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| "Dessa forma, será
sempre parcial nos referirmos aos aspectos "positivos ou negativos"
das novas tecnologias de forma isolada. Seu caráter benéfico
ou prejudicial dependerá - sempre - da maneira como estiver
sendo utilizada por nós. Cabe ao ser humano criar e desenvolver
o senso crítico e as adequadas formas da sua utilização" |
A difusão das novas tecnologias informatizadas
gerou muitas mudanças em nossa sociedade. Quem não se
lembra do tempo que usávamos discos de vinil, fitas cassetes,
fitas de vídeo e filmadoras? Parece que foi há muito
tempo, mas tudo isso era usado há cerca de 15 anos. Desde então,
trocamos o vinil pelo cd e o cd pelo MP3. Ficou muito mais fácil
ouvir seu artista predileto: é só baixar pela internet
o arquivo em MP3. |
Tivemos também a invasão dos telefones celulares, dos computadores
que ficam cada vez menores, câmeras digitais, pen drives, iPods e
etc. Muitas vezes nem percebemos, mas quase tudo que fazemos atualmente
na rotina diária envolve o uso de algum recurso dessa tecnologia.
Basta ficarmos sem energia elétrica para nos darmos conta dessa condição.
A internet difundida a partir de 1995 também trouxe grandes mudanças
na sociedade: informações sobre temas variados circulam
muito mais rapidamente pela rede, conectando amplamente as pessoas de,
praticamente, qualquer ponto do globo terrestre.
Wall-E: o robô emotivo
O filme Wall-E (2008), - animação dirigida por Andrew
Stanton, criador de Procurando Nemo - propõe uma reflexão
sobre essas transformações, oferecendo uma visão
- ainda que fantasiosa - sobre o que poderá acontecer com a Terra
se a utilização da tecnologia continuar ocorrendo de forma
pouco consciente pelos seres humanos.
O filme começa com uma tocante visão panorâmica do
planeta Terra completamente tomado por torres de lixo. A terra ficou tão
poluída, que os humanos tiveram que passar a viver em uma nave,
vagando no espaço, deixando aqui um exército de robôs
encarregados de compactar o lixo produzido pelos seus ancestrais. Assim
que a Terra tornasse habitável novamente, os humanos retornariam.
Por isso, de tempos em tempos, eles enviavam uma sonda à procura
do retorno da vida no planeta. Porém, após tanto tempo só
restou Wall-E, um dos robôs encarregados da faxina da Terra. Mas,
Wall-E parece ser um robô diferente: ele parece ser curioso e interessado,
brinca com o lixo, buscando sua funcionalidade. E quando encontra algo
que lhe agrada, guarda o objeto em um pequeno depósito - o local
onde ele descansa e recarrega as energias, uma espécie de casa.
No momento de descanso, ele se autoembala, como uma criança antes
de dormir. Ele se mostra emotivo e afetivo, pois se encanta com filmes
e demonstra medo durante uma tempestade. Sua única companhia é
uma barata de estimação, Spot.
Após muito tempo sozinho compactando lixo, uma nave chega à
Terra e desembarca mais uma sonda à procura de vida, "a"
robô Eve. Wall-E parece muito interessado nessa nova companheira
e começa a tentar fazer amizade, mostrando-lhe os seus guardados,
retirados do lixo, e, dentre esses, acaba lhe mostrando uma frágil
planta que Eve recolhe, para em seguida, ser resgatada pela nave. Inconformado,
Wall-E se agarra à nave - única forma de seguir Eve - e
acaba chegando ao local (a nave) onde estão os humanos.
Esse abrigo dos humanos é bem semelhante a um navio de cruzeiro,
dispondo de tanta tecnologia que não precisavam fazer nada, os
robôs faziam tudo por eles. Eles não se exercitavam, e nem
ao menos caminhavam. Eles não se movimentavam para fazer absolutamente
nada. Até mesmo a comunicação entre eles se dava
online via computador, por meio de uma ferramenta de comunicação
visual. Eles nem sequer olhavam ao seu redor, passando a não "ver"
mais as próprias pessoas com quem apenas conviviam, lado a lado.
Há diversos simbolismos implícitos e/ou expressos nas imagens
do filme, mas gostaria de enfatizar e refletir sobre um desses aspectos:
a relação dos humanos com a tecnologia e suas possíveis
implicações para a humanidade. Gostaria de propor aqui uma
reflexão que nós do NPPI costumamos fazer com frequência:
como se dá a relação do homem com a tecnologia?
O filme Wall-E coloca uma visão crítica dessa relação,
utilizando a inversão de papéis: Wall-E é um robô
que parece humano, enquanto os humanos parecem bebês dependentes:
não andam, não olham para os lados, não se alimentam
sozinhos, não trocam suas vestimentas sem o auxílio das
máquinas. Parece que o "homem" retratado no filme não
pensa, simplesmente vive de forma "mecanizada".
Mas, não precisamos avançar muitos anos como no filme, basta
olharmos ao redor hoje mesmo, as crianças que brincam dentro de
casa com seu game: não andam, nem correm; nem ao menos piscam,
hipnotizadas por um dos seus lazeres favoritos. Seus brinquedos falam,
andam, emitem sons... Há trinta anos, as crianças brincavam
no parquinho, corriam, pulavam, brincavam no gira-gira, jogavam bola,
empinavam pipa. Muitas crianças desta "sociedade tecnológica"
mal reconhecem a graça desse tipo de brincadeira. Por este ângulo
podemos identificar um aspecto negativo dos atuais avanços tecnológicos,
pois as crianças que só se utilizam desses brinquedos, perderam
uma importante forma de vivência da criatividade.
E os adultos? Que mudanças a tecnologia trouxe para eles?
Bom, basta relembrar o que ocorre ao ficarmos algumas horas sem energia
elétrica: o que você consegue "fazer" nessa condição?
Boa parte dos adultos sequer consegue sair de casa, pois muitos portões
(ou os elevadores dos edifícios) são automatizados. Se você
já estiver fora de casa, provavelmente também ficará
em apuro, pois o trânsito das cidades costuma ficar caótico
nessas ocasiões (uma vez que os faróis param de funcionar).
Ou ainda, caso você consiga chegar a algum estabelecimento comercial,
será difícil até mesmo efetuar qualquer compra sem
o auxílio das máquinas de cartão. Quem hoje ainda
carrega dinheiro ou cheque?
Por outro lado, constatamos também os inúmeros benefícios
gerados para a nossa sociedade atual por essas mesmas tecnologias, a começar
pelas comunicações via internet, ampliando geometricamente
a velocidade das interações mundiais. Ou ainda, os inúmeros
avanços da medicina, da educação - entre outras áreas
de atividade - agora viáveis graças a esses mesmos recursos.
Dessa forma, será sempre parcial nos referirmos aos aspectos "positivos
ou negativos" das novas tecnologias de forma isolada. Seu caráter
benéfico ou prejudicial dependerá - sempre - da maneira
como estiver sendo utilizada por nós. Cabe ao ser humano criar
e desenvolver o senso crítico e as adequadas formas da sua utilização.
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