| O terreno limpo,
aplainado, e a terra fofa aguardando o plantio trouxeram à Camila
uma sensação de bem-estar, como se houvesse se livrado de
toda erva daninha; aquelas que insistem em nos incomodar. Agora era só
colocar os tufos de grama, regar periodicamente, até ver estendido
o tapete verde. Seria feliz para sempre.
| "O que foi, ou está posto,
não muda simplesmente porque encontramos o seu ponto de origem,
que, aliás, pode ser a conjunção de vários
fatores; mas podemos, isto sim, alterar a influência que exerce
sobre nós, a partir do momento em que passamos a lhe conferir
outro valor..." |
A alegria durou até que folhas estranhas irrompessem
daqui e dali. Teria sido o vento, o passarinho xereta, o responsável
por transportar as sementes indesejáveis? Talvez já
estivessem por lá, sem se dar a conhecer. Pouco importa. Enquanto
Camila se preocupava em identificar quem empanava sua felicidade,
o mato crescia, cobrindo o gramado. Mesmo que descobrisse, não
pararia o tempo, o vento, nem exterminaria a passarada. |
Qualquer experiência de vida nos mostra que não
há como manter o terreno limpo, imaculado, ainda que estejamos
atentos às intromissões, sejam na erupção
de raízes profundas, despertadas em retornos a vivências
desagradáveis, sejam provocadas por situações pontuais,
momentâneas, ou aquelas às quais nos sentimos presos. Não
nos é dado o privilégio da plenitude inabalável;
cavamos alguns desses momentos no cotidiano, a duras ou leves penas. Seja
dentro, fora, alguma coisa está lá prestes a nos perturbar.
É uma conjuntura da qual não se pode escapar, mas é
possível, sim, amenizar seus efeitos. Cada um a seu modo.
O primeiro passo, me parece, é parar de procurar culpados.
Ninguém nega a importância em se conhecer o que, dentre as
condições internas e externas, atrapalha nosso bem-estar;
perigoso é ficar mergulhado nelas, utilizando-as, de algum modo,
para impedir transformações. Chega o momento em que é
necessário deixar de culpar a mãe, o pai e quem mais for,
ou as circunstâncias irremediáveis, pelo que deu errado em
nossa vida. Continuará dando, se não mudarmos o foco.
O que foi, ou está posto, não muda simplesmente porque encontramos
o seu ponto de origem, que, aliás, pode ser a conjunção
de vários fatores; mas podemos, isto sim, alterar a influência
que exerce sobre nós, a partir do momento em que passamos a lhe
conferir outro valor, começando a pensar, por exemplo, no que resultou
positivo de uma experiência que naquele instante tenha sido traumática.
Há sempre um outro lado da coisa.
Na pressa para encontrarmos um culpado, esquecemo-nos, inclusive, que
outra pessoa poderia reagir de modo diferente ao evento, havendo, portanto,
sempre muito de nós fazendo as coisas serem como são.
A referência para se iniciar um processo de transformação
não diz respeito ao que o outro fez ou faz comigo, mas ao que eu
estou fazendo por mim. Enquanto gastamos energia buscando os responsáveis
pelos nossos infortúnios, perdemos a oportunidade de reconhecer
em nós as possibilidades de saída.
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