| Tecnicamente, a
expressão “crise maníaca”, diz respeito a um
estado de exaltação emocional, agitação psicomotora,
taquipsiquismo (pensamentos encadeados em enorme velocidade), idéias
deliróides (distorções da realidade, normalmente
na direção da onipotência, dependentes do mencionado
estado de exaltação) etc., etc. Francisco, em pleno surto
maníaco, pega dinheiro do pai e sai tentando distribuí-lo
pelas pessoas na rua. As velhinhas classe-média se assustam e recusam,
os mendigos, naturalmente, adoram. Chegando à sessão, me
dá uma nota de cinqüenta, e inicia-se o seguinte diálogo:.
FRANCISCO: — Eu sou uma empresa.
LC: — Sim.
FRANCISCO: — Você também é uma empresa.
LC: — Sei.
FRANCISCO: — E, como empresa, eu estou investindo na sua empresa.
Esses cinqüenta reais são o investimento inicial.
LC: — Obrigado.
FRANCISCO: — Fiz vários investimentos no caminho. Parei uma
senhora que cata papel perto da minha casa e expliquei a ela que ela é
uma empresa e que minha empresa estava dando cinqüenta reais a ela
a título de investimento.
LC: — Ela aceitou?
FRANCISCO: — Claro!
LC: — Que bom. Gostaria de saber o objetivo de sua empresa, para
nós podermos avaliar, ao longo do tempo, se ela está ou
não dando certo.
FRANCISCO: — É fazer as pessoas ficarem felizes!
LC: — Entendi. Não é uma coisa muito simples de ser
feita, mas pode-se tentar e ir avaliando os resultados.
Dizia Freud: “É inútil interpretar comportamento bem-sucedido”.
Era mais do que óbvio que Francisco estava considerando seu comportamento
um sucesso. Pôr isso em dúvida, naquele momento, não
seria apenas inútil, seria cruel. Mas, naturalmente, eu nada perderia
por esperar...
Com efeito, três dias depois, sou acordado de madrugada pelo toque
de meu celular. Era o pai de Francisco. Meu paciente estava a horas rodando
pela casa aos berros, os vizinhos já estavam desesperados com a
confusão, ele não deixara seu pai completar trabalhos que
trouxera para fazer em casa, jogara um copo d’água na cara
da irmã, que estava literalmente enfurecida etc., etc., etc. Fui
para lá. Francisco aquietou-se ao saber que eu estava indo. Encontrei-o,
estranhamente quieto, sentado em um divã:
LC: — Bem, numa primeira avaliação, sua empresa está
sendo um fracasso, no que diz respeito ao objetivo de fazer os outros
ficarem felizes: os vizinhos estão enfurecidos porque não
conseguem dormir, seu pai está enfurecido porque você não
deixou ele trabalhar, sua irmã está enfurecida porque você
jogou água na cara dela e EU ESTOU ENFURECIDO porque tive que levantar
no meio da noite para vir até aqui!
Começou a chorar. E pudemos começar a tentar entender o
que estava acontecendo...
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