| Hoje no Brasil e no mundo, à
medida que aumenta a consciência para o envelhecimento populacional,
também aumenta a preocupação com o alcance de uma
velhice bem-sucedida. Com isso vários fatores estão envolvidos
para contribuir na busca por qualidade de vida com a longevidade, mantendo
a vida ativa, o corpo saudável e a mente lúcida.
| "Além dos anos
de educação, estudar e compor música, escrever
poesias, estudar uma língua estrangeira, praticar esportes,
pintura, teatro, dança, bordados, artesanato, entre outras
atividades que envolvem a mente fazem a diferença ao longo
da vida e ajudam a prevenir o desenvolvimento de déficits de
atenção, memória e de demências. Além
de um equlíbrio na alimentação, sono e atividade
física" |
É um sonho do ser humano manter a vida longa
com saúde física e mental e com o vigor da juventude.
Assim, podemos hoje lançar mãos de vários recursos
e orientações por causa dos estudos, tecnologias, informações
médicas, educacionais e sociais e divulgação
das pesquisas no campo do envelhecimento para uma velhice saudável
e satisfatória. E claro sem cair nos estereótipos e
nas atitudes preconceituosas em relação à velhice.
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Muitos aspectos relacionados à saúde física e mental
considerados típicos do processo de envelhecimento na maior parte
das vezes são atribuídos a fatores biológicos associados
à idade. Entretanto, nem sempre incapacidades, fragilidades, transtornos
entre outros processos negativos realcionados à saúde ocorrem
devido aos aspectos genéticos e pessoais ou porque são típicos
da idade. As variáveis biológicas, sociais e psicológicas
têm cada uma o seu peso.
Envelhecimento e desenvolvimento
O grande desafio hoje é ver o envelhecimento numa perspectiva de
desenvolvimento, isto é conciliar os conceitos de envelhecimento
e desenvolvimento ao longo da vida. Um bom desenvolvimento significa um
bom envelhecimento. Ou seja, o alicerce de uma boa velhice se encontra
na infância e na juventude. Isso quer dizer que desenvolvimento
e envelhecimento são processos concorrentes, significa que as mudanças
evolutivas classificadas como crescimento, ganho ou progresso e as que
apontamos como perdas e degeneração se fazem presentes da
infância à velhice. Trata-se de uma perspectiva em que vemos
a vida em toda a sua extensão e abrangência. Um pressuposto
teórico assumido pelos cientístas que trabalham numa perspectiva
multidimensional e multicausal do desenvolvimento e do envelhecimento
(NERI, 1995, 2001).
A velhice é vista como uma experiência heterogênea,
que comporta ganhos e perdas e é determinada por uma amplo espectro
de variáveis em interação. Ou seja, o envelhecimento
é determinado pela interação contínua de fatores
genético-biológicos, psicológicos e comportamentais,
do ambiente natural, fatores sócioculturais e históricos.
O contexto sócio-histórico-cultural é o que oferece
ao ser humano a oportunidade dessa interação contínua
de todas as variáveis que contextualizam o processo de envelhecimento
e que é fundamental à socialização e manutenção
das potencialidades.
Com relação à polêmica discussão sobre
os transtornos demenciais na literatura médica atual, as demências
são os transtornos mentais mais comuns entre os idosos (o que os
leigos costuma chamar de “esclerose” ou “caduquice”)
seguido dos transtornos depressivos, que numa outra ocasião irei
abordar sobre a prevalência de depressão em idosos.
Transtornos demenciais
Entre os transtornos demenciais mais comuns estão a doença
de Alzheimer, demência vascular, demência fronto-temporal,
demências subcorticais e demências reversíveis.
A demência é uma síndrome neuropsiquiátrica
caracterizada por alterações no cérebro de forma
degenerativa, pelo desenvolvimento de declínio cognitivo, alterações
de comportamento e da personalidade. O quadro é geralmente de natureza
crônica e progressiva, e os sintomas interferem de maneira significativa
nas atividades habituais da pessoa, nas atividades sociais e de trabalho.
Vamos ater-se no momento aos quadros mais comuns das síndomes demenciais
hoje na população idosa brasileira, a doença de Alzheimer
e a demência vascular.
Alzheimer e os primeiros sinais
Entre as alterações mais comuns nos quadros demenciais,
principalmente na doença de Alzheimer é o comprometimento
da memória e de mais uma função cognitiva (déficit
de atenção e concentração, dificuldade de
orientação temporal e espacial, dificuldade de julgamento,
raciocínio abstrato, linguagem e dificuldade de planejamento e
organização de atividades). Os esquecimentos são
os sintomas que tendem a ocorrer primeiro e que aumentam com o passar
do tempo. Nos estágios iniciais da doença, as alterações
de memória podem ser difíceis de detectar e difíceis
de diferenciar dos esquecimentos comuns que apresentamos com o envelhecimento
normal.
Alterações de comportamento (desinibição,
agressividade, inquietação) e outros sintomas psiquiátricos
(apatia, desmotivação, desinteresse, depressão, delírios
e alucinações) também são freqüentes
durante o curso clínico da doença. Muitos dos sintomas não
costumam ocorrer no início da doença, mas surgem com a evolução
do quadro.
É importante salientar que o diagnóstico de síndrome
demencial, segundo critérios diagnósticos bem estabelecidos,
é eminentemente clínico, por meio da histórica clínica
(os sintomas que a pessoas apresenta), do exame físico geral (reflexos,
psicomotricidade, exame neurológico), baseado em avaliação
objetiva do desempenho cognitivo e funcional (memória, linguagem,
raciocínio, praxia, funções executivas, etc...),
e por meio dos exames laboratoriais e de neuroimagem estrutural e funcional
(exames de sangue, tomografia computadorizada, ressonância magnética,
SPECT cerebral, etc...).
Alzheimer é a forma mais comum de demência
A doença de Alzheimer é a forma mais comum de demência
com aproximadamente 50% dos casos, atingindo em torno de 2,1% da população
com 70 anos de idade e chegando a 30,6% acima dos 80 anos e em 40-50%
após os 95 anos. Em estudo sobre a prevalência da doença
de Alzheimer em várias regiões do mundo, realizado por pesquisadores
da USP (Lopes e Bottino, 2002), em artigos internacionais, revelou um
predomínio no sexo feminino em 75% dos estudos avaliados, o predomínio
chega à razão de duas mulheres para um homem sem dados percentuais
significativos. Entretanto, outros estudos revelam predomínio no
sexo masculino entre os homens negros americanos.
Um outro estudo sobre a incidência da doença de Alzheimer
realizado com indivíduos brasileiros feito pela equipe do Dr. Ricardo
Nitrini e col. (2004) da USP também encontrou uma incidência
maior em mulheres, sendo a incidência mais elevada nas faixas etárias
avançadas (acima de 80 anos). Esses dados podem estar associados
ao fenômeno da femininazação da velhice que se caracteriza
pela maior proporção de mulheres idosas em todo o mundo.
Estudos internacionais confirma prevalência semelhante.
A doença de Alzheimer e os transtornos relacionados a ela afetam
24,3 milhões de pessoas no mundo e poderão atingir 81 milhões
até 2040. Mais de cem anos depois de sua descoberta, em 1906 pelo
médico alemão Alois Alzheimer, esta doença neurodegenerativa
é ainda incurável e os especialistas temem que o número
de doentes se duplique em 20 anos.
Existem fatores de risco bem definidos para o desencolvimento da doença
de Alzheimer, a redução do número de neurônios
com o avançar da idade, atrofia cerebral por acúmulo de
proteínas específicas no cérebro (peptídio
beta-amilóide responsáveis pela inflamação
dos neurônios e a proteína tau que forma os emaranhados nurofibrilares)
história familiar e fatores genéticos.
Demência vascular
Outra forma de demência também muito comum na população
idosa é a demência vascular, corresponde a 12 a 18% dos casos.
A demência vascular pode desenvolver devido a doenças cerebrovasculares
como os Acidentes Vasculares Cerebrais, o infarto cerebral (aterosclerose,
doença de grandes vasos e de pequenos vasos, isquemias, hemorragias
intracranianas, traumatismos cranianos alterações do metabolismo
cerebral podem estar associados à demência vascular).
Diversas doenças e fatores podem levar ao desenvolvimento de uma
demência. Entre elas estão os processos infecciosos, intoxicações,
diabetes, obesidade, hipercolesterolemia (colesterol alto), abuso de álcool,
hipertensão arterial, alterações da tireóide,
depressão, etc..
Um estudo realizado pela por Flroindo Stella e colaboradores da equipe
do Ambulatório de Psiquiatria Geriátrica da Unicamp publicado
no Journal of the Neurological Sciences que pesquisou os fatores
de risco para o desenvolvimento da demência vascular em idosos,
mostrou que dos 250 idosos com idade acima de 60 anos, 86% apresentam
fatores de risco importantes para a demência vascular. Tais como
depressão, hipertensão arterial, colesterol alto, problemas
cardiovasculares, diabetes e obesidade.
Entre outros fatores relacionados ao desenvolvimento da demência
estão os sociais e os educacionais. Pesquisas comprovam que o fator
educação tem grande importância no desenvolvimento
de habilidades e competências ao longo da vida, interferindo de
forma significativa na maneira como se dão as redes neurais. As
fases iniciais de escolarização é a fase mais importante
para desenvolver conexões neuronais no cérebro, também
o número de atividades de lazer e de atividades com valores artísticos
têm grande importância para o desenvolvimento de uma mente
com mais capacidade de associações, de habilidades visuo-espaciais,
raciocínio abstrato, memória, atenção e criatividade.
Educação e arte ajudam a prevenir demências
Desta forma, além dos anos de educação, estudar e
compor música, escrever poesias, estudar uma língua estrangeira,
praticar esportes, pintura, teatro, dança, bordados, artesanato,
entre outras atividades que envolvem a mente fazem a diferença
ao longo da vida e ajudam a prevenir o desenvolvimento de déficits
de atenção, memória e de demências. Além
é claro de um equlíbrio da alimentação, sono
e atividade física.
As modificações cognitivas que podem emergir no envelhecimento
dependem fundamentalmente da interação de variáveis
como tempo histórico, base biológica, fatores genéticos
e fatores ambientais. Fatores sóciodemográficos (gênero,
idade, nacionalidade, fatores socioeconômicos, etnia, escolaridade,
etc...) juntamente com fatores subjetivos como altos índices de
satisfação pessoal, auto-estima, e também atividade
física regular, ausência de hábitos prejudiciais à
saúde como tabagismo, controle de fatores de riscos e a existência
de maior rede de relações sociais são fatores que
associam com melhor desempenho e manutenção do funcionamento
cognitivo ao longo da vida.
A junção desses fatores é que determinam a boa qualidade
de vida. Quanto mais experiências e conhecimentos acumulados durante
seu desenvolvimento, mais cérebro terá para enfrentar desafios
e as adversidades com o processo de envelhecimento.
Assim podemos conciliar desenvolvimento e envelhecimento prevenindo-se
dos fantasmas e estigmas que assombram a velhice. O envelhecimento começa
quando nós nascemos, a partir do nascimento já construímos
o nosso “eu” na interação com os outros e começa
a construção de um curso de vida. Apesar da biologia ter
seu valor, a genética não faz nada sozinha, nossa mente
é uma mente social e histórica.
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