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Tenho um filho dependente de crack que foi pego roubando um carro
e está preso.
| "Devido à estreita associação
entre o consumo inadequado de substâncias psicoativas com as
atividades criminosas, torna-se imperativo o desenvolvimento de propostas
racionais para o tratamento médico e psicossocial de pessoas
que padeçam desse problema" |
Resposta:
Seguramente, a interface entre o consumo de drogas e as atividades
criminosas é tema bastante complexo. Uma das principais complicações
advindas do consumo de substâncias psicoativas são os
problemas com a justiça. Vários estudos ao redor do
mundo têm apontado o relacionamento estreito entre o consumo
de álcool e outras drogas com o crime. |
Uma das crenças mais comuns no meio “não médico”
é de que criminosos, em função do constante descumprimento
das regras sociais, acabam por ocupar-se, também, do lucrativo
negócio do uso e comércio de substâncias psicoativas.
Já no meio médico especializado em dependências químicas,
a crença predominante é de que a maioria dos agressores
usuários de drogas são, na realidade, indivíduos
que fazem uso inadequado de substâncias psicoativas e, em função
do abuso ou dependência, envolvem-se em atividades ilícitas
das mais variadas. De fato, as duas posturas têm sua razão
de ser, mas devem ser avaliadas com bastante cuidado.
Alguns estudos apontam três fatores de conexão entre o consumo
de drogas e as atividades criminosas:
a) Os próprios efeitos psicofarmacológicos
das substâncias provocariam comportamentos desadaptativos e violentos,
o que resultaria em atividades ilícitas;
b) As necessidades econômicas dos usuários
conduziriam a atos criminosos por parte do dependente, para sustentar
o próprio vício;
c) A própria violência associada ao tráfico
e ao mercado de drogas – crime organizado.
A literatura científica tem indicado que os efeitos psicofarmacológicos
das drogas, propriamente, não justificam a substancial proporção
da violência relacionada ao consumo das substâncias psicoativas.
As evidências dessa associação são muito fracas,
principalmente quando outros fatores, como os demográficos e os
antecedentes pessoais e familiares, são incluídos nas análises
como variáveis-controle. Os outros dois fatores de conexão
parecem contribuir para a mais significativa associação
entre uso de drogas e crime.
De fato, o relacionamento entre o uso de substâncias psicoativas
e a violência deve ser considerado dentro de um modelo comportamental
complexo. As categorias listadas abaixo identificam os principais fatores
atribuídos ao comportamento violento, com especial atenção
ao relacionamento droga-crime:
Influência dos antecedentes do delinquente
a) Antecedentes pessoais e familiares: histórias
pessoais de abuso físico/sexual, negligência, inadequadas
experiências de socialização, agressões durante
a infância e adolescência;
b) Antecedentes culturais: valores adquiridos, crenças
e normas internalizadas.
Condições recentes
a) Efeitos farmacológicos da droga consumida:
prejuízo cognitivo, labilidade emocional, agitação
psicomotora, fissura ou “craving”, irritabilidade;
b) Condições sociais: falta de controle
social, desorganização familiar, falta de oportunidades
de emprego, educação;
c) Condições econômicas: necessidade
financeira, falta de recursos financeiros para angariar a droga, dívidas
com traficantes;
d) Situacional: ambiente, local de moradia, convivência
com outros delinquentes (“vizinhança”).
Apesar da importância dos múltiplos aspectos psicossociais
na gênese do crime, o consumo inadequado de álcool e de outras
drogas, seguramente, representa importante fator complicador.
O Departamento de Justiça de Washington afirmou, em 1997, que cerca
de 33% dos apenados das prisões estaduais e 22% das federais admitiram
ter feito uso de drogas no momento das atividades delitivas. O mesmo departamento
informou, em 1996, que 16% dos apenados realizaram o crime com o objetivo
de obter dinheiro para sustentar o vício. Também, cerca
de 62% dos apenados de instituições estaduais e federais
registram uso regular de alguma droga antes das suas sentenças.
Estudos apontam que cerca de dois terços das mulheres confinadas
em prisões americanas fazem uso de drogas ilícitas. Outros
constataram que, entre os condenados usuários de heroína,
na Espanha, havia maiores taxas de crimes contra a propriedade (roubos
e invasão domicílio) do que entre os apenados não
dependentes químicos.
Em função desses dados, tem havido um aumento das solicitações
de avaliações psiquiátrico forenses para agressores
usuários de drogas, com os seguintes objetivos:
a) realizar uma acurada avaliação do examinando,
verificando o diagnóstico de Abuso ou Síndrome de Dependência
de substâncias psicoativas, bem como a existência de outro
transtorno psiquiátrico co-mórbido;
b) avaliar a necessidade e potencial benefício
de um tratamento psiquiátrico ou psicológico.
No Brasil
Em estudo realizado no Brasil com condenados por crimes sexuais violentos,
cerca de 40% da amostra estudada apresentam sérios problemas com
o consumo de álcool e outras drogas, principalmente maconha e cocaína/crack.
Em outro estudo brasileiro envolvendo mulheres condenadas por roubo ou
homicídio, a história de consumo de drogas foi mais precoce
e a gravidade do abuso de substâncias mais intensa entre aquelas
que perpetraram roubos.
Também, evidência científica demonstra que a manutenção
do consumo de substâncias psicoativas é um dos mais importantes
fatores associados às altas taxas de reincidência criminal.
Perpetradores de crimes violentos, frequentemente, relatam consumo de
álcool antes dos atos ilícitos, tais como estupro, roubos,
violência doméstica e homicídios.
Pesquisas têm demonstrado que, mesmo quando outras variáveis
demográficas (sexo, status socioeconômico, estado marital)
e psiquiátricas (traços impulsivos de personalidade) são
controladas, o consumo inadequado de bebidas alcoólicas continua
fortemente associado com violência física.
Além disso, o álcool etílico também está
relacionado à perpetração de 50% de todos os homicídios,
a 30% dos suicídios e tentativas de suicídio e à
grande maioria dos acidentes fatais de trânsito.
De fato, trata-se de tema bastante complexo. Devido à estreita
associação entre o consumo inadequado de substâncias
psicoativas com as atividades criminosas, torna-se imperativo o desenvolvimento
de propostas racionais para o tratamento médico e psicossocial
de pessoas que padeçam desse problema.
O tratamento adequado dos quadros de abuso e dependência de substâncias
deve ser disponibilizado dentro e fora do sistema penitenciário,
associado com outras formas de re-socialização. A avaliação
criteriosa dos dependentes químicos deve ser realizada por profissionais
especializados, de tal forma que as abordagens médicas e jurídicas
para esses indivíduos sejam justas, sérias e direcionadas
à promoção de saúde e bem-estar individual
e coletivo.
Abaixo, forneço interessantes referências sobre o tema:
Baltieri DA, de Andrade AG. Drug consumption among sexual offenders against
females. Int J Offender Ther Comp Criminol 2008;52(1):62-80.
Alemagno SA. Women in jail: is substance abuse treatment enough? Am J
Public Health 2001;91(5):798-800.
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