à saúde e a relação
com a comida precisa ser prazerosa, para gordinhos e magrinhos. Cuidado
com o comer por ansiedade, com o comer para buscar compensar frustrações!
O resultado é sempre catastrófico!
A criança gordinha e a criança obesa tendem a se transformar
no adolescente gordinho e no adolescente obeso, alvos certos de gozações,
chacotas e bullying. A nossa cultura, a nossa sociedade, os nossos tempos
cultuam o magro e discriminam o gordo. Além dos problemas de saúde,
acrescem-se os problemas com a autoestima, tornando a sobrevivência
muito difícil nos grupos sociais.
Crescer com apelidos como “baleia” , “hipopótamo”
não ajuda à valorização de ninguém.
Se a criança come por ansiedade, por fuga ou por mau hábito,
ela precisa ser ajudada na raiz de seus problemas e a verbalização
“Coma menos, filho” pode ser a expressão de pais conscientes,
que desejam o bem para seus filhos, ainda que às custas de não
dar um “docinho”.
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